quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Operários...

André Gorz, em seu livro "Adeus ao proletariado: para além do socialismo", elabora uma tese que causou/causa muito mal-estar à Esquerda, mas que nestes tempos contra-revolucionários, vale muito à pena ser lido e refletido. Ainda que não comungue com as idéias ali postas, acredito que é uma incursão que deva ser feita, porque há momentos que, envolto nas minhas contradições, começo a achar que a tal da consciência de classe, já anunciada lá pelos idos do século XIX, não passa de cortina de fumaça! Sei que é uma heresia tal afirmação, mas quando determinadas coisas acontecem, sou tomado pela incredulidade: por mais que sonhemos, parece que tudo não passa de utopia no sentido do inatingível!
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Quando trabalhava na iniciativa privada, esse período de final de ano era repleto de "boas ações e solidariedade" por parte dos patrões! Essa atitude fazia com que os operários, de certa forma ingênuos, acreditassem que os "presentes doados" fossem dádivas! Muito ficavam cheios de orgulho e viam os empresários como verdadeiros papais noéis! Na empresa que trabalhava, o dono costumava fazer um discurso onde afirmava que "o faturamento da nossa empresa, naquele ano, possibilitara dar aquelas cestas de natal!" Alguns colegas chegavam a chorar com a emoção provocada por aquelas palavras! Ficava sem jeito, constrangido até no meio daquela "festa"! É fato que a participação no sindicato me ajudava a não acreditar naquela versão de pai/patrão! Contudo pensava que aquilo logo, logo deixaria de acontecer porque todos perceberíamos que aquela era conversa para boi dormir, não passava da grande farsa que esconde, por trás do tal espírito natalino, a exploração mais cruel e desumana da força de trabalho!
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Na hora do almoço, no espaço de pesagem dos alimentos, um dos funcionários estava eufórico. De repente, começa a falar sobre o "presente" que o dono do restaurante lhe dera. Dias antes, tinha presenciado o início de incêndio no setor desse funcionário e vira como eram as suas condições de trabalho. Naquele dia, por pouco não fora explodido junto com os botijões de gás que o circundam nas suas tarefas quotidianas. Ademais, por vezes, exerce dupla função: assa as carnes e ajuda na balança. Mas naquele momento, em que recebera seu presente de fim de ano, sua felicidade era superlativa! Dissera-me que todo ano seu patrão dava um chester a cada um no natal, porém esse ano fora diferente, até aquele momento, penúltimo dia do ano, ninguém recebera nada! Já estava desesperançado, quando o dono convocara os empregados e perguntara se queriam ganhar vinho ou queijo, antes de qualquer resposta, o bom patrão anunciou que daria os DOIS! André Gorz, no livro que abriu essa conversa, afirmou textualmente que "a alienação só pode ser superada fora do trabalho assalariado." Eis uma questão das mais controversas. Não parece um paradoxo diante de tudo o que acreditamos em relação ao trabalho e aos trabalhadores?...

domingo, 28 de dezembro de 2008

Pais e Filhos...

Saí momentaneamente e ao olhar o céu, vi que estava azulzinho com aquelas belas nuvens de algodão recobrindo-o! Isso no cair de uma tarde de verão é muito lindo! Sem querer, lembrei de meu pai. Na realidade, uma fugaz memória de infância, rápida como um cometa, apossara-se de mim naquele momento! Recordei que numa tarde parecida, sentado estava na janela que dava para o pátio da casa em que fui criança, quando mais que de repente, uma "arraia" (esse é o nome que nós soteropolitanos damos àqueles retângulos que ficam no ar ao sabor do vento, mas que em outros lugares, nem são retângulos, são chamados de pipas) caiu bem pertinho de mim! E para aumentar a minha alegria, tinha uma quantidade enorme de linha, ou seja, no jargão dos empinadores de arraia, ela fora cortada na "mão"! Meu pai, então, começou a me mostrar sua técnica para enrolar toda aquela linha sem embaraçar! Não sei por que essa reminiscência veio à luz da minha memória, talvez seja por saber que aquele sujeito que quando menino me ensinara alguns truques, como o descrito, deixara de existir! Tivera a notícia seis meses depois do ocorrido e fui tomado por um sentimento de perda, que não sei explicar direito o porquê.
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Digo tudo isso sem nenhuma intenção de emocionar ou buscar a sua solidariedade com o ocorrido, meu caro e desconhecido leitor! Mesmo porque, a minha relação com ele nem sequer se aproximava daquela que Fábio Júnior tinha com o dele! Nem tive tempo de saber se o meu fora herói ou "bandido"! O que trago é um "contraponto", isto é, dizer que nem sempre as relações entre pais e filhos são generosas ou parceiras, mas, ainda assim, a figura paterna nos marca de forma indelével! Por estranha força nos vemos querendo agradá-lo, mesmo que já não tenhamos mais idade para aquilo! Até quando somos "rebeldes", o intuito não é outro: queremos chamar sua atenção! Há um ensaio do Bourdieu, chamado "As Contradições da Herança", que tenta desvelar essa relação tão idiossincrática!
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Nem sequer fôramos amigos, longe disso, o contexto da relação nos transformou em dois estranhos! Um antigo professor ao saber dessa minha história, sugeriu que o procurasse o quanto antes. Entendia essa sugestão, não como um acerto de contas e sim um modo de ficar com a minha consciência traquila! Juro que em alguns momentos, cheguei a pensar nessa possibilidade, contudo o que reteve a minha decisão não foi, como pode parecer, nem a minha arrogância, nem uma possível prepotência! O que realmente me imobilizava, era o medo de que ele entendesse que o objetivo era outro! Ademais, havia um segundo elemento preponderante nessa equação: seria hipocrisia, já que eu não estaria sendo movido pela emoção filial, aconteceria o encontro entre dois desconhecidos que talvez nem "lembrassem" seus nomes! A morte nos faz pensar em coisas que julgávamos sepultadas, não sei de onde tirei essa idéia, mas sempre achei que meu pai era indestrutível! Que ele jamais morreria...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Contradições Bancárias...

Levantou de manhãzinha, na verdade, fora despertado pelo toque doce e suave do celular! Coisa estranha desse nosso tempo, o antigo despertador perdeu totalmente a função: nos acordar para o "batente"! Se antes o barulho desses relógios era impactante, hoje, esses novos aparelhinhos nos acordam com o som que desejarmos! Temos do clássico ao brega! De Chopin a Chitãozinho e Chororó, os sons do celular "embalam" nossos dias! Na realidade, sons que ao invés de nos acordar, aprofundam os nossos sonhos! Mas eu falava que o sujeito acordara cedo, naquele dia. Tinha algumas coisas para fazer, tais como: pagar algumas contas, trocar o endereço das correspondências, enfim, tarefas rotineiras, típicas de um cidadão comum!
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O fato é que sentia uma verdadeira raiva de bancos! Aliás, quem não tem uma história de banco para contar! Quem nunca foi surpreendido por aquele sujeito que entra e logo é atendido porque conhece ou gerente ou aquela atendente gostosa, enquanto a maioria dos pobres mortais sofrem nas longas filas? Um camarada me falou que o melhor lugar para quem quer ficar estressado é em agência bancária! Contudo, naquele dia, seria diferente, nada tiraria o humor do nosso herói, afinal, fora despertado por Adriana Calcanhotto! Não, não, dissera ele, aquele dia não seria igual a tantos outros!
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Entrou confiante na agência e fez o que, costumeiramente, todo mundo faz, ou seja, colocou chaves, celular e outros pertences capazes de travar a porta giratória, naquele tosco recipiente de acrílico! Uma coisa sempre o intrigara: será que alguém que vai assaltar um banco, ou qualquer coisa que o valha, costuma entrar na porta giratória com uma metralhadora? Na verdade, pensara, essas portas foram forjadas para irritar o correntista comum, aquele que esquece justamente a chave da mala do filho que fora colocada no seu bolso, levando a tal da porta a aprisioná-lo. Aliás, falando de porta, já notaram o prazer mórbido que aqueles guardinhas dos bancos sentem ao nos ver presos naquela geringonça? E quantas vezes, mesmo com algo de metal no bolso, quando eles querem e desejam, elas se destravam como num passe de mágica?!
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Mas essas eram coisas que não conseguiam irritar nosso amigo, naquela manhã de dezembro! Foi até a maquina, retirou sua senha e esperou. Pretendia fazer três pequenas coisas: ampliar o limite do cartão, alterar seus dados pessoais e trocar o endereço de correspondência, tudo, como vemos, muito simples! O mais incrível é que mesmo o natal estando próximo, sua senha fora a de número 3! Tudo levava a crer que o dia prometia! Foi chamado quase que imediatamente e, para sua alegria, o atendente era o mesmo que gerenciava a sua conta, "que maravilha", exclamou! Pela primeira vez na vida não haveria nenhum estresse bancário!
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Para simplificar, começou pelo mais fácil: a troca de endereço, pelo menos foi o que ele pensou! Ao término da sua solicitação, a mesa do outro lado perguntou: trouxe algum documento que prove que você mora onde diz? Atônito e surpreso, balbuciou, não, e precisa? Quero apenas que minhas correspondências vão para esse endereço! No que a mesa retrucou: como posso saber que você é você mesmo? Calmamente respondeu: eu estou dizendo que eu sou eu e minha cédula de identidade me identifica, sabia que era redundante, mas fazer o que?! A mesa impassível respondeu, ainda assim, preciso de algum comprovante que confirme que você mora onde diz que mora! Notara que sua palavra nada valia, aquilo começara a ficar surreal, nosso herói não resistiu, começando a atirar seus documentos para todos os lados, completamente furioso, afirmando que caso o endereço não fosse alterado, entraria em contato, imediatamenteo, com a ouvidoria! Neste momento, por uma estranha razão, a mesa caiu em si! O anúncio da palavra mágica OUVIDORIA, mudou o rumo da conversa! A mesa disse que estaria quebrando o protocolo, mas que mudaria o endereço! O mais curioso é que semanas antes, um atendente do mesmo banco dissera que não precisava de identidade para que se fizesse uma transferência de valores, contudo para mudar o endereço, que poderia ser alterado pela internet, era necessário comprovante de residência e, caso o sujeito morasse de aluguel, uma cópia do contrato! Moral da história: para o banco é mais importante que você comprove em que lugar está morando do que facilitar a saída do seu dinheiro, neste caso, os fascínoras agradecem..

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Cenas Soteropolitanas...

Existem coisas que só "acontecem" na Bahia! Não estou querendo dizer com isso que aqui é melhor ou pior que em outros lugares, mas que causariam estranheza ou incomodo, em outras paragens, isso é certo! Fico imaginando como um pedestre de Floripa "sobreviveria" no transito soteropolitano! Nesse dia, aconteceram alguns "incidentes" dignos de nota, são cenas que os soteropolitanos interpretam a cada segundo dos seus dias, a cada hora de suas existencias que surpreendem ao mais incrédulo dos mortais!
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Cena um - Cidadão comum pára seu carro numa das ruas mais movimentadas do Comércio, centro financeiro da cidade, abre a mala, lá está colocada uma quantidade enorme de panetones, não me perguntem a marca, e começa a negociar como se estivesse num supermercado ou quitanda, ou seja, em lugar propício para a venda de alimentos! Fiquei intrigado, seria possível comercializar alimentos naquele espaço? O mais estranho é que ali perto, uma viatura da polícia não tomava conhecimento do que ocorria. Pensei, cá com os meus botões, se não seria a vigilancia sanitária a mais indicada para dirigir aquela cena,será que estou correto?
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Cena dois - Existem cidades em que a venda de dvd e congeneres, pelos ambulantes, é cercada de todo um ritual para que a polícia não veja. Em Floripa, por exemplo, há anúncio do "produto", mas ele só aparece caso o cliente resolva comprá-lo, isto é, os caras ficam anunciando, às vezes, bem perto de voce para evitar qualquer "suspeita" dos órgãos de repressão! A primeira vez que isso aconteceu, achei estranho, pensei até que era brincadeira! Entrementes, em Salvador, os títulos além de ficarem à mostra, à escolha do fregues, são espalhados, em alguns momentos, na via pública, numa privatização acintosa da calçada!
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Cena tres - Essa talvez tenha sido a que mais me assustou! Na verdade, fiquei entre surpreso, boquiaberto e preocupado! Aliás, é preciso que se diga, já tinha visto coisa parecida quando cheguei em Jequié, nos fins da década de 1990! Na ocasião, bastavam os professores dizer que eram da Adusb, a associação dos docentes da universidade, que os comerciantes saiam vendendo tudo! Era estranho para alguém que vinha da capital, vivenciar coisas daquele tipo! Não exigiam nada que comprovasse que o sujeito estava dizendo a verdade, na realidade, coisas de cidade do interior, onde todo mundo se conhece! A cena contemporanea aconteceu no caixa do banco do Brasil. Fui pagar um boleto com o cartão de débito/crédito e fiquei esperando o funcionário me pedir um documento qualquer de identidade, como é comum, que confirmasse que eu era eu, ora! Como nada aconteceu, perguntei: "não quer nenhum documento comprobatório?" Para minha surpresa ele me saiu com essa pérola: "não precisa, eu sei que você é você!" Fala a verdade, não parece brincadeira? Sei, dá a impressão que estou inventando para que essas bem traçadas linhas tenham alguma graça, não é? Certa feita, Waly Solomão, poeta baiano, disse: "não é fácil viver entre os insanos." Digo eu, neste momento: como é difícil entender esse jeito soteropolitano de ser...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Segunda Divisão...

Durante muito tempo a discussão sobre a "virada" de mesa fez parte do cotidiano midiático. Era emblemática a frase "time grande não cai!" Bahia, Fluminense e Grêmio foram exemplos dessa indecência! Ninguém em sã consciência imaginaria que times como Palmeiras, Botafogo, entre outros, poderiam, em passado recente, disputar a segunda divisão. O mais estranho é que existem cronistas que, "inconscientemente", adorariam que esses tempos voltassem! Estou dizendo isso porque em seus programas esportivos não demonstram nenhum constrangimento em sugerir que haja uma "proteção" àqueles clubes considerados grandes! Surgiu a proposta de redução dos que devem cair: "quatro é um número alto, poderiam ser apenas três", dissera Marcos Antonio Rodrigues, jornalista do canal Sportv! Ora, essas conversas só aparecem quando no caminho da segunda divisão está um daqueles times que, mesmo caindo das pernas, haja vista o Corinthians no ano passado, dão uma audiência enorme! Não se briga pela qualidade ou lisura nos campeonatos e sim pelo lucro que está agregado à marca de determinados clubes!
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Há males que vêm para bem, confirma a sabeboria popular. O lado bom dessa história é que a hipocrisia, que rondava o evento esportivo, vai aos poucos desaparecendo: futebol é negócio, é dinheiro, portanto, quem compra os campeonatos está muito mais interessado, seria burrice se fosse o contrário, no lucro que vai ter e não naquilo que falaciosamente anuncia. Frases do tipo: "engradecimento do esporte brasileiro", não passam de conversa para boi dormir, de novo, a sabedoria popular se enuncia! Todo esse alvoroço porque o mais novo candidato à segunda divisão é o Vasco da Gama. Esse pequeno time "grande" tem provocado angústia na torcida e polêmica na imprensa, principalmente depois que o presidente do Flamengo, seu principal rival, afirmou que não seria bom para o futebol carioca que o time de São Januário fosse rebaixado! Torcedores revoltados com essa declaração pichou os muros da Gávea "exigindo" que o time perca para o Atlético do Paraná, inclusive com anúncio de "sentença de morte", caso ocorra o contrário, dá pra entender?
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Há um desejo "velado", na mídia, querendo que ao invés de o Vasco descer, outros possam seguir essa senda. Alguns jornalistas "perguntam" cinicamente: por que não o Náutico, ou o Figueirense, ou o Atlético Paranaense, que são times "pequenos"? O argumento é que a queda dos "grandes" clubes é prejudicial para o futebol brasileiro!? O lugar de direito de clubes como o "grande" Corinthians é na primeira divisão! Embora o velho Aristóteles tenha morrido há tanto tempo, sua lógica está atualissima na mídia esportiva! Se essa é a idéia geral, para que as quatro divisões? Por que não dizer logo que esse negócio de acesso e descenso só vale, só tem sentido quando o candidato for o Ipatinga ou America/RN? Usando da mesma lógica, podemos afirmar que a queda do Vasco da Gama é inevitável. Renato Gaúcho não quis "conversar" com o pastor da Igreja Universal do Reino de Deus que tinha uma "mensagem" para ele, por isso deverá ser castigado! Diz Aristóteles: "se o time "grande" que "desabou" no ano passado era preto e branco, logo essas serão as "cores" de um dos rebaixados desse ano, quem viver, verá"...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Meus Camaradas...

Tinha o intuito de voltar a escrever aqui só no ano que vem. Além do cansaço, percebi que estava sem assunto. Contudo as chuvas que desabam sobre Santa Catarina, de forma impiedosa, traz-me de volta, não para falar da catástrofe, não penso que a dor que os Catarinenses estão sentindo seja amenizada se mais e mais pessoas resolvam falar sobre o assunto, mostrando-se condoídas com suas dores! Eles precisam, sim, que aqueles que possam ajudar, ajudem! Nada daquelas conversas de urubu! Aquelas que aparecem justamente nas calamidades, com o único intuito de angariar simpatias, possíveis votos num futuro bem próximo! Percebam que a tragédia dá muito ibope, haja vista a cobertura das emissoras locais e as redes! As pessoas estão sofrendo muito, principalmente as que têm uma renda que não lhes permite "fugir", as que literalmente não têm para onde ir! É preciso que se diga que a solidariedade deve ser com todos. As casas que desabaram, que foram levadas pelas enchentes, muitas delas, foram construídas seguindo rigorosamente o que mandam os manuais da construção civil! A chuva não escolheu classe social, derrubou o que viu pela frente! Porém não foi essa a razão que me levou a alinhavar esses caracteres! O motivo pode ser considerado egoísta. Que me perdoem os cidadãos Catarinenses nessa hora! Isso não quer dizer que não esteja sentido com o que está ocorrendo, muito pelo contrário, espero, desejo que venha logo a bonança! Além do mais, o tratamento que venho recebendo por parte dos que aqui vivem tem sido de uma generosidade que não há palavras que possam traduzir a minha gratidão! Quem passa por aqui sabe que, está anunciado na "entrada" do blog, estou de "passagem", minha terra é a Bahia! Neste sentido, por estar longe, muitas pessoas queridas, preocupadas em saber como estou me "virando", obrigaram-me a escrever egoísticamente para tranquilizá-las! Ora, não era para menos, afinal, as imagens que estão sendo veiculadas dão a impressão que o Estado de Santa Catarina inteiro foi "varrido" do mapa! Não foi bem isso que aconteceu, mas a situação é das mais preocupantes, cidades inteiras estão sob águas! Contudo, meus camaradas, saibam que estou bem, embora muitos filhos da terra, neste preciso momento, estão sem casa, sem água, sem luz, sem telefone, completamente ilhados, precisando de ajuda...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Futebol e ciencia...

Faltando apenas quatro rodadas para o término do Brasileirão, e a partir de uma investigação científica, resolvemos apontar os quatro clubes que vão disputar a Libertadores, incluindo o campeão brasileiro e aquelas equipes que vão disputar a série B em 2009. É preciso deixar claro que não se trata de palpite, algo sem fundamento e envolvendo paixão clubista, como fazem muitos dos jornalistas esportivos, puxando a brasa para os times das suas respectivas regiões. As análises que possibilitaram chegarmos às conclusões apresentadas tiveram o aporte da matematística, ciencia cujo grande incentivador é o professor John Hockley, da Universidade de Princeton, ganhador do premio Nobel de Física.
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A pesquisa, que teve a assessoria do professor Hockley, contou com, além de pesquisadores brasileiros, estudiosos distribuídos por todas as partes do mundo que fizeram, em seus respectivos países, os mesmos cálculos para seus campeonatos e deverão, muito em breve, trazer a público os resultados a que chegaram. É preciso que se diga que toda a investigação foi construída com todo um rigor teórico-metodológico, descartando qualquer viés metafísico na elaboração dos resultados.
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O trabalho utilizou todas as partidas realizadas até aqui e, para evitar erro nos cálculos, fez uso da fórmula do professor
Hockley, sinalizada na seguinte equação: pi elevado a quinta dividido por quatro. A título de esclarecimento, o quatro indicado no extremo da fórmula é justamente a quantidade de rodadas que faltam para finalização do campeonato, também foi colocada em relevo a operacionalização das variáveis, possibilitando, com isso, um aprofundamento no campo das hipóteses. Houve inúmeros pré-testes dos instrumentos de coleta, cuidado fundamental para uma interpretação de dados rigorosa e sistemática. A categorização dos dados esteve alicerçada na premissa que o professor Hockley chama de face to face. Os resultados apontam para a seguinte classificação do Brasileirão 2008: 1º Cruzeiro, 2° São Paulo, 3º Gremio e 4° Palmeiras; em relação aos clubes rebaixados, teremos: 17º Vasco, 18º Fluminense, 19º Figueirense e 20º Ipatinga.
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É preciso que se diga que ao anunciar esses resultados, não queremos, em hipótese alguma, criar polemica com quem quer que seja, muito pelo contrário, nosso objetivo principal é colocar a ciencia a serviço do esporte e, ao mesmo tempo, estimular as pesquisas nesta área de estudos que, até cinco anos atrás, era totalmente desconhecida. Não fora o esforço, em alguns momentos, solitário do professor Hockley, é muito provável que esta pesquisa fosse engavetada, mas esse grande benemérito não poupou esforços para trazer à luz este conhecimento, o que lhe possibilitou ganhar o premio nobel de física. Não podemos esquecer que são pessoas iguais a ele que humaizam as pesquisas e possibilitam enxergar, para a espécie humana, um tempo de prosperidade, igualdade e fraternidade...

sábado, 8 de novembro de 2008

Nu artístico...

Há os que elogiam aqueles que militam na área das artes, chegando, em alguns momentos, a afirmar que a vida seria diferente se fossem os artistas que estivessem no poder. A razão para tamanha esperança está relacionada com a sensibilidade que essas pessoas demonstram! O que esquecem é que Clodovil, Frank Aguiar, Alexandre Frota, Gilberto Gil, que foi vereador em Salvador, entre outros, também fazem parte desse grupo de "iluminados"! Há um filme que retrata muito bem essa associação entre arte e política, demonstrando o quanto os artistas são "sensíveis": Mephisto. Vale à pena vê-lo e tirar algumas conclusões! O fato é que artistas sempre passam um ar de neutralidade que muitos incautos acreditam. Quem já se esqueceu de Marília Pera e sua "neutralidade", na eleição do Collor? Ainda está em nossas mentes Regina Duarte dizendo que estava com medo da eleição do Lula!
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Mais recentemente, quando apareceu a possibilidade de dividir o "bolo" de recursos entre arte e esporte, vimos a forma como os grandes "monstros sagrados", capitaneados pela Senhora Fernanda Montenegro, saíram em defesa da classe artística, afirmando que esta divisão levaria a uma perda substancial para aqueles que nos proporcionam os grandes momentos de alienação com seus espetáculos. Não podemos esquecer que grande parte da arte no Brasil é subsidiada pelo Estado, o que não deixa de ser um grande paradoxo!
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É provável que não estejam entendendo nada, ora, a foto síntese de hoje mais parece chamada de filme pornográfico tipo B! Mulheres mostrando provocativamente suas partes pudendas! Um verdadeiro convite ao sexo! Não, meus camaradas, não se trata de apelação com o intuito de atrair mais e mais visitantes! Como já perceberam, as fotos são de duas atrizes que já fizeram sucesso nas novelas globais: Leila Lopes e Claudia Ohana. Contudo o que aproxima essas duas mulheres? Bem, a primeira causou um verdadeiro "mal-estar" por ter "estrelado" um filme pornográfico intitulado pecados e tentações; a outra, um grande alvoroço ao posar nua e chamar muita atenção pela quantidade de pelos nas suas partes baixas, isso há 23 anos, porém há uma versão mais recente em que ela afirma que está mais clean!
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Sem tomar qualquer partido, acontece que a hipocrisia se fez presente tanto entre os artistas, sim, os considerados sensíveis, como também nos espaços midiáticos! Desqualificaram Leila Lopes por fazer aquele tipo de filme e, ainda por cima, estimular as libidos com suas proezas sexuais explícitas! Que grande heresia, afinal, fora estrela de novela na Globo! Está certo que andou negando para depois explicar o inexplicável, contudo todas as reações foram moralistas e hipócritas! Com o mesmo tema, Cláudia Ohana esteve no Jô Soares para "LANÇAR" a playboy! O ponto mais destacado foi a diminuição dos pelos em relação à versão anterior. Nada mais que isso! Algumas cenas de filmes, de novelas, apenas como enchimento de chouriça, o que estava em destaque era, sem sombra de dúvida, sua perereca menos cabeluda! Porém, neste caso, era o chamado nu artístico! Há arte nas fotos de Ohana, coisa totalmente ausente no filme pornográfico de Leila, em que quase vemos o útero da "heroína"! Fico me perguntando qual o desejo de Ohana ao se mostrar naquelas posições, na revista. Talvez, quem sabe, que o "analista", ao término da "leitura da obra", vá rezar?! O que não resta dúvida é que ambas fizeram por dinheiro, logo isso pode ser chamado de "prostituição"! Venda do corpo por dinheiro. A linha que separa Ohana, Lopes e a prostituta mais miserável é o valor do "coito", nada mais que isso...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

English da Bahia...

Os antigos "latifundiários" da Bahia, no período do carlismo, usando a criação de novos empregos como chamariz, levaram para a cidade de Camaçari, na região metropolitana de Salvador, a primeira montadora de automóveis da região nordeste: a Ford. Até aí, em que pese todas as contradições que projetos dessa envergadura carregam, nada que fuja aos padrões de competição entre Estados na disputa por uma fatia do mercado automotor. A implantação da fábrica significava recursos que iam para além da mera inserção no setor! ACM ameaçou FHC afirmando que, caso este não assinasse a Medida Provisória do Regime Especial Automotivo para o Nordeste, necessária para regularizar as isenções fiscais concedidas à Ford, levaria o PFL, atual DEM, para a oposição: era o toma lá, dá cá, bem no estilo do velho cacique. O triste nesta história é percebermos que esse era o tipo de político que tínhamos(?).
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Naquele período houve discussões homéricas sobre o assunto. A elite política baiana invadia um segmento ausente no universo economico da região: entrava na indústria automobilística, espaço antes reservado ao centro sul do país. Contudo, e os filhos da terra sabem disso, para quem conseguiu um canal de TV e logo em seguida tomou de assalto a Globo, que naquele momento era retransmitida pela elite decadente do Estado, os Vianas, isso era coisa pequena. Não podemos esquecer de outra "ousadia" do grupo de Malvadeza, alcunha de ACM. Os Caras mudaram, sem nenhum constrangimento, o nome do aeroporto do estado, que emblematicamente se chamava (?) Dois de Julho! Imaginem alguém que tem o filho morto e resolve lhe prestar uma homenagem dando seu nome a um dos maiores símbolos de um Estado, não parece coisa do século XIX?
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A "impressão" é que a Bahia era/é um grande latifúndio e cada um vai pegando seu pedaço, "a parte que lhe cabe". O fato é que, para nossa sorte, o latifundiário maior desapareceu, mas, infelizmente, sementes ficaram! No fim, o mal já estava feito e a Ford foi instalada no Estado, nem poderia ser diferente, com todas as regalias que obteve, era negócio de pai para filha! Todavia o que me causou estranheza e espanto, embora já saibamos que em todo comercial de automóvel a música de fundo é de língua inglesa, foi a nova propaganda do Focus da Ford, de Camaçari! Na verdade, estamos reclamando de barriga cheia, vemos que houve "evolução"! Já não é mais o inglês a canção de fundo, com todas aquelas estradas desimpedidas, sem buraco algum ou qualquer coisa que impeça o livre transito do motorista e seu prazer em dirigir!
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No comercial do Focus tudo gira em torno de uma música. Desde os primeiros esboços até a aparição triunfal do automóvel, todos os personagens, indistintamente, que aparecem no comercial, cantam happy together como se fosse algo tão natural que temos a impressão que estamos em algum país de língua inglesa! Fiquei entre surpreso e angustiado. É que ao longo de minha vida, sempre afirmei, e continuo afirmando, que na Bahia não há sotaque. Falamos tal e qual a Rosana Jatobá, a baiana do Jornal Nacional. Vejo na peça publicitária não só a confirmação de minha tese, como também, e é isso que é mais grave, já não falamos mais nosso bom e velho baianês. Nossa língua agora é a de Shakespeare! Oh, God, que aflição atroz: To be or not to be that is the question. Será que perdemos nossa identidade ou existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia?...

sábado, 1 de novembro de 2008

Ironia do consumo...

Como estamos, a cada dia, mais submetidos aos "avanços" tecnológicos, e as novidades, neste mundo do descartável, acontecem a cada milionésimo de segundo, é muito difícil para aqueles que ganham míseros trocados acompanhar essa rota desenfreada, cujo desejo é TER o mais novo lançamento! Contudo os diversos anúncios midiáticos não estabelecem quaisquer limites, querer é poder. As imagens dão a idéia de que aquilo que está sendo oferecido está acessível a qualquer pessoa, nada de novo, afinal, é essa a lógica do sistema! Aquele fusca metido a besta (new beetle) pode ser seu por apenas cinquenta e nove mil e quinhentos e noventa reais! "Você tem fome de quê? ... Necessidade e vontade, necessidade e desejo", diziam os Titãs! No momento, em que esses caracteres são alinhavados, é bem provável que alguma nova "geringonça" tenha sido adicionada àquele tipo de artefato tecnológico desejado por dez entre dez pessoas! "Você já viu o novo modelo de celular da ericnoLGradisungmotokia que foi lançado?"
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Estou falando de tudo isso porque, aqui na Montanha Gelada, aconteceu um fato, mostrado na tv, que ilustra muito bem o que é desejo e vontade de ter, sem poder, e as estratégias possíveis para se conseguir o que se deseja, não importando os meios! Uma cliente deixou seu celular, top de linha, sobre o balcão de uma loja, enquanto conversava com o vendedor. Vejam só, aquele sonho de consumo, solitário, estava pedindo para dar um passeio, pelo menos foi o que pensou o sujeito, “agente” como se diz em Direito Penal! Ele, sem nenhum medo ou constrangimento, pegou o celular e saiu correndo desesperadamente! Não vou negar que fiquei surpreso com aquela ação porque não via nenhuma possibilidade de sucesso. Policiais que faziam a ronda habitual conseguiram pegar o indivíduo poucos metros à frente. Mas, para surpresa deles, o celular tinha desaparecido! Como isso pôde acontecer? Ele não tivera tempo suficiente para entregá-lo a alguém. Contudo, sem nenhuma violação dos direitos humanos, pelo menos foi o que disseram os agentes da lei, o cidadão confessou livremente onde escondera o celular! A proprietária ao saber que fora colocado no ânus do sujeito, mandou jogá-lo no lixo! Ironia do consumo. O celular deixara de ter valor de troca, agora valia tanto quanto o "ladrão" que o roubou...

sábado, 25 de outubro de 2008

Controle Remoto...

Por pura catarse resolvi desabafar, nem sei se aqui é o lugar mais indicado. Na realidade, nada melhor do que colocar os nossos fantasmas porta afora! Fico me perguntando porque os seres humanos inventaram uma coisa tão estranha e deram o singelo nome de AMOR! Sentimento afeito a enormes contradições! Pois é, temos entre os milhões de conceitos este que é sublime, porque fala diretamente ao coração! É bem provável que aquela canção, daqueles dois irmãos chatos, cujo pai se chama Francisco, fique enjoativamente ecoando na sua cabeça! Faz-se de tudo por amor! Mata-se inclusive. Aliás, há contradição maior do que destruir, fazer desaparecer o ente que você diz amar?
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Nos dias que antecederam à tragédia de Santo André, fiz uma série de ironias que agora me causam vergonha e constrangimento! Jamais, em tempo algum, pensei que aquele indivíduo tivesse coragem de destruir a vida da menina Eloá, inclusive, vislumbrei um desfecho mais coerente: o suicídio do bandido, afinal, era ele quem não conseguia viver sem ela, tudo fora feito por causa da paixão que o consumia! Mas nem tudo é tão simples como imaginamos, não há lógica na maioria das nossas atitudes. Somos seres imponderáveis, às vezes, desprezíveis! Foi Andy Warhol quem disse que todos teríamos quinze segundos de fama! Pois é, não poderia ser diferente! A mídia caiu de boca, sequiosa pelo sensacionalismo que o caso lhe proporcionava! Lindemberg se tornou, em poucos dias, "atração" nacional! Todo mundo queria saber qual seria o desfecho daquele drama. O estranho, para os padrões televisivos, é que se tratava de pessoas comuns, esse não era um caso típico da "classe média". O fato é que só na tragédia o drama do pobre aparece na TV! Aliás, o caso garantiu, em alguns momentos, o primeiro lugar da audiência para a rede do bispo! E, para espanto de alguns, uma apresentadora de TV, Sonia Abrão, teve a infeliz idéia de conversar ao vivo com o assassino! Sinal dos tempos: entrevista com o criminoso, antes de o crime acontecer!
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Neste circo sem pão, aconteceu algo que reforçou a sensação que tudo aquilo não passava de uma farsa. O momento em que a "refém", é de se causar estranheza, voltou a ser refém! Nada mais paradoxal! Tudo levava a crer que o sequestro ia acabar bem! Mas estamos vivendo o tempo em que a mídia transmite as desgraças ao vivo, não importam as consequencias, o importante são os números do ibope! Tivemos acesso à conversa do sequestrador, onde este, subrepticiamente, afirmava ao policial que aquilo não ia terminar bem! Ironia do destino, descobriu-se que embaixo da tragédia havia outra. O pai da menina, além de ter ficha na polícia de Alagoas, era/é cúmplice do sequestrador, que por sinal, é membro de uma quadrilha em Santo André! Essa seria a principal razão de ele não se opor ao namoro da filha, que já fora espancada, em algum momento, pelo criminoso! Nelson Rodrigues disse que brasileiro só é solidário nas tragédias, causa-nos deleite as misérias dos outros. Vimos como o acontecimento desumano do ônibus 174, também transmitido em rede nacional, se transformou em "arte". Este caso, por estranha ironia, tem todos os ingredientes para que isso se repita, prova da materialização da barbárie, Mészáros, em outro contexto, afirmou que se tivéssemos sorte chegaríamos lá...

sábado, 18 de outubro de 2008

Térreo...

Na música do Rappa, Rodo Cotidiano, o "herói" trabalhador procura por caneta e papel para registrar a inspiração que a "musa", entreolhada no trem lotado, lhe proporcionara: "a idéia lá, comia solta, subia a manga, amarrotada social, no calor alumínio, nem caneta, nem papel, uma idéia fugia, era o rodo cotidiano." Falar de cotidiano com suas simultaneidades torna certas situações, não apenas caricatas, mas também sarcásticas! O "herói" da canção com sua marmita às costas, "quentinha abafada", sufocado na minhoca de metal, ainda tem tempo de se inspirar. Falamos de movimento em espaço exíguo onde muitas pessoas se amontoam!
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Não sei por que estranha razão, vi uma analogia entre o trem do trabalhador da canção e as muitas quitinetes espalhadas pelo país! O trem se desloca para os mais variados lugares; na quitinete é bom não ficar se deslocando muito porque além de as paisagens não variarem, logo, logo, nos chocamos com algum móvel que está justamente onde não deveria. Neste caso, você poderia perguntar, onde está a analogia? Olhemos para seus interiores! Em ambos, os espaços são tão reduzidos que somos espremidos em meio a pessoas e coisas!
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Quando era criança, na grande maioria das vezes, morei em casas com quintal, porém na maturidade minhas moradias saíram do "chão", lentamente, passei a viver engaiolado em prédios de dois e três andares! Todavia, aquilo que parecia um problema, percebo, hoje, com uma clareza imobilizadora, era uma grande, uma enorme vantagem! Estar morando, no momento, em uma quitinete tem sido algo, deveras, engraçado para os outros! Fico pensando como seria para aquelas pessoas acostumadas a morar em casa grande viver em uma quitinete. Há uma perda total da intimidade, ao chegar na sala já se tem uma visão total do quarto! Não há o que esconder, da entrada tem-se a visão da casa inteira,
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O cotidiano vai ditando, com sua força imperiosa, as formas e jeitos que assumimos. Todos os dias quando o vizinho de cima resolve frequentar o "quartinho", começam os meus pesadelos, mesmo estando completamente acordado! Quando suas necessidades (fisiológicas, é claro) são realizadas ao mesmo tempo que as minhas, a sensação é que estou num show de horrores! Tenho impressão que "aquilo" tudo vai cair em cima de mim, inundando o imóvel inteiro! Neste caso, perco toda a concentração naquilo que estou fazendo, também pudera, não é?! Para quem não sabe, morar no térreo lhe possibilita ouvir de tudo. Os barulhos vão entrando sem pedir licença! Segredos, sem se preocupar com seu sono, quando você quer e pode dormir um pouco mais, vão se revelando! Nunca pensei que, um dia, iria odiar tanto os saltos altos como agora. Os passos de quem os usa, soam no térreo com os decibéis para além do humanamente suportável! Imagina morar numa cidade em que o uso de botas é algo comum? Será que as mulheres não percebem o quanto maltratam os ouvidos dos moradores do térreo quando passam "dirigindo" seus saltos altos?
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Certa noite, acordei assustado com uma conversa exatamente sob a minha janela! Disse a mim mesmo, meu camarada, está na hora de acordar, mas só por segurança, dei uma olhadinha no relógio, e pasmem, eram duas e meia da madrugada! O cara falava tão alto e o que é pior, sem nenhuma preocupação com barulho que fazia, justamente, na cabeceira da minha cama. Ficou aborrecido porque um dos vizinhos pediu-lhe que falasse mais baixo! Saibam que, apesar de tudo isso e sem falar em conformismo, estou estudando em outra cidade bancado por milhões de brasileiros que sequer conseguem chegar às primeiras letras! Chico Buarque, em outros tempos, "agradecia" assim ao seu algoz: "por mais um dia, agonia pra suportar e assistir. Pelo rangido dos dentes. Pela cidade a zunir. E pelo grito demente que nos ajuda a fugir. Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir. E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir. E pela paz derradeira, que enfim, vai nos redimir, Deus lhe pague"...

domingo, 5 de outubro de 2008

"Separações"...

Um repórter, certa feita, perguntou a John Lennon qual era a possibilidade de reagrupamento dos Beatles e este, de forma sarcástica, respondeu: "basta comprar os discos de cada um de nós que as pessoas terão os Beatles em casa!" O fato é que há separações e separações, naquele caso, um ciclo havia terminado, nada mais poderia mantê-los juntos, o caso é que eles chegaram ao "limite" possível de convivência! Sem esquecer que toda unanimidade é enganosa, mas essa foi a melhor banda de todos os tempos! Reconheço que as comparações são sempre redutoras. Aquela separação, geradora de inúmeras frustrações, não tinha retorno, para além de todos os acenos do mercado, de todo e qualquer apelo midiático, John, emblematicamente, dissera: "o sonho acabou!"
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Essa talvez tenha sido a separação mais controversa do mundo fonográfico, afinal, eles chegaram a patamares quase intransponíveis, muitos dos que vieram depois seguiram, apenas, os seus passos! Tivemos outras zilhões de bandas que se desagregaram! Umas por mera vaidade daqueles que estavam à frente, talvez por acharem que eram mais do que aquilo que realmente eram! Outras (quem há de saber?), quiçá por uma jogada de mercado, por mera promoção. Em muitas, o sujeito que estava à frente, levava os outros às costas, razão de muitas carreiras solos, bem ou mal sucedidas! Não podemos esquecer que estamos falando daqueles que produzem e gravam canções para consumo de outrem. O que não pode ser omitido é que quem entra nesta seara que é a indústria fonográfica, não quer outra coisa que não seja vender discos, todos sem exceção, mesmo aqueles que gravam por "diletantismo"!
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Entre as bandas brasileiras destacadas, tem o caso do Charlie Brown Jr, cujo vocalista mandou todo mundo embora. Os motivos alegados não convenceram porque a qualidade dos músicos e a irmandade que havia entre eles eram enfatizadas em prosa e verso, por Chorão! O interessante nestas separações é o dia seguinte, o que vem depois! Como geralmente temos um vocalista com uma banda sem rosto atrás, raras são as vezes em que além daquele, outros se destaquem, a carreira solo termina sendo o estuário. Embora nem sempre o tão esperado sucesso se concretize! Há saídas para a carreira solo que não decolaram: Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, Paulo Ricardo, do RPM, Leoni, do Kid Abelha, Ras Bernardo, do Cidade Negra, embora o último não tenha saído, tiraram-no porque não concordava com a mudança de "perfil" da banda. Em síntese, as separações na maioria das vezes, salvo raras exceções, tem como objetivo carreira individual! Quando Arnaldo Artunes, primeiramente, e depois Nando Reis saíram dos Titãs, foram literalmente excluídos da "história" do grupo, seus nomes não constavam no livro comemorativo da banda, a separação deixou imensas cicatrizes!
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Quando os Beatles se separaram, traziam atrás de si uma longa e consolidada obra. Uma produção que até hoje, passados tantos anos, é referência. Neste caso, quando os pares se divorciaram a razão maior pode ter sido o desgaste, que ironia, da convivência, perceberam que não havia mais condições de juntos ir adiante. Por outro lado, e guardadas as devidas proporções, embora um dos Beatles, George Harrison, tenha gravado um dos sucessos da banda, a "renegada" Anna Júlia, quando um grupo, como Los Hermanos, que lançou apenas quatro discos ao longo de 10 anos de carreira, resolveu "dar" uma parada, aparentemente, chegara à exaustão um grupo que parecia que teria vida longa. Perceberam, os seus integrantes, que não era mais possível produzir nada diferente juntos. Continuar poderia ser um mero repetir-se. Ao ouvir o disco Sou, de Marcelo Camelo, fiquei me perguntando o tempo inteiro se era Marcelo Camelo ou Los Hermanos, não que possa precisar uma mudança significativa do que era feito antes e agora! Na realidade, o pouco tempo de "separação" não me permitiu desassociar a voz e as canções daquilo que era feito em grupo! Entretanto há uma coisa que é perceptível. Los Hermanos era (?) uma banda que intrigava e comovia pelo conjunto da obra. Que fazia um som que alguns tinham dificuldade de assimilar, e isso era provocador, embora afirmassem que gostavam das letras! O lado triste dessa história é que Marcelo Camelo poderá se transformar em mais um dos milhares de intérpretes da MPB, provavelmente, atrairá as pessoas, não pela voz, existem outras mais belas e brilhantes, porém por ser ex letrista, ex vocalista, ou seja, por ser um ex Los Hermanos, o que me leva a pensar: será que era apenas isso que pretendia ao gravar ?...

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Caminhando com Maiakovski ...

Somos "vítimas" das armadilhas que nos impõe o cotidiano. Em certa medida, aceitamos as coisas como superiores às nossas forças! Neste caso, diríamos que a criatura se apoderou do criador. Isso não significa que apenas o senso comum manifesta essa sensação de impotência. Vejo os mais diversificados segmentos, em algum momento, sentenciando: "é assim mesmo, não tem jeito, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance!" É como se tudo se naturalizasse, e o mais cruel é que a resposta não se altera: "não podemos fazer nada ou já fizemos tudo o que foi possível!" Se alinhavarmos uma série de situações e, calmamente, pensarmos sobre elas, veremos que estamos deixando que as ações mais comuns se "naturalizem". É como se a expressão "o errado é que está certo" se insurgisse e nos tornássemos seus reféns!
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Querem ver como o que estou dizendo vai se tornando comum? Vamos usar um exemplo corriqueiro! Temos a notícia que o preço da merenda escolar foi super faturado em determinados municípios, uma verdadeira falcatrua! "Eles são denunciados e no final ninguém vai preso, caso alguns deles sejam detidos, logo serão liberados, nem vale à pena brigar para que a justiça seja feita." É dessa forma que estamos reagindo. Essa é a nossa resposta à situação! Com a naturalização de tudo, ficamos impotentes, nada podemos fazer com o que nos aflige. A solução encontrada por alguns é se trancar em casa cheia de grades, instalar cerca elétrica, câmeras em todos os pontos, alarmes para se proteger! Como não podemos fazer nada, buscamos medidas paliativas! Rezamos para que as coisas ruins aconteçam com o outro, dizendo: "ufa, ainda bem que meu filho não estava lá e a bala perdida encontrou outra pessoa!" Morre um punhado de gente, todos os dias, nos morros cariocas e nos mais diversos cantos do Brasil, na sua maioria pobres miseráveis, contudo se for alguém com alguma grana, bem, aí temos a mídia para transformar a tragédia em espetáculo, temos uma comoção nacional, sabemos então que devemos ficar indignados!
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Penso que a poesia de Eduardo Alves da Costa, “No caminho, com Maiakovski", é a materialização dessa naturalização. Ele consegue captar esse movimento, essa apatia nossa de cada dia. Você poderia me perguntar: o que foi mesmo que ele disse? Eis a "voz" do poeta: "Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakovski. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem.
Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm a ninguém é dado repousar a cabeça alheia ao terror. Os humildes baixam a cerviz; e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos. No silêncio de meu quarto a ousadia me afogueia as faces e eu fantasio um levante; mas amanhã, diante do juiz, talvez meus lábios calem a verdade como um foco de germes capaz de me destruir.
Olho ao redor e o que vejo e acabo por repetir são mentiras. Mal sabe a criança dizer mãe e a propaganda lhe destrói a consciência. A mim, quase me arrastam pela gola do paletó à porta do templo e me pedem que aguarde até que a Democracia se digne aparecer no balcão. Mas eu sei, porque não estou amedrontado a ponto de cegar, que ela tem uma espada a lhe espetar as costelas e o riso que nos mostra é uma tênue cortina lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo e não os vemos ao nosso lado, no plantio. Mas ao tempo da colheita lá estão e acabam por nos roubar até o último grão de trigo. Dizem-nos que de nós emana o poder mas sempre o temos contra nós. Dizem-nos que é preciso defender nossos lares mas se nos rebelamos contra a opressão é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo, por temor aceito a condição de falso democrata e rotulo meus gestos com a palavra liberdade, procurando, num sorriso, esconder minha dor diante de meus superiores. Mas dentro de mim, com a potência de um milhão de vozes, o coração grita - MENTIRA."
As condições objetivas estão escancaradas, quando será que as subjetivas estarão?...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Trágicos e Farsantes...

Sei que a analogia que vou fazer beira ao ultraje, mas vou me arriscar em função da ironia com que Marx tratou o assunto, lá no século XIX! Afirmou ele no 18 Brumário de Louis Bonaparte: "Hegel observa algures que todos os fatos e personagens de grande importância na história universal ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa." Falar dos "professores", ou melhor, dos técnicos dos clubes brasileiros de futebol, fazendo um paralelo com as reflexões do autor da Miséria da Filosofia, tenho que concordar que é uma verdadeira aleivosia! Mas a forma como esses grandes "sábios" se manifestam é de deixar qualquer um imaginando que eles estão mais para "profetas" do que para técnicos! Suas promessas são de pessoas que têm poderes sobrenaturais, é preciso ser muito ingênuo para acreditar no que eles dizem. Sabemos que o emprego de técnico é seletivo aqui e alhures, e neste país onde todo mundo entende de futebol, só há vinte vagas na série A, logo, o exército industrial de reserva é imenso! O mais incrível é que os cargos são ocupados sempre pelos mesmos sujeitos, é certo que de vez em quando, aparece um nome novo, mas isso não é muito comum. Vejamos como vem ocorrendo o troca-troca entre os técnicos!
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No início, Nei Franco treinava o Atlético Paranaense, por alguma razão, entenderam que não era o nome ideal para dirigir a equipe, foi demitido e até hoje não sabe qual a razão, talvez a torcida do Flamengo saiba já que dizia que o sobrenome dele era Fraco! Contudo, por estranho que pareça, o Botafogo compreendeu que ele seria o técnico ideal e lá foi ele para General Severiano. Geninho estava no Botafogo, como as coisas não andavam bem, a porta da rua se tornou a serventia da casa. Não era bom para o alvinegro carioca, mas era o homem perfeito para assumir o rubro-negro paranaense, o mesmo que dissera que Nei Franco não servia! A ironia é que aprendemos, naquelas aulinhas de Física do pré-pri, que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, neste caso, Mário Sérgio foi demitido sumariamente do time paranaense! Porém como não há mal que dure para sempre, o Figueirense o levou para seu ninho! Nesta ciranda, um desses técnicos quase foi campeão das Américas pelo Fluminense, um verdadeiro fanfarrão! Sempre dissera que tinha o grupo na mão, que enxergava muito além do que a maioria, que todos deveriam aprender com ele, em síntese, era um predestinado! A palavra humildade fora apagada do seu dicionário! Como o campeonato não veio e o time não conseguia sair da "zona de rebaixamento", resolveram, para o bem do clube, demiti-lo! Mas como nem tudo é tão ruim que não possa melhorar, sai para lá lei de Murphy, o Vasco se tornou o novo emprego do "profeta" Renato Gaúcho! E ele, como nos velhos tempos, já chegou dizendo: EU ACREDITO! É seu mais novo slogan! Isso quer dizer que o time não vai ser rebaixado! Afirmar que o Vasco não vai descer para a segunda divisão com uma defesa formada por Odvan e Fernando, é preciso ter poderes metafísicos para acreditar! Não sei, mas parece que já vi esse filme, só não lembro em que lugar!
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Como estamos falando de coisas "sobrenaturais", voltemos no tempo pois dois desses "profetas" se encaixam como uma luva, naquilo que Marx falou sobre tragédia e farsa! O Goiás no campeonato de 2003 conseguiu a façanha de no primeiro turno ser o último colocado. Tudo levava a crer que seria rebaixado, não havia perspectiva alguma de alterar aquela situação, pelo menos era o que falavam os "profetas" da mídia! Mas eis que entra em cena um treinador desconhecido do grande público chamado Cuca e consegue mudar todos os prognósticos e o time lá de Goiania, além de não ser rebaixado, conseguiu uma vaga na Sulamericana, chegando em 9º lugar! O resto da história todo mundo conhece. Disseram que ele era uma revelação, um técnico extraordinário, ele acreditou! Meteoricamente passou pelo São Paulo, Grêmio, Flamengo e São Caetano. Parecia que o brilho estava se apagando, afinal, nessa caminhada não ganhou título algum, foi, então, acolhido pelo Botafogo! Tudo indicava que essa maré de azar mudaria! Como não mudou, foi para o Santos e chegou no Fluminense que pode ser rebaixado, sob o seu comando, eis a tragédia anunciada! Hélio dos Anjos pegou o Goiás em penúltimo lugar, somando apenas três pontos em seis rodadas! hoje o Goiás é o 9º colocado com 39 pontos! Os "profetas" da mídia já começam a dizer que ele é um excelente treinador. No último jogo, após a vitória sobre o Santos, cheio de pompa, falou da tristeza de não poder estar na formatura da filha, numa das maiores instituições do Brasil, a FGV, por causa do trabalho, mas que comemoraria no dia seguinte! Ele acredita que é tão bom que já começa a falar pelos cotovelos! Eis a farsa! Marx continua cada dia mais vivo, não é?...

domingo, 21 de setembro de 2008

Loucos...

Não vou negar que o tema da loucura me atraia sobremodo, isso por percebê-la como irmã siamesa da sanidade. Reafirmo o que já tinha enunciado em outra oportunidade, para mim, foi Samuel Beckett quem melhor traduziu o que é a loucura, disse ele: "todos nascem loucos; alguns permanecem." O fascinante no tema loucura é o constante desequilíbrio e destruição das inúmeras teorias que querem torná-la uma ciência exata! Será que é possível afirmar o que nos torna loucos, ou melhor, como chegamos à loucura? Quantas e quantas vezes já não sentimos o mesmo desejo daquele juiz do conto de Maupassant, não por prazer, mas por raiva ou ódio momentâneos? Quantos "inimigos" já não trucidamos em nossas elucubrações diárias? Não, não é meu objetivo provar o quanto loucos somos todos nós, mesmo porque não tenho nem competência nem talento para isso, mas falar de uma coincidência entre dois meios distintos que, recorrentemente, vêm se retroalimentando: a literatura e o cinema, aliás, todos sabemos o quanto esta vem sendo o sustentáculo de diversas cinematografias. O caso mais recente é o encontro entre o livro de José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, e o diretor brasileiro Fernando Meireles.
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Voltemos à coincidência que inspirou essa nossa conversa. Vi por esses dias um filme (cujo título em português é Instinto Secreto, mas que em inglês é Mr. Brooks) cujo desenrolar bem que poderia ter se inspirado no conto de Guy de Maupassant, um louco, que já andei listando por aqui! Entretanto não tenho nenhuma dúvida que o conto é muito mais vivaz do que o filme, muito mais denso! O que se poderia perguntar de imediato é: se o conto é muito mais interessante do que a obra cinematográfica, qual a razão para se falar dessa tal coincidência? Não faz muito tempo que trouxe o conto sobre a loucura do juiz para nossa apreciação, isto é, além da temática e do tempo transcorrido, estamos vivendo um tempo em que é difícil não se perceber certa insanidade nas ações cotidianas, ainda deve estar no imaginário popular o caso daquele adolescente de Goiás que esquartejou a namorada inglesa e saiu para a festa! Eis que sou surpreendido com o filme Instinto Secreto, que traz um serial killer, como são a maioria deles, acima de qualquer suspeita! Bem, são três os atores que "carregam" o filme, aliás, sejamos justos, dois atores, William Hurt e Kevin Costner. Somos levados a pensar de forma intensa a questão da loucura! Entramos "literalmente" na cabeça do louco, na conversa dele com o seu alter ego! Como pode um executivo bem sucedido, assim como o juiz de Maupassant, um filantropo extremamente generoso, um pai e marido exemplar, ser um assassino brutal, nas suas horas vagas? E mais, ao invés de ser acometido de qualquer remorso, sentir um prazer indescritível, a ponto de se dizer viciado em matar, em sentir o cheiro de sangue!? É possível explicar com as nossas ferramentas comuns coisas desse tipo? Ou melhor, o que acontece no filme não seria algo apenas pensado e realizado na arte, na vida as coisas seriam bem diferentes? Por favor, não levem em consideração o exemplo de Goiás, apenas uma exceção à regra, será?!
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O filme vale à pena, acima de tudo, pelos diálogos entre Brooks e seu alter ego Marshall, além de serem primorosos, são de um cinismo atroz! É muito interessante ver o esgrimar de Costner e Hurt! A viagem que fazemos à cabeça do louco, em alguns momentos, chega a ser assustadora, ao nos fazer "observar" em loco como este organiza seus intentos mais vis! O mais interessante é que somos convencidos que quem faz com que Brooks seja um assassino frio e calculista é seu alter ego! Contudo, como não existe prazer sem dor, somos "presenteados" com a aparição de Demi Moore interpretando ela mesma! Neste momento, temos uma sequência de bobagens que não diz qual a razão da sua inserção, quase levando a obra à vala comum! Com a sua inserção, entram em cena, perdoem-me pelo trocadilho, uma quantidade absurda de lugares comuns, rotineiros na vida da "atriz". Há umas sequências em que a vemos nadando de um lado a outro da piscina, cuja razão talvez tenha sido percebermos que mesmo aos 45 anos, ela ainda está "enxuta"! Contudo não é por essa banda "podre" que devemos jogar fora a totalidade do fruto! Nesta roda-viva em que estamos vivendo, filmes como este não nos ajudam a identificar os assassinos em série que estão à nossa volta, e olhe que não são poucos, porém contribuem sobremaneira para que estejamos atentos e não sejamos engolidos pela demência desenfreada que insiste em nos bater à porta...

domingo, 14 de setembro de 2008

Mercadoria...

Passeava pelo centro da cidade, sinceramente, não era bem um passeio, fora comprar um teclado para o laptop de um amigo. O certo é que não ficamos apenas no que tínhamos planejado, outros apetrechos se incorporaram à lista de necessidades básicas, roupas para o frio, por exemplo! Era a primeira vez que transitava naquele espaço, depois do recesso das aulas. Era o início de mais uma "etapa" na difícil caminhada ao pináculo da Montanha Gelada, meu corpo já dava sinais de cansaço, mas aparentemente estava feliz no meio daquele burburinho. Observava as lojas, as vitrines, em suma, o movimento daquela cidade cosmopolita! Naquele dia, havia mais um elemento que tornava aquele quadro mais bonito: o sol, havia luz!
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Em todas as cidades, parece-me, existem aquelas pessoas que vendem sua força de trabalho distribuindo folhetos de propaganda, conhecidos como santinhos! Na Montanha Gelada não é diferente! O curioso é que não há limite: são oferecidas as mais "estranhas" mercadorias, naqueles pequenos pedaços de papel! Vende-se de tudo, até corpo! Este deve ser, depois da tv, o "meio" mais manuseado, a mídia de maior audiência! Tenho por hábito não recusar nenhum deles. Na maioria das vezes, leio, em outras, guardo nos bolsos, mas nunca recuso. Houve uma vez que me arrancaram um das mãos, jogando-o fora como se isso fosse a coisa mais natural do mundo! Nem sempre os limites são respeitados, nem sempre são perceptíveis para quem os transgridem, não é assim?
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Já presenciara em outra cidade a oferta de prazer por essa "midia". Todos sabem que para sobreviver nesta Formação Social, as pessoas fazem as coisas mais estranhas, exemplo? Que tal alguém sair pela cidade com um alto falante na cabeça, tendo os decibéis acima do suportável para vender coisas? São as alternativas encontradas para se ganhar algum trocado. O que me deixou surpreendido foi a oferta ser feita numa das praças mais famosa da Montanha Gelada. Um trabalhador de rua, leia-se entregador de santinhos, deu-me, sem nenhuma cerimônia ou pudor, um santinho com os seguintes dizeres: "Sabrina, corpo de modelo, pura tentação, sex, carinhosa e safadinha! adora brincar - para você que procura prazer de verdade". Além dessa sucessão de adjetivos, havia também os números do celular e do fixo! É bem provável que você ache isso é normal, afinal, tudo nesta formação social pode se transformar em mercadoria, portanto, pode ser posto à venda, é só ter dinheiro para comprar! Nada fora do comum! Há diretor de hospital vendendo lugar na fila de espera de transplantes, por que se ruborizar com a venda de parte do corpo para o prazer? Essa não é a mais velha das profissões? Além disso, as pessoas precisam sobreviver e para isso não importa qual seja o trabalho! Será mesmo? E se Sabrina Safadinha fosse sua mãe? Irmã? Filha? Será que digo isso apenas para causar impacto? Não é isso! Estamos deixando de nos indignar com as coisas mais atrozes, elas estão se tornando normais! O que tem de errado alguém vender o corpo no meio da praça? Por que não podemos nos vilipendiar para sobreviver nesta formação social? O Poeta Russo, 'há tempos', dizia, "até chegar o dia em que tentamos ter demais, vendendo fácil o que não tinha preço ", pois é, não somos pessoas, mercadoria é o que somos...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Um louco...

Fora à livraria com o intuito de comprar o livro "O desastronauta". Na verdade, esse título me impressionara sobremodo, porém descobri que o mesmo autor tinha um outro cujo nome era uma verdadeira provocação: "Os melhores contos de loucura". Nada mais que uma antologia saborosa organizada por Flávio Moreira da Costa, aliás, foi ele quem disse que o melhor amigo do homem não era o cachorro e sim o livro! Quase sem perceber, acabei comprando-o! Vale à pena ser lido, não só pela temática, a loucura, coisa comum nos nossos dias, como também pelos autores! Uma seleção composta por Lima Barreto, Machado de Assis, Luigi Pirandello, entre outros. Uma viagem pelos caminhos da loucura nossa de cada dia! Uma delícia que deve ser repartida, como deveríamos fazer com o pão a cada momento de nossa vida! Raul Seixas, poeta e roqueiro baiano, se dizia maluco total. Penso, contudo, que foi Samuel Beckett quem melhor sintetizou o que vem a ser a loucura na frase: "Todos nascem loucos; alguns permanecem." Como não sou egoísta, trago uma espécie de "síntese" de um dos contos que grassam pela coletânea, o escolhido foi o de Guy de Maupassant, cujo título, um louco, demonstra que louco pode ser aquele que menos esperamos, que pode ser aquele nosso vizinho ali da esquina, na realidade, o conto mostra que estamos todos no terreno escorregadio da insanidade, que temos um louco "guardado" dentro de nós e que ao menor vacilo, irrompe com sua fúria! Sigamos, então, os passos desse demente que Guy nos apresenta com tintas colossais!
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Ele morreu como chefe de um tribunal de alta instância, magistrado íntegro cuja vida impecável era citada em todas as cortes da França. Advogados, jovens conselheiros e juízes o cumprimentavam inclinando-se profundamente, em sinal de enorme respeito, diante de sua figura alta, branca e magra, iluminada por dois olhos brilhantes e profundos. Passara a vida perseguindo o crime e protegendo os fracos. Escroques e assassinos nunca haviam tido inimigo mais temível, pois ele parecia ler, no fundo de suas almas, seus pensamentos secretos, e desvendar, com um passar de olhos, todos os mistérios de suas intenções. (...) Pois bem, eis o estranho papel que o escrivão, desnorteado, descobriu na escrivaninha onde costumava trancar os dossiês dos grandes criminosos, o título do "pergaminho" era Por quê?
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20 de junho de 1851 - Saio da Sessão. Condeno Blondel à morte! Por que, afinal, havia aquele homem matado seus cinco filhos? Por quê? Muitas vezes encontramos pessoas para quem destruir a vida é uma volúpia. Sim, sim, deve ser uma volúpia, talvez a maior de todas, pois matar não é o que mais se assemelha a criar? Fazer e destruir. Estas duas palavras encerram a história dos universos, toda a história dos mundos, tudo o que existe, tudo! Por que matar é embriagador? Pensar que ali está um ser que vive, que anda, que corre... Um ser? O que é um ser? Essa coisa animada, que traz em si o princípio do movimento e uma vontade que determina esse movimento! Essa coisa a nada se prende. Seus pés não se unem ao solo. É um grão de vida que se mexe sobre a terra; e este grão de vida, vindo não sei de onde, podemos destruir como quisermos. E então nada, mais nada. Apodrece, acaba.
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26 de junho - Por que, então, é crime matar? É, por quê? pelo contrário, é a lei da natureza. Todo ser tem como missão matar: ele mata para viver e mata por matar. Matar está em nossa índole; é preciso matar! O animal mata sem parar, o dia todo, a todo instante de sua existência. O homem mata sem parar para se alimentar, mas como tem necessidade de matar também por volúpia, ele inventou a caça! A criança mata os insetos que encontra, os passarinhos, todos os pequenos animais que lhe caem nas mãos. Mas isto não basta à irresistível necessidade de massacre que há em nós. Não é suficiente matar o animal, precisamos também matar o homem. Antigamente, satisfazia-se este desejo com os sacrifícios humanos. Hoje, a necessidade de viver em sociedade fez do assassinato um crime. Condena-se e pune-se o assassino! Mas como não podemos nos entregar a este instinto natural e impiedoso da morte, aliviamo-nos de tempos em tempos por meio de guerras onde todo um povo destrói outro povo. Temos então uma orgia de sangue, uma orgia na qual se precipitam os exércitos e da qual continuam a se embebedar os burgueses, mulheres e crianças que lêem, à noite, sob a lamparina, a narrativa exaltada dos massacres.
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30 de agosto - Está feito. Como é pouco! Eu tinha ido passear no bosque de Vernes. Não pensava, não, em nada. Eis uma criança no caminho, um garotinho que comia um pão com manteiga. Ele pára ao me ver passar e diz: -Bom dia, seu presidente. E o pensamento me entra na cabeça: "E se eu o matasse?" Respondo: - Está sozinho, meu menino? Estou sim, senhor. Sozinho no bosque? Estou sim, senhor.
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E então? Será que este homem ilibado, acima de qualquer suspeita, um magistrado da mais alta corte, teria coragem de matar uma pobre e indefesa criança? Seu coração não o impedirá de cometer tamanha atrocidade? Afinal estamos falando de um ser indefeso que precisa de proteção! Bem, se queres saber como isso termina, sabes, muito bem, onde encontrar a resposta...

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Maggi e Murer...

Agora que os jogos olímpicos terminaram, vai começar a velha choradeira de sempre vinculada ao número de medalhas conquistadas. Ouviremos esse lenga-lenga pelos próximos quatro anos! Sugestões das mais variadas e espúrias aparecerão para que o número de pedaços de metal aumente! Provavelmente deve aparecer alguém cobrando do Estado, a Lei Piva já não basta, mais e mais investimento para que o esporte de rendimento "amador", a serviço das grandes corporações, iluda-nos com seu canto da sereia e traga um pouco de alegria para esse povo tão sofrido! Se perguntássemos a Hortência, antiga jogadora de basquete, qual a solução para aumentar a quantidade de medalhas, a resposta seria mais ou menos essa: "Não fomos mais eficientes porque não há a busca de atletas na escola, é lá que está o celeiro dos futuros ídolos." Quem não lembra daquela frase repetida à exaustão tempos atrás que dizia, mais ou menos, que "onde alguém via apenas alunos, o professor de Educação Física via atletas! Há uma pesquisa nas "ruas" que diz ser necessário 2000 indivíduos para se tirar um atleta olímpico! Se isso não for feito, a cada quatro anos teremos os últimos resultados ou pior, só não percebe isso quem não quer ou é mal intencionado, dirão os profetas de plantão! O que ninguém diz é que isso já foi feito em décadas passadas, ou será que já esquecemos o período da ditadura militar em que a política do "esporte para todos" foi incentivada por todos os cantos do país? Contudo, antes de fecharmos as cortinas encerrando finalmente esse grande espetáculo midiático, que provocou rios e mais rios de lágrimas, façamos uma última ilação sobre a trajetória brasileira nestas olímpiadas, usando Fabiana Murer e Maurren Maggi, como exemplos, a mídia disse: "esses jogos foram das mulheres", analisemos as musas, então!
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O fato é que tínhamos algumas certezas nestes jogos. Tiago Camilo e Diego Hypólito eram unanimidade em relação à medalha de ouro, assim como esperava-se de Maurren Maggi e Fabiana Murer grandes desempenhos, lógico que das duas, seria impossível especular que a Fabiana chegasse ao ouro, a não ser que se abatesse a tiros a russa Yelena Isinbayeva, ainda assim, seria impossível! No caso de Maurren, tinha a questão do dopping, fantasma do qual ela precisava se livrar. Essas mulheres chegaram a Pequim com expectativas de medalhas elevadas ao infinito. Para início de conversa, pergunta-se, o que aproxima essas duas mulheres, além da letra dos nomes e a questão esportiva? Se você for uma pessoa apressada dirá imediatamente que duas palavras: fracasso e sucesso! Esta seria uma resposta óbvia, porque ambas chegaram a Pequim com chances reais de pódio, mas isso seria muito simplório e não estaríamos fugindo da mera aparência. Poderia-se contra-argumentar que enquanto uma se manteve serena na busca dos seus objetivos, a outra foi punida por não ter revisado seu material de salto, ademais fez um verdadeiro "barraco", chegando a tentar impedir a continuação da prova, quando percebeu que a vara que lhe "daria" a medalha tinha desaparecido! Deve ter sido algum serviço secreto, quem sabe a serviço de Isinbayeva?! Será que era motivo para tanto choro? Por que não desistiu ao invés de saltar com a vara que sabia que não resolveria seu problema? O estranho é não haver nem uma vara, entre as nove que restaram, para ajudá-la na tarefa, afinal, estava-se no começo da competição, ou estaria ela insegura por causa da pressão de ter que pelo menos trazer um bronze? Neste caso, um dado passou despercebido: todas as varas eram iguais e da mesma marca, segundo o técnico da atleta, portanto, todo aquele show poderia ser evitado e a nossa boa moça, até então, não precisaria sair de Pequim dizendo que não voltaria nunca mais a China, atribuindo-se uma importância que não tem, mas não podemos perder de vista que estamos falando de espetáculo, e com tal é "obrigação" aplaudir de pé todo e qualquer show, mesmo aqueles com o final tão trágico como o de Fabiana Murer! Atletas tendem a ser temperamentais, costumam fazer muito barulho por nada!
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No caso da Maggi, é muito provável que não fizesse todo aquele barulho, não que ela seja diferente e sim por causa do seu passado! Depois de ter sido afastada das pistas por causa do uso de substância proibida, tornou-se uma pessoa mais doce, mais serena e tranquila, virou mamãe! Construiu uma imagem que causa emoção e comove a qualquer pessoa que não seja insensível! Quem não torceu para que sua opositora não fizesse o salto que lhe tiraria a medalha! A torcida foi tão grande que venceu, ainda que tenha sido por apenas um centímetro. Diferente de Murer, manteve-se sempre cordial e, em todas as entrevistas, não deixou de lembrar, como toda boa mãe, da filha Sofia em meio às lágrimas e ao EU TE AMO, FILHA! Esse é o típico espetáculo que atrai público, que garante a audiência, que movimenta BILHÕES e vende muito produto! Quem sabe se não teremos, muito em breve, uma bonequinha de nome Maurren Maggi, a mãe da Sofia? Mas qual é então a diferença entre uma e outra que não o binômio sucesso/fracasso? Não é neste binônio que se encontra a diferença entre ambas, por uma razão bem simples: não existe diferença! Essas duas mulheres não passam de mercadoria para consumo imediato, nada mais que um produto na vitrine! Vendem-se enquanto imagem, não têm nenhum valor de uso, são trocadas como produto nas prateleiras dos supermercados televisivos, vendidas como são comercializadas as sardinhas em suas latinhas! Acabaram-se os jogos, os dramas de mães, pais, avós etc. foram trazidos para dentro de nossas casas, sob muitas lágrimas. Não vão parar por aí, ainda teremos mais algumas no desembarque, ficaremos esperando ansiosamente que a mídia e suas telinhas coloridas nos avisem que é chegado o momento da emoção, vamos todos chorar com o encontro de Maurren e Sofia, porque no modo de produção capitalista não somos donos nem das nossas próprias lágrimas...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Viagens, percentuais e livros...

Não é novidade para ninguém que só de pensar em viajar de avião, eu me pelo todo! Não vou mentir: a sensação de desconforto me incomoda sobremaneira! Tento fingir que está tudo bem, apresentando uma tranquilidade totalmente mentirosa! Mãos geladas fazem parte desse cenário, são uma marca registrada do meu medo! A tensão só acaba quando estou em terra firme, ufa, que alivio! Já mencionei, por aqui, a história de uma professora, colega de trabalho, que ao tomar conhecimento da minha primeira experiência aérea, sem nenhum pudor, fez uma afirmação nada lisonjeira, que, por constrangimento, não vou repetir! Contudo logo descobri que não era tão corajosa quanto dizia ou pensava! Vê-la assustada, no assento ao lado do meu, não nego que me trouxe uma sensação de grande contentamento, ouso dizer que dei uma olhada sutil para ver se não havia nenhuma mancha na sua poltrona! Na verdade, as viagens têm se tornado mais constantes ultimamente, mas isso não quer dizer que transito de forma mais tranquila do que antes por esses espaços. Fico torcendo desesperadamente para que a aeronave faça sua aterrissagem sem maiores complicações! Neste momento, estou escrevendo em meio a uma viagem entre Salvador e Florianópolis, tendo as turbulências como companheiras de viagem!
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Neste ínterim, caiu em meu colo um exemplar da revista da companhia aérea. Nesta há uma pesquisa, realizada pelo Ibope e pelo Instituto Paulo Montenegro, sobre o hábito de leitura dos brasileiros. Não são nada animadores os percentuais apresentados! Apenas 55% de nós são leitores constantes, mas que apesar disso o número de livros lidos por habitante é de 4,7! Outro, dos números citados, sinaliza que pessoas que deixaram o banco das escolas lêem apenas 1,3 exemplar por ano! Entre os entrevistados, somente 21% costumam comprar livros e que esses indivíduos, os 21%, tendem a comprar 6 livros por ano! O argumento para essa quantidade tão pequena está relacionado com o valor dos livros! A média dos brasileiros é comprar, apenas, um livro por ano. Saber que 45% dos brasileiros não se mostram interessados em leitura deveria causar desconforto aos responsáveis pela implementação das políticas educionais! A pesquisa, no que se refere à questão do entendimento das idéias que compõem um texto longo, afirma que apenas 26%, com idade entre 15 e 64 anos, encontram-se em nível pleno de alfabetização! Mas os 38% que lêem, têm sua leitura focada em textos curtos e simples.
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Não sei até que ponto esses dados podem ser traduzidos sem problemas, ou se são compreensíveis à primeira vista! Temos aí a questão das fontes, sabemos que as formas como esses dados foram coletados não estão isentas de erros, não obstante é possível que haja também muitos acertos. Percentuais se não forem decodificados de forma cuidadosa podem gerar todo tipo de preconceito. Números são sempre muito frios! Todavia não resta dúvida que são percentuais que desestabilizam. Se 45% de brasileiros não se mostram interessados pela leitura, se os livros não fazem parte do cotidiano de um número significativo de brasileiros, é preciso repensar os cursos de formação de professores espalhados pelo país, por conseguinte, criticar as universidades que continuam despejando, a cada ano, um número imenso de educadores no mercado de trabalho, mas que não têm avaliado a qualidade dessa formação. Há que se pensar em alternativas que estimulem as pessoas a cultivar o prazer de ler! Se elas não conseguem entender o que está escrito como podem adquirir uma cultura rica e diversificada? Basta um rápido passar de olhos nestes dados, para se perceber que a política de formação de professores no Brasil desabou, é preciso que se construam outras possibilidades, para não sucumbirmos aos seus escombros...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Chora, Brasil...

"Olha lá que os bravos são escravos são e salvos de sofrer". "Infelizmente, não tive competência para jogar meu adversário no chão.” As frases em destaque mostram duas formas de compreensão da realidade! A primeira, de Marcelo Camelo, reflete com uma clareza assombrosa a atual condição dos atletas olímpicos que, por estranho que pareça, já foram amadores, sem aspas! Um bom exemplo cinematográfico, dessa percepção de amadorismo, pode ser encontrado no filme carruagens de fogo. As competições têm mostrado que os bravos atletas, com seu sangue, suor e lágrimas, têm a responsabilidade de representar seus "países" em nome do tal espírito olímpico, "inventado" por aquele barão francês, e que hoje não passa de letra morta. O que acontece é que o importante não é competir e sim, ganhar! Tristes daqueles que são derrotados, daqueles que sucumbem aos seus adversários! O peso da derrota é tão grande que o choro tem sido uma arma fortíssima nas mãos dos nossos "soldados"!
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A segunda frase, pertence ao judoca brasileiro, Eduardo Santos, dita logo após a derrota para o suíço Sergei Aschwanden. Totalmente entregue às lágrimas, responsabilizou-se pela derrota! Fora ele o incompetente, fizera tudo o que pudera! Sua derrota foi uma pá de cal em mais uma possível medalha de bronze! Sua reação chorosa, provocando comiseração, demonstra claramente o que os ingênuos teimam em não ver: o que está em disputa, não é a liberdade, o que está em jogo não são os valores dos países que esses "atletas soldados" representam. A guerra que esses "bravos soldados" estão participando pertence às grandes corporações e seus produtos. São elas que, em última instância, determinam o grau de patriotismo de cada um desses eventos! Oferecem, em doses cavalares, esporte para todos, porém se algo deu errado, quando as coisas não vão bem, rapidamente, a mídia pode transformar o momento e fazer todo mundo chorar juntamente com o perdedor! Basta trazer mãe, pai e outros familiares emocionados para que tenhamos plena consciência que por trás daquele "soldado" há um coração, por que conter a emoção? Ele é um herói nacional, vamos chorar juntos?
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Vejam como aquela música que a torcida do Flamengo fez para o Botafogo pode ser parafraseada para essa ocasião! Chora Jade, chora Eduardo Santos, chora João Derly, chora Daniela Hipólito, chora vô, chora vó, chora mãe, chora pai! Somos jogados em um verdadeiro vale de lágrimas! Estimular essa reação faz com que não se discuta a grande quantidade de recursos que essa delegação recebeu dos cofres públicos! Convenhamos, investimento para sanar as necessidades básicas da população para quê? Estamos perfeitamente felizes com as "medalhas de água" de Hipólitos, Jades, Eduardos, Derlys...