domingo, 12 de fevereiro de 2012

Intimidade...


No coração da mina mais secreta, 
No interior do fruto mais distante, 
Na vibração da nota mais discreta, 
No búzio mais convolto e ressoante, 

Na camada mais densa da pintura, 
Na veia que no corpo mais nos sonde, 
Na palavra que diga mais brandura, 
Na raiz que mais desce, mais esconde, 

No silêncio mais fundo desta pausa, 
Em que a vida se fez perenidade, 
Procuro a tua mão, decifro a causa 
De querer e não crer, final, intimidade... 

José Saramago, “Os Poemas Possíveis"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ah, essas Mulheres II...

"Dizem que a mulher é sexo frágil, mas que mentira absurda. Eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas, satisfaz meu ego se fazendo submissa, mas no fundo me enfeitiça." Estou na fila do supermercado, sintonizado numa rádio chamada Brasil Fm, ouvindo essa pérola dos anos 1980, composta e interpretada por Erasmo Carlos! Na verdade, ouvir homem falar de mulher é risível, se existe algo inescrutável, indecifrável, esse algo se chama Mulher, oh, dificuldade de entender essas criaturas! Porém cheguei a conclusão que um lugar-comum repetido por elas, é a mais pura das verdades: os homens são todos iguais! Somos óbvios, caricatos, inseguros, uns tolos, embora a grande maioria não assuma! Parafraseando Fernando Pessoa, pegamos todas, nunca apanhamos, chegamos ao absurdo de contar quantas passaram pelas nossas camas, vide Elton, Jogador do Corinthians, que já pegou mais de quinhentas! Renato Gaúcho também está neste time e outros menos famosos! Nunca vi ou ouvi em papo entre amigos que algum tenha levado corno ou ejaculado precocemente! Todos somos bons de cama! Existem alguns que conseguem dar cinco a dez em uma noite apenas, eu sei, a fisiologia não explica esses excessos, mas tem algo pior: eles acreditam!
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Se somos óbvios e patéticos, elas, por uma estranha ironia, têm o espírito materno elevado ao infinito quando o assunto são seus namorados e maridos, costumam ser mães dos seus parceiros, nem sei se percebem isso, querem que vistam a roupa que elas compram, usem os perfumes que elas presenteiam, e costumam se mostrar burras só para que seus parceiros não percebam que os burros são eles! Isso é tão verdade que eles acreditam que elas não estão entendendo nada! A natureza no aspecto sexual foi pródiga com as mulheres! Nós, os homens, não temos uma arma no sexo tão poderosa quanto elas! Não acredita? Qual é a maior insegurança do homem? Eles nunca sabem se elas conseguiram chegar ao orgasmo, é preciso que elas digam, não existe um sinal visível e palpável, como no nosso caso. Ah, meu camarada, como elas fingem! Tenha certeza que a sua já fingiu também e muito! Eu sei que você  não acredita em mim, afinal, você é o máximo, o verdadeiro Don Juan! E como acredita nisso! Existem os mais inseguros que perguntam se elas conseguiram assim que terminam de fazer ozadia! Agora me digam, caso esteja tudo bem com o casal, alguma mulher vai dizer ao seu parceiro amado e querido que foi horrível o sexo aquela noite e em outras também? Que não via a hora de tudo aquilo acabar? NUNCA! O espírito materno nestes momentos protege o homem não permitindo que sua autoestima saia pelo ralo! Homem não chora, é? Só se for à frente de outro homem para mostrar que é forte e destemido, como nos filmes de mocinho e bandido! Qualquer mulher já viu seu homem chorar,  eles choram e muito, principalmente, quando elas vão embora!
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Sei que algumas mulheres podem torcer o nariz para tudo o que disse até agora! Conheço algumas que dizem que não é bem assim! O mal é que por causa da nossa formação nas ciências humanas, negamos a biologia! Tudo bem! Que tal algo palpável? Tenho duas amigas queridas, uma já não vejo faz um bom tempo, a outra está mais próxima, o fato é que tudo o que disse acima, se encaixa como uma luva na história delas. Não quero com isso dizer que tenho dados empíricos e, com isso, afirmar que é/foi sempre assim. Não, não é sempre assim, não obstante, na maioria dos casos o comportamento é exatamente esse! Eliane, de tão lindos olhos, sensível, extremamente inteligente. Uma mulher belíssima, poderia namorar, casar, ficar, o diabo a quatro com qualquer sujeito, mas escolheu logo um brucutu de quatro costados. Quando estava longe do brucutu que achava que estava apaixonada, era criativa, inteligente, cheirosa, gostosa, uma delícia! Mas quando ele estava perto, não era a mesma pessoa, parecia uma idiota, fazia tudo para agradar e não deixar que o idiota percebesse que era ele o idiota. Para encurtar a conversa, precisou que o brucutu lhe acertasse um safanão no rosto, para que ela percebesse que aquilo que ela achava que amava só amava a si mesmo! Eliane saiu para vida, viu que o amor nada mais é que uma construção social, amamos quem queremos amar, simples assim! 
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Helena, a outra mulher dessa história, tive que esperar que passasse pelas suas cinco fases da dor para poder desabafar esses garranchos! Quando uma mulher é traída, recebe de "presente" a primeira fase, a raiva; nesse ínterim, é acometida de uma vontade incomensurável de esmagar quem está causando aquele sofrimento, produz muito radicais livres durante o processo. A traição tem o poder de fazer a pessoa passear pelos estágios da dor, diferentemente da morte em que se vai eliminando a fase a fase. A negação é a fase do, "não pode ser", "não acredito", para logo em seguida entrar na fase da barganha, tipo, "eu esqueço tudo, finjo que não fui enganada, em troca, volta para mim, por favor?" Como dificilmente o amado retorna, entra-se na fase mais perigosa, a depressão, não encontro um bom exemplo capaz de traduzir, mas geralmente, a dor é tão grande que, para amenizá-la, pula-se de volta para a fase um e recomeça todo o ciclo! Helena passou por esse sofrimento por longos e dolorosos meses! Ouvi seu choro, vi seu sofrimento, mas não existe nada que se possa fazer, isso não quer dizer que não tenha sentido vontade de matá-la quando percebia suas fases de barganha! Agora, Helena encontra-se na última das fases: a aceitação, dá seus primeiros passos em direção a novas experiências, sim, de todos os tipos, por que não? Quem sabe não encontra um sapo? Ela ainda não sabe que a melhor coisa que lhe aconteceu na vida foi ter sido traída, que ironia, não? Se livrar do peso morto que era o cara que achava que amava, do cara que levou nas costas como uma burra de carga por anos a fio, levantando sempre sua autoestima, entendia que era preciso fazer isso para que não desmoronasse, o coitado! Pois é, Helena ainda não sabe nada disso, mas vai descobrir, como já descobriu que quem morre sempre é o amor,  se é que em algum momento essa doce ilusão existiu... 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Carta aberta para a aniversariante Daniela A.A.


Salvador, algum dia de janeiro de 2012
Sob a (Ir)responsabilidade de Manoel dos Santos Gomes,
aquele que um dia foi seu professor.
Caríssima ex-orientanda, já faz algum tempo que não tenho notícias suas, o que não deixa de ser uma pena, não para você, talvez, mas com certeza para mim, (tudo bem, NÃO TENHO ORKUT, MSN, facebook et al, como se diz na academia, na verdade, me auto-exilei das redes sociais), saiba que existem pessoas que nem quero lembrar que elas existem ou passaram sob meus olhos, mas há outras, você com certeza está entre elas,  que quando me vêm à memória me trazem um contentamento infindo e uma saudade inexorável, e a razão não é porque estou longe de casa, são marcas que essas figuras deixaram em meu coração como se fora tatuagem! Quando soube que haveria uma homenagem e que poderia ser enviada por vídeo, exultei, porém logo percebi que minha câmera estava emprestada e (a propósito, quando ela volta para casa, Manuela?) que por essa via seria impossível. Então, foi-me sugerido que escrevesse e que uma emissária poderia ser minha porta-voz, oh, não perdi tempo e aproveitei imediatamente a oportunidade! Na verdade, era para você está me vendo/ouvindo agora, mas fui “substituído”, por razões de ordem tecnológica, como já expliquei. Porém, com certeza, alguém muito especial está lendo essas coisas para outro alguém muito especial, agora. Nestes longos quatro anos afastado da sala de aula e de alguns poucos amigos que fiz pela vida, (não sabia que sentiria tanta falta) de vez em quando me lembrava daqueles estudantes que estudaram (permita-me a redundância, aceite-a como se fora liberdade poética!) comigo e me ensinaram muito mais que eu a eles! Você se lembra que sua entrada na UESB, era minha saída de um AVC? Pois é, nosso encontro se deu nestas circunstâncias: eu fragilizado, quase sem energia, ao lado, na frente, sei lá, aquelas coisas todas que fazia nas aulas para provocar vocês, e, por outro lado, um bando de pessoas querendo beber o mundo de um só gole, sequiosas por saber como ensinar esporte a criança pequena e coisa e tal e tal e coisa! A ironia disso tudo é que eu adorava ir para UESB sabendo que aquelas pessoas estariam lá, pois a convivência com algumas figurinhas iluminadas me fortalecia. Neste momento, você deve estar cercada de pessoas queridas, numa felicidade plena e, provavelmente, a última coisa que desejaria era estar ouvindo todas essas coisas, prometo que serei breve! Olha, antes de encerrar esses mal traçados caracteres, queria pedir para guardar para mim um pedaço desse bolo aí perto de você, não sei se sabe, mas essa é uma guloseima que nunca deixei de gostar, lembra do bolo delicioso que fiz para nós quando fomos àquele evento em Guanambi? Mas voltando ao encerramento, soube que esse é seu aniversário de número 0, mulher nunca diz a idade, mas descobri, uma passarinha me contou! Seja bem vinda, Dani, espero que esse mundo seja tão belo e solidário quanto você, para que possa se sentir sempre em casa! Saiba que foi um privilégio ter te conhecido e ter aprendido coisas que agora eu sei, minha professora! Oxalá que além desse aniversário, comemore mais uns dois milhões? Quiçá, cinco trilhões? Não importa, que sejam muitos, mas que jamais em tempo algum esqueça que, assim como seus olhos, você é uma pessoa BRILHANTE e rara como um DIAMANTE! FELIZ NATAL e que felizes sejam todos os NATAIS que vierem e que VOCÊ renasça em cada um deles...Daniela A.A., dois beijos, Mano...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Feliz ano velho...

As paredes estão cheias de teias de aranha, os móveis todos cobertos, manchas de ferrugem em alguns utensílios, como aquele cantinho da torneira que insiste em pingar vagarosamente, por mais que tente detê-los, os pingos continuam sem parar! Esperem, é/era esse o verbo! Está tudo parado ou fui eu quem parou em algum canto daquele longínquo ano da graça de 2011? A casa, a princípio, parece a mesma, embora a solidão esteja em cada canto...não ouço vozes inquietas ou incomodadas, ninguém perguntou nada, absolutamente nada! Aliás, não foi bem assim, recebi um telefonema, direi que inesperado, no primeiro dia do ano que já não é mais novo, ou será que foi no segundo? Ah, que importância isso tem agora?! O fato é que o sujeito do outro lado da linha falou alguma coisa da casa, dissera ele que não batera nunca na porta, mas que passava em frente continuamente, observava as coisas, lia um pouco, depois ia embora! Eu jurara que nunca mais voltaria a colocar qualquer adereço naquela casa, não por mim e nem por aquelas que me visitaram ao longo dos anos! Jurara que não adornaria nunca mais a casa por conta do que acontecera com um blogueiro de Santa Catarina. O nome do camarada era Hamilton Alexandre, apelidado o Mosquito. O sujeito que denunciou um caso de estupro em Florianópolis, envolvendo o filho de um diretor da poderosa RBS, afiliada da Globo no estado de Santa Catarina, como num passe de mágica, fora encontrado morto em seu apartamento em Palhoça, no dia 13 de dezembro de 2011! Suicidou-se com um lençol, que forma mais BÁRBARA de acabar com a vida, não? Seria mais fácil e menos doloroso enfiar um punhal no coração, não é mesmo? Um suicídio muito parecido com o de Vladimir Herzog, não só na forma, como nas justificativas das autoridades policiais...Coisas como essa continuam sendo jogadas na vala do esquecimento e olha que não estamos mais em 1964, estamos?! É preciso que se diga: somos todos cúmplices com o nosso silêncio! Continuamos fingindo que está tudo bem, mandando mil mensagens de boas festas, agora em forma de SMS, o popular torpedo, desejando Feliz Natal, Feliz Ano Novo! Ato contínuo, podemos sair para ver a queima de fogos que abrem o ano novo brincando, parafraseando Los Hermanos, que somos felizes como nossos narizes pintados! Tem alguma coisa errada com a gente, sim! NÃO, antes que me digam, NÃO, NÃO foi sempre assim...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Torcida não ganha jogo...

No último final de semana, nas séries A e B do campeonato brasileiro de 2011, aqui na chamada "boa terra", essa constatação, MAIS UMA VEZ, se mostrou de forma objetiva e clara. Torcida NÃO GANHA JOGO, serve meramente para dar o "colorido" às transmissões televisivas, quando menos, cantar o hino nacional a plenos pulmões, vide o jogo da seleção de Ricardo Teixeira, em Belém/PA (as mídias estimulam o patriotismo nosso de cada dia dizendo que a seleção é brasileira enganando incautos torcedores). No fundo, bem lá no fundo de suas consciências, se é que torcedor sabe o que é isso, aqueles que lotam os estádios sabem que sua "energia" não passa de uma grande ilusão, mas, é aí que entra o grande paradoxo, se realmente o torcedor conseguisse ter consciência que representa muito pouco no resultado final da partida, não gastaria sangue, suor e lágrimas, torcer é uma coisa que não pode ser racionalizada, caso isso aconteça, nós, os torcedores, perceberíamos como somos idiotas! Se torcedor pensasse perderia aquilo que os promotores do futebol, estrategicamente, chamam de magia! Na verdade, torcedor é um sujeito tonto, abestalhado e alienado, literalmente falando e, se assim não fosse, o espetáculo do futebol acabaria, perderia a "graça", vocês acham que estou mentindo? Analisemos friamente nossas atitudes quando estamos envolvidos no transcorrer de uma partida de futebol. Vejamos, quantos de nós não acreditam que certos "objetos" têm o poder mágico e SOBRENATURAL de fazer com que nosso time vença? Uma camisa? Uma sandália? Aquele tênis da sorte? A cueca verde, não pode ser azul, de jeito nenhum! Aquela bermuda que todas as vezes que fomos, ganhamos? Colocar o nome do time adversário na geladeira ajuda? E tantas e tantas outras que nos fizeram ganhar aquele campeonato? Vivemos acreditando que fazemos a diferença, que somos o 12º segundo jogador, embora quando estamos retados, os onze são uns verdadeiros mercenários! Saibam que se torcida ganhasse jogo, todo ano Flamengo e Corinthians seriam campeões! Torcedor é um simplório colecionador de amuletos que dão sorte ao seu time do coração, a propósito, será que perdemos sábado para o São Caetano porque só coloquei meu relógio vermelho e preto depois que o jogo começou?
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Lembro-me que estávamos no "estacionamento da birita", próximo ao Barradão, eu, Manuela e Ró, logo depois de uma grande vitória, quando um ex-colega de curso, chato, por sinal, todo cheio de razão afirmou: quando eu venho o Vitória não perde! Ró e Manuela me olharam com um riso de escárnio na ponta dos lábios e eu, de sacanagem, fui logo dizendo: Porra, Luciano, precisamos ganhar para continuar na primeira divisão, você está intimado a vir no próximo jogo, aqui no Barradão, não se esqueça que não podemos nem empatar, se isso acontecer, vamos cair para a série B, caso não tenha dinheiro, nós pagamos seu ingresso! Ele riu, nós rimos e contentes com a vitória daquele dia continuamos comemorando! Contra o Atlético de Goiás só a vitória interessava. Estávamos no mesmo estacionamento, lógico que diferentemente da situação anterior, todos macambúzios e sorumbáticos porque não conseguimos sair do zero a zero, sem contar que as melhores oportunidades de gol foram do adversário! Eis que aparece ninguém menos que Luciano. Eu estava tão retado que nem percebi sua presença, mas o sujeito não escapou dos olhos astutos e maquiavélicos de Ró, que foi logo dizendo: professor, olha quem vem ali, não é Luciano?! Imaginem a cara do sujeito quando nos viu? A tristeza perdeu o lugar, momentaneamente, para a ironia! Luciano não sabia o que dizer, perdeu a pose, toda sua "energia" não foi SUFICIENTE para impedir que caíssemos, em pleno Manoel, para a segunda divisão! Você pode estar se perguntando: espera aí, esse cara não se perdeu, falando o bom português, não há uma digressão aqui? Não minha cara, meu caro (hoje, não estou perdendo de vista que a língua é machista!), era uma ilustração para mostrar que nós, os torcedores, somos uns patolas! Acreditamos que somos decisivos para o time que torcemos. A energia que mandamos das arquibancadas é o elemento que nos garante a vitória. Pois é, não foi bem isso que aconteceu no último sábado, para ser mais preciso, o fatídico 19/11/2011. Tudo estava a nosso favor, o "time" que jogamos contra não tem torcida, nem no ABCD, Santo André, São Bernardo...imagina no Barradão! O estádio era todo nosso, o adversário não tinha um único torcedor, era o penúltimo tijolo para o acesso à primeira divisão! Dizem que tinham trinta e oito mil pessoas no Manoel, e olha que lá só cabem trinta e cinco mil! A aparvalhada torcida  do coiso vibrou intensamente com a nossa desgraça! O presidente de "lá eles" mandou até mensagem, via Twitter, para o técnico do São Caetano, Márcio Araújo, felicitando-o pela vitória, não nos esqueçamos que o referido presidente ainda deve uma grana àquele treinador! Mas, como torcida não ganha jogo, trinta e dois mil e cento e cinquenta e sete pagantes viram, no dia seguinte à tragédia do Barradão, nosso co-irmão tomar de dois do Palmeiras, em pleno Pituaçu! Que delícia!! Diria o gago torcedor: que magavilha! Viram, bamorosos, nada como um dia após o outro! Por mera precaução, ante a salvação do final de semana, para nós, os rubro-negros, procuramos impedir que Ró, empolgado com a derrota do coiso, saísse pelo bairro da Fazenda Grande do Retiro saltando foguetes,(coisa que já lhe rendera a alcunha de FOGUETEIRO!) como o fizera aos 23 minutos do segundo tempo no jogo do querido co-irmão contra o São Paulo; é preciso que se diga que foi, apenas, por precaução, afinal, nunca, cruz-credo, fomos supersticiosos... 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O fantasma da quantofrenia*...

O tema da “avaliação” e da “qualidade” está em moda atualmente – quase que como sinônimos. Estruturas e políticas perversas, sádicas, estão sendo implantadas paulatinamente em nossas vidas no cotidiano das instituições. E como tal, elas não estão sendo refletidas. As Pós-Graduações, inclusive a nossa, vêm defendendo uma concepção perversa, de punição e de retaliação, como fazer político-pedagógico, mas não reconhecem essa prática. Não se vê nessa prática. Isso não é novo na história. Quantos ex-escravos no Brasil Colônia se aliaram às instituições da Casa-Grande e ao sistema repressivo policial e passaram a combater (“dedurar” e participar de práticas violentas) os seus irmãos? Se tomarmos, também, o nazismo e os torturadores a serviço dos governos militares/civis e seus apoiadores no Brasil, nenhum destes reconhece que fez o mal. Dependendo do grau de compromisso com essas instituições mortíferas, uns, plenamente, desconhecem seu envolvimento; outros, que as defendem abertamente, argumentam que lutavam contra um mal maior e, portanto, as violências e os assassinatos foram necessários. Docentes, não se sintam agredidos por tal comparação. Óbvio que vocês não são nem torturadores e nem nazistas, e nem capatazes – nem conceitualmente, nem historicamente e nem politicamente. Contudo, temos que aceitar: a lógica estruturante é a mesma. Isso é o que importa para a análise e a auto-análise. Por isso, Félix Guatarri, diz-nos que “Hitler ainda está vivo”: “nos sonhos, nos delírios, nos filmes, nos comportamentos torturadores dos policiais...”. Assim, o mesmo ocorre com essa política de “produtividade”, de “qualidade”, das instituições. Aplicam as políticas, mas não assumem as suas consequências. Bresser Pereira, ideólogo e coordenador das políticas neoliberais no Brasil, agora, escreve contra as políticas neoliberais com o mesmo afã com que a defendia. Cínico, escroto (Titãs, belo rock transgressor), cara de pau? Um pouco disso tudo e, talvez, algo mais.
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O professor português, Doutor Almerindo J. Afonso, da Universidade do Minho, que esteve aqui recentemente, proferindo uma palestra, questionou, indagou: “pra que avaliar”? Disse ele: “os docentes nem mais se indagam hoje sobre isso, apenas discutem qual a melhor avaliação” (citação de sentido e não literal). Imediatamente todos olharam pra mim porque defendi recentemente o FIM da avaliação, da nota e da chamada – infelizmente não dá para teoricamente desenvolver a tese do “fim” da avaliação aqui. No momento contemporâneo não se pode discutir o “FIM” nesse período fantasmático, pois está “proibido” blasfemar, romper com o sagrado (resultado e produtividade). Na verdade, entendo a avaliação como uma instituição imaginária social (um fantasma, no sentido castoriadiano) que está nos assombrando, fazendo parte de nossas vidas, como se existisse a priori e não fosse nossa criação imaginária – evidentemente, inventada e fortalecida pelas grandes organizações midiáticas, pelos Estados e pelas empresas. Delírios, delírios, delírios são a avaliação. Ora, como delírio, quem criticar a avaliação será percebido, certamente, como um “inimigo”, uma ameaça e um “incompetente”, um “incapaz”. Na verdade, as pessoas estão incorporando sua “incompetência” e estão incapazes de reagir aos fantasmas: frequência, pontos, hierarquizações de veículos, tempo controlado (mas são de corpos biológicos, têm uma narrativa cronológica, psíquica, cultural e política), exposição pública como incompetente. Se pensarmos direito, como estamos dominados pelo “fantasma”, nós não “publicamos”, somos “publicados”. Completamente dominados pela imaginação do chicote da “avaliação” – lembro-me de Edilson Fernandes -, não mantemos uma relação com o tempo, mas somos “temporalizados” pelos prazos; não produzimos saberes, somos dominados pelas palavras que precisam ser ditas, a qualquer custo, mesmo que não tenhamos grande coisa a dizer nesse momento, mas se exige que se diga; não mantemos um diálogo com os autores, mas os cuspimos freneticamente (Ah! Que saudade de Augustos dos Anjos!) para sermos reconhecidos em alguma perspectiva teórica; não temos objetos de pesquisa, mas somos objetificados pela ditadura das exigências “acadêmicas” (!?!?).
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Essa ditadura do resultado imbeciliza-nos e idiotiza-nos cotidianamente. Como o importante é fazermos “pontos”, pra que debate? Pra que discussão? Pra que polêmica? Pra que projeto político-pedagógico? No máximo, um defensor ou alguém que já foi fabricado para pensar assim atua na organização de um seminário,  chamando os afiliados aos Congressos, nas instituições, elaborando um texto, publicando e ficando na expectativa de ganhar “ponto” – objetivo central. Não tem sentido participar de debate (ou organizá-lo) quando não vale “ponto” (quantos docentes da Pós organizaram debates – polêmicos - recentemente que não valem pontos?). Qual a finalidade de um texto? O que eu quero com as minhas palavras? O que pretendo com as imagens que estão circulando nas minhas palavras?  Quem concorda comigo ou discorda de mim? O meu texto mexeu com o coletivo humano? Isso não importa, o importante é que eu fiz “ponto” no lattes. O vazio – o Nada – reina nas universidades hoje. Ninguém tem nada a dizer, pois não tem mais o que dizer, já foi dito há muito tempo o que deveria ser dito – o “tempo”, a “história” morreu ( o futuro também não existe, morreu). Temos apenas que “produzir” palavras, no presente momento, pois é o único tempo existente, vazias de sentido, porque o que precisa ser dito, já foi dito há muito tempo e não há mais o que dizer. Nem o que recordar, rememorar, porque o presente é agora, o resultado é agora, você tem que provar agora que você merece a instituição. Passado e futuro não existem no domínio desse fantasma – se existir, apenas, de forma utilitária (o que dá no mesmo, a morte do tempo). Só o presente vale.
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 Ora, a predominância absoluta do presente leva-nos ao utilitarismo e ao sadismo. Aqueles que querem gozar da onipotência das produções visando ao “resultado” não podem reconhecer o Outro. O Outro é um objeto – literal. É uma peça – é um taylorismo mais sofisticado. Vincent de Gaulejac nos alerta de que Taylor é mais progressista que o mais novo gerencialismo quantitativista. E como peça, troquemo-la quando não mais nos servir. Tudo pelo resultado. Difícil de combater essa concepção porque esse fantasma não tem corpo, não tem matéria (são normas, instrumentos, números, dados estatísticos, resultados). Como diz Enriquez, o grande estrategista tem que ser “cool”, frio, indiferente. Não pode se permitir demonstrar sentimentos “femininos”. O importante é o resultado. Conforme Dejours, que escreveu “A banalização da injustiça social”, não são os "grandes homens” que fazem o mal, mas os medianos das organizações. São esses que demitem, aterrorizam seus subordinados em nome dos resultados e para serem reconhecidos pela organização. Como ele diz: “É em nome dessa justa causa que se utilizam, larga manu, no mundo do trabalho, métodos cruéis contra nossos concidadãos, a fim de excluir os que não estão aptos a combater nessa guerra: estes são demitidos da empresa, ao passo que dos outros, dos que estão aptos ao combate, exigem-se desempenhos sempre superiores em termos de produtividade, de disponibilidade, de disciplina e de abnegação”.Enriquez defende que nunca o indivíduo esteve preso nas malhas da organização e “tão pouco livre em relação ao seu corpo, ao seu modo de pensar, à sua psique”. Há docentes na ANPED que gostam de E. Enriquez – mas este autor combate essa política e essa prática nas organizações; alguns gostam de Boaventura Santos – este, também, denuncia e tenta elaborar teoria que seja alternativa à globalização; uns, elogiam a Christophe Dejours; outros admiram e louvam a Paulo Freire, mas este viveu seu pensamento; outros mais se encantam com Almerindo Afonso e Licínio Lima; outros, ainda, com a ação comunicativa de Habermas. Poderíamos ilustrar o que afirmamos com um conjunto de autores que são escarrados (lembro-me de Augusto dos Anjos) em citações nos tão propalados artigos que valem ponto no lattes. Mas são palavras vazias, são palavras “virgens”, “puras”, que não marcam a tinta do papel porque são superficiais. Esses e outros autores, se consultados sobre a prática política e a concepção de ciência e saber no cotidiano daqueles que os citam, certamente, se rebelariam, pois não se veriam nelas. A instituição, por estar morta, e/ou dominada por esse fantasma, ou os autores/os teóricos tornam-se sem sentido, desfigurados, apenas retóricos, porque estão desconectados do real. A pulsão de morte está encravada na instituição universitária.
Dejours chama-nos a atenção de que “se essa maquinaria continua a mostrar seu poderio é porque consentimos em fazê-la funcionar, mesmo quando isso nos repugna. Mesmo quando isso nos repugnar!”. Conforme ele, esse consentimento decorre do “sofrimento no trabalho”. A perda da esperança gradual no trabalho e a consciência de que quanto mais se dão ao trabalho, mais se agrava a situação constroem esse consentimento à injustiça. 
O domínio da presentificação do tempo não ataca apenas alguns docentes “improdutivos”, mas os estudantes. Literalmente como objetos – estritamente objetais-, eles sofrem – efetivamente sofrem - toda a política deliberada do Programa. Como coisas - e Karl Marx chamou muito bem a atenção sobre o fetichismo da mercadoria –, os três estudantes são tratados (!?!?) ... Ora, Se são coisas, não são “tratadas”. “Coisas” não têm sentimentos, não pensam, não desejam, portanto não são tratadas, são descartadas, são peças. Coisas são “avaliadas” (ou avariadas?), não precisam ser avaliadores. Agora entendo porque os estudantes não participam do “processo de avaliação” da instituição e dos docentes. Os estudantes, do ponto de vista dessa lógica, não contam.  Fico pensando com minha cabeça improdutiva: mas eles são a razão de ser da instituição. Sem estudantes, existiriam as Pós? Hum! Acho que não, pois aqui é uma Universidade. Se é assim, por que eles não são ouvidos no processo? Por que eles não avaliam “qualitativamente” de igual para igual? 
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Espere aí: mas os estudantes têm espaço na Pós, têm seus representantes, diriam muitos dos docentes. Seu pensamento não está pensando direito. Você está sendo pensado, diriam. Será que têm razão? Acho que não. O Estatuto da UFPE é ainda da ditadura militar: sua concepção, sua forma organizacional e sua composição. Quando do fim do governo dos militares (e dos civis) – mas não do autoritarismo e da hierarquização –, o País estabeleceu a Constituinte: deputados eleitos com finalidade exclusiva de escrever as novas leis. Isso não foi à toa. O luto precisava ser feito. Era necessária uma nova configuração social, política, organizacional etc Não se podia administrar o “novo” com forma do “velho”. Quer dizer que não haveria legitimidade se não se fizesse isso? A Pós tem legitimidade? Acho que não. Ela tem legalidade, o que é bem diferente. A ruptura com esse imaginário social da ordem autoritária é imprescindível – não foi feito o luto na UFPE –– obviamente para quem defende uma sociedade democrática. Quem não a defende se agarrará ao fantasma e fará dele o bastião da qualidade e dos resultados.  Então não é em nome da Universidade e da Pós que se faz tanta violência simbólica e efetiva? – certamente, Pierre Bourdieu diria: “Não, de todo!” O Capital simbólico será apropriado por certos indivíduos e grupos e estes sairão fortalecidos do processo – lá em Brasília, na ANPED, sabe-se lá. Mas, e as “mortes” e o sofrimento psíquico? O quê? Não, isso não é importante, o importante é que chegaremos lá. Aonde? Sei lá, chegaremos lá, ao ponto 5. Queremos mais: queremos o ponto 7. Mas, é o máximo, o topo. O preço é muito alto. Quantos não terão que “morrer” para alcançarmos isso? Você sabe, a vida é assim. Há aqueles que são competentes, e outros, o seu oposto. O importante é que chegaremos lá. Nada nos impedirá, pois isso é progresso, é racional, é desenvolvimento, é o correto – não temos saída. A verdade estará conosco. 
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Já ouvi essa história antes, diriam outros. Os que sobreviverem contarão a sua história. Isso é História – afirma categoricamente o fantasma. E aqueles que ficam esperneando? Bem, temos que afastá-los; ora, eles esperneiam porque não são produtivos. Essa obsessão por resultados para sermos simplesmente reconhecidos por Brasília é um absurdo – do ponto de vista do bom senso e do racional. As Pós não fazem discussões profundas sobre a formação dos estudantes – do ponto de vista da formação intelectual, da “qualidade” das disciplinas - em nosso caso, do papel e importância da Pós para Pernambuco (e para o Nordeste) -, inexistem reflexões e projetos institucionais com o Nordeste, pensando o Nordeste-, e, agora, pensando a América Latina (o ALAS abriu essa possibilidade); inexiste, também, reflexão da Pós com os governos (municipais, estaduais e federais) – na verdade, a Pós é utilizada como objeto (“coisa”) dos governantes. Precisamos problematizar, não podemos ficar a reboque da quantofrenia dos governos e empresários. Precisamos colocar nossos conhecimentos a favor do MST e de outras organizações de trabalhadores sem terra, sem teto, sem universidade, etc – mas é preciso vontade política para sentarmos e construirmos coletivamente, junto com todos os estudantes da graduação e das Pós, e com os servidores, um projeto político-social que aponte um compromisso social efetivo. A Pós do governo federal é um órgão público (pelo menos deveria). Ela tem que estar a serviço do nosso Povo. O seu caminho diz respeito não somente a quem faz parte dela, mas dos que estão fora. Acho até que podemos e devemos elaborar projetos, concursos, com a finalidade de discutirmos os graves problemas social-educacionais. Mas como poderemos fazer isso e outras coisas se estamos escravos dos resultados, da mediocridade? A situação social e política é grave no contexto em que vivemos. Não podemos ser cúmplices e irresponsáveis pelos graves problemas sociais, econômicos, éticos e ideológicos que atravessa a Pátria nesse momento.
Essa carta é uma conclamação aos docentes, estudantes e servidores ao bom senso, ao pensamento aberto, não somente do CE, mas de todos que têm o direito e o dever de se posicionar politicamente sobre as questões das instituições públicas e os graves problemas sociais nacionais e locais. Essas questões da quantofrenia são um problema político, e não técnico (de regras matemáticas de pontuação). Não há como fugir da posição política. Seremos cobrados por isso. Não adianta dizer que a culpa é da CAPES. Não podemos mais nos esconder e adotar a amnésia e a política da avestruz como prática política.   
Uma outra Pós-Graduação é possível...
Recife, outubro de 2011

Evson Malaquias de Moraes Santos


*Conforme Gaulejac, “a quantofrenia designa uma patologia que consiste em querer traduzir sistematicamente os fenômenos sociais e humanos em linguagem matemática”. Conferir Gestão como doença social. Idéias e Letras. (p.94)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Mestre traído*...

Celebrava-se a última ceia.
-Todos te amam, ó Mestre! - disse um dos discípulos.
-Todos, não - respondeu gravemente o Mestre. - Conheço alguém que me inveja e, na primeira oportunidade que se apresentar, me venderá por trinta moedas.
- Já sei a quem te referes - exclamou o discípulo. - Ele também me falou de ti.
-A mim também - acrescentou outro discípulo.
- E a mim, e a mim também - disseram todos os outros (todos menos um, que permanecia em silêncio).
- Mas és o único - prosseguiu o que havia falado primeiro. - E para provar o que digo, diremos seu nome em coro.
Os discípulos (todos menos aquele que se mantinha mudo) se olharam, contaram até três e gritaram o nome do traidor. As muralhas da cidade estremeceram-se com o estrépito, pois eram muitos os discípulos e cada um havia gritado um nome diferente. Então, o que não dissera nada saiu à rua e, livre de remorsos, consumiu sua traição...

* Jordi Liost: El Evangelio heretico, traduzido do catalão por Marco Denevi.