segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Torcida não ganha jogo...

No último final de semana, nas séries A e B do campeonato brasileiro de 2011, aqui na chamada "boa terra", essa constatação, MAIS UMA VEZ, se mostrou de forma objetiva e clara. Torcida NÃO GANHA JOGO, serve meramente para dar o "colorido" às transmissões televisivas, quando menos, cantar o hino nacional a plenos pulmões, vide o jogo da seleção de Ricardo Teixeira, em Belém/PA (as mídias estimulam o patriotismo nosso de cada dia dizendo que a seleção é brasileira enganando incautos torcedores). No fundo, bem lá no fundo de suas consciências, se é que torcedor sabe o que é isso, aqueles que lotam os estádios sabem que sua "energia" não passa de uma grande ilusão, mas, é aí que entra o grande paradoxo, se realmente o torcedor conseguisse ter consciência que representa muito pouco no resultado final da partida, não gastaria sangue, suor e lágrimas, torcer é uma coisa que não pode ser racionalizada, caso isso aconteça, nós, os torcedores, perceberíamos como somos idiotas! Se torcedor pensasse perderia aquilo que os promotores do futebol, estrategicamente, chamam de magia! Na verdade, torcedor é um sujeito tonto, abestalhado e alienado, literalmente falando e, se assim não fosse, o espetáculo do futebol acabaria, perderia a "graça", vocês acham que estou mentindo? Analisemos friamente nossas atitudes quando estamos envolvidos no transcorrer de uma partida de futebol. Vejamos, quantos de nós não acreditam que certos "objetos" têm o poder mágico e SOBRENATURAL de fazer com que nosso time vença? Uma camisa? Uma sandália? Aquele tênis da sorte? A cueca verde, não pode ser azul, de jeito nenhum! Aquela bermuda que todas as vezes que fomos, ganhamos? Colocar o nome do time adversário na geladeira ajuda? E tantas e tantas outras que nos fizeram ganhar aquele campeonato? Vivemos acreditando que fazemos a diferença, que somos o 12º segundo jogador, embora quando estamos retados, os onze são uns verdadeiros mercenários! Saibam que se torcida ganhasse jogo, todo ano Flamengo e Corinthians seriam campeões! Torcedor é um simplório colecionador de amuletos que dão sorte ao seu time do coração, a propósito, será que perdemos sábado para o São Caetano porque só coloquei meu relógio vermelho e preto depois que o jogo começou?
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Lembro-me que estávamos no "estacionamento da birita", próximo ao Barradão, eu, Manuela e Ró, logo depois de uma grande vitória, quando um ex-colega de curso, chato, por sinal, todo cheio de razão afirmou: quando eu venho o Vitória não perde! Ró e Manuela me olharam com um riso de escárnio na ponta dos lábios e eu, de sacanagem, fui logo dizendo: Porra, Luciano, precisamos ganhar para continuar na primeira divisão, você está intimado a vir no próximo jogo, aqui no Barradão, não se esqueça que não podemos nem empatar, se isso acontecer, vamos cair para a série B, caso não tenha dinheiro, nós pagamos seu ingresso! Ele riu, nós rimos e contentes com a vitória daquele dia continuamos comemorando! Contra o Atlético de Goiás só a vitória interessava. Estávamos no mesmo estacionamento, lógico que diferentemente da situação anterior, todos macambúzios e sorumbáticos porque não conseguimos sair do zero a zero, sem contar que as melhores oportunidades de gol foram do adversário! Eis que aparece ninguém menos que Luciano. Eu estava tão retado que nem percebi sua presença, mas o sujeito não escapou dos olhos astutos e maquiavélicos de Ró, que foi logo dizendo: professor, olha quem vem ali, não é Luciano?! Imaginem a cara do sujeito quando nos viu? A tristeza perdeu o lugar, momentaneamente, para a ironia! Luciano não sabia o que dizer, perdeu a pose, toda sua "energia" não foi SUFICIENTE para impedir que caíssemos, em pleno Manoel, para a segunda divisão! Você pode estar se perguntando: espera aí, esse cara não se perdeu, falando o bom português, não há uma digressão aqui? Não minha cara, meu caro (hoje, não estou perdendo de vista que a língua é machista!), era uma ilustração para mostrar que nós, os torcedores, somos uns patolas! Acreditamos que somos decisivos para o time que torcemos. A energia que mandamos das arquibancadas é o elemento que nos garante a vitória. Pois é, não foi bem isso que aconteceu no último sábado, para ser mais preciso, o fatídico 19/11/2011. Tudo estava a nosso favor, o "time" que jogamos contra não tem torcida, nem no ABCD, Santo André, São Bernardo...imagina no Barradão! O estádio era todo nosso, o adversário não tinha um único torcedor, era o penúltimo tijolo para o acesso à primeira divisão! Dizem que tinham trinta e oito mil pessoas no Manoel, e olha que lá só cabem trinta e cinco mil! A aparvalhada torcida  do coiso vibrou intensamente com a nossa desgraça! O presidente de "lá eles" mandou até mensagem, via Twitter, para o técnico do São Caetano, Márcio Araújo, felicitando-o pela vitória, não nos esqueçamos que o referido presidente ainda deve uma grana àquele treinador! Mas, como torcida não ganha jogo, trinta e dois mil e cento e cinquenta e sete pagantes viram, no dia seguinte à tragédia do Barradão, nosso co-irmão tomar de dois do Palmeiras, em pleno Pituaçu! Que delícia!! Diria o gago torcedor: que magavilha! Viram, bamorosos, nada como um dia após o outro! Por mera precaução, ante a salvação do final de semana, para nós, os rubro-negros, procuramos impedir que Ró, empolgado com a derrota do coiso, saísse pelo bairro da Fazenda Grande do Retiro saltando foguetes,(coisa que já lhe rendera a alcunha de FOGUETEIRO!) como o fizera aos 23 minutos do segundo tempo no jogo do querido co-irmão contra o São Paulo; é preciso que se diga que foi, apenas, por precaução, afinal, nunca, cruz-credo, fomos supersticiosos... 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O fantasma da quantofrenia*...

O tema da “avaliação” e da “qualidade” está em moda atualmente – quase que como sinônimos. Estruturas e políticas perversas, sádicas, estão sendo implantadas paulatinamente em nossas vidas no cotidiano das instituições. E como tal, elas não estão sendo refletidas. As Pós-Graduações, inclusive a nossa, vêm defendendo uma concepção perversa, de punição e de retaliação, como fazer político-pedagógico, mas não reconhecem essa prática. Não se vê nessa prática. Isso não é novo na história. Quantos ex-escravos no Brasil Colônia se aliaram às instituições da Casa-Grande e ao sistema repressivo policial e passaram a combater (“dedurar” e participar de práticas violentas) os seus irmãos? Se tomarmos, também, o nazismo e os torturadores a serviço dos governos militares/civis e seus apoiadores no Brasil, nenhum destes reconhece que fez o mal. Dependendo do grau de compromisso com essas instituições mortíferas, uns, plenamente, desconhecem seu envolvimento; outros, que as defendem abertamente, argumentam que lutavam contra um mal maior e, portanto, as violências e os assassinatos foram necessários. Docentes, não se sintam agredidos por tal comparação. Óbvio que vocês não são nem torturadores e nem nazistas, e nem capatazes – nem conceitualmente, nem historicamente e nem politicamente. Contudo, temos que aceitar: a lógica estruturante é a mesma. Isso é o que importa para a análise e a auto-análise. Por isso, Félix Guatarri, diz-nos que “Hitler ainda está vivo”: “nos sonhos, nos delírios, nos filmes, nos comportamentos torturadores dos policiais...”. Assim, o mesmo ocorre com essa política de “produtividade”, de “qualidade”, das instituições. Aplicam as políticas, mas não assumem as suas consequências. Bresser Pereira, ideólogo e coordenador das políticas neoliberais no Brasil, agora, escreve contra as políticas neoliberais com o mesmo afã com que a defendia. Cínico, escroto (Titãs, belo rock transgressor), cara de pau? Um pouco disso tudo e, talvez, algo mais.
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O professor português, Doutor Almerindo J. Afonso, da Universidade do Minho, que esteve aqui recentemente, proferindo uma palestra, questionou, indagou: “pra que avaliar”? Disse ele: “os docentes nem mais se indagam hoje sobre isso, apenas discutem qual a melhor avaliação” (citação de sentido e não literal). Imediatamente todos olharam pra mim porque defendi recentemente o FIM da avaliação, da nota e da chamada – infelizmente não dá para teoricamente desenvolver a tese do “fim” da avaliação aqui. No momento contemporâneo não se pode discutir o “FIM” nesse período fantasmático, pois está “proibido” blasfemar, romper com o sagrado (resultado e produtividade). Na verdade, entendo a avaliação como uma instituição imaginária social (um fantasma, no sentido castoriadiano) que está nos assombrando, fazendo parte de nossas vidas, como se existisse a priori e não fosse nossa criação imaginária – evidentemente, inventada e fortalecida pelas grandes organizações midiáticas, pelos Estados e pelas empresas. Delírios, delírios, delírios são a avaliação. Ora, como delírio, quem criticar a avaliação será percebido, certamente, como um “inimigo”, uma ameaça e um “incompetente”, um “incapaz”. Na verdade, as pessoas estão incorporando sua “incompetência” e estão incapazes de reagir aos fantasmas: frequência, pontos, hierarquizações de veículos, tempo controlado (mas são de corpos biológicos, têm uma narrativa cronológica, psíquica, cultural e política), exposição pública como incompetente. Se pensarmos direito, como estamos dominados pelo “fantasma”, nós não “publicamos”, somos “publicados”. Completamente dominados pela imaginação do chicote da “avaliação” – lembro-me de Edilson Fernandes -, não mantemos uma relação com o tempo, mas somos “temporalizados” pelos prazos; não produzimos saberes, somos dominados pelas palavras que precisam ser ditas, a qualquer custo, mesmo que não tenhamos grande coisa a dizer nesse momento, mas se exige que se diga; não mantemos um diálogo com os autores, mas os cuspimos freneticamente (Ah! Que saudade de Augustos dos Anjos!) para sermos reconhecidos em alguma perspectiva teórica; não temos objetos de pesquisa, mas somos objetificados pela ditadura das exigências “acadêmicas” (!?!?).
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Essa ditadura do resultado imbeciliza-nos e idiotiza-nos cotidianamente. Como o importante é fazermos “pontos”, pra que debate? Pra que discussão? Pra que polêmica? Pra que projeto político-pedagógico? No máximo, um defensor ou alguém que já foi fabricado para pensar assim atua na organização de um seminário,  chamando os afiliados aos Congressos, nas instituições, elaborando um texto, publicando e ficando na expectativa de ganhar “ponto” – objetivo central. Não tem sentido participar de debate (ou organizá-lo) quando não vale “ponto” (quantos docentes da Pós organizaram debates – polêmicos - recentemente que não valem pontos?). Qual a finalidade de um texto? O que eu quero com as minhas palavras? O que pretendo com as imagens que estão circulando nas minhas palavras?  Quem concorda comigo ou discorda de mim? O meu texto mexeu com o coletivo humano? Isso não importa, o importante é que eu fiz “ponto” no lattes. O vazio – o Nada – reina nas universidades hoje. Ninguém tem nada a dizer, pois não tem mais o que dizer, já foi dito há muito tempo o que deveria ser dito – o “tempo”, a “história” morreu ( o futuro também não existe, morreu). Temos apenas que “produzir” palavras, no presente momento, pois é o único tempo existente, vazias de sentido, porque o que precisa ser dito, já foi dito há muito tempo e não há mais o que dizer. Nem o que recordar, rememorar, porque o presente é agora, o resultado é agora, você tem que provar agora que você merece a instituição. Passado e futuro não existem no domínio desse fantasma – se existir, apenas, de forma utilitária (o que dá no mesmo, a morte do tempo). Só o presente vale.
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 Ora, a predominância absoluta do presente leva-nos ao utilitarismo e ao sadismo. Aqueles que querem gozar da onipotência das produções visando ao “resultado” não podem reconhecer o Outro. O Outro é um objeto – literal. É uma peça – é um taylorismo mais sofisticado. Vincent de Gaulejac nos alerta de que Taylor é mais progressista que o mais novo gerencialismo quantitativista. E como peça, troquemo-la quando não mais nos servir. Tudo pelo resultado. Difícil de combater essa concepção porque esse fantasma não tem corpo, não tem matéria (são normas, instrumentos, números, dados estatísticos, resultados). Como diz Enriquez, o grande estrategista tem que ser “cool”, frio, indiferente. Não pode se permitir demonstrar sentimentos “femininos”. O importante é o resultado. Conforme Dejours, que escreveu “A banalização da injustiça social”, não são os "grandes homens” que fazem o mal, mas os medianos das organizações. São esses que demitem, aterrorizam seus subordinados em nome dos resultados e para serem reconhecidos pela organização. Como ele diz: “É em nome dessa justa causa que se utilizam, larga manu, no mundo do trabalho, métodos cruéis contra nossos concidadãos, a fim de excluir os que não estão aptos a combater nessa guerra: estes são demitidos da empresa, ao passo que dos outros, dos que estão aptos ao combate, exigem-se desempenhos sempre superiores em termos de produtividade, de disponibilidade, de disciplina e de abnegação”.Enriquez defende que nunca o indivíduo esteve preso nas malhas da organização e “tão pouco livre em relação ao seu corpo, ao seu modo de pensar, à sua psique”. Há docentes na ANPED que gostam de E. Enriquez – mas este autor combate essa política e essa prática nas organizações; alguns gostam de Boaventura Santos – este, também, denuncia e tenta elaborar teoria que seja alternativa à globalização; uns, elogiam a Christophe Dejours; outros admiram e louvam a Paulo Freire, mas este viveu seu pensamento; outros mais se encantam com Almerindo Afonso e Licínio Lima; outros, ainda, com a ação comunicativa de Habermas. Poderíamos ilustrar o que afirmamos com um conjunto de autores que são escarrados (lembro-me de Augusto dos Anjos) em citações nos tão propalados artigos que valem ponto no lattes. Mas são palavras vazias, são palavras “virgens”, “puras”, que não marcam a tinta do papel porque são superficiais. Esses e outros autores, se consultados sobre a prática política e a concepção de ciência e saber no cotidiano daqueles que os citam, certamente, se rebelariam, pois não se veriam nelas. A instituição, por estar morta, e/ou dominada por esse fantasma, ou os autores/os teóricos tornam-se sem sentido, desfigurados, apenas retóricos, porque estão desconectados do real. A pulsão de morte está encravada na instituição universitária.
Dejours chama-nos a atenção de que “se essa maquinaria continua a mostrar seu poderio é porque consentimos em fazê-la funcionar, mesmo quando isso nos repugna. Mesmo quando isso nos repugnar!”. Conforme ele, esse consentimento decorre do “sofrimento no trabalho”. A perda da esperança gradual no trabalho e a consciência de que quanto mais se dão ao trabalho, mais se agrava a situação constroem esse consentimento à injustiça. 
O domínio da presentificação do tempo não ataca apenas alguns docentes “improdutivos”, mas os estudantes. Literalmente como objetos – estritamente objetais-, eles sofrem – efetivamente sofrem - toda a política deliberada do Programa. Como coisas - e Karl Marx chamou muito bem a atenção sobre o fetichismo da mercadoria –, os três estudantes são tratados (!?!?) ... Ora, Se são coisas, não são “tratadas”. “Coisas” não têm sentimentos, não pensam, não desejam, portanto não são tratadas, são descartadas, são peças. Coisas são “avaliadas” (ou avariadas?), não precisam ser avaliadores. Agora entendo porque os estudantes não participam do “processo de avaliação” da instituição e dos docentes. Os estudantes, do ponto de vista dessa lógica, não contam.  Fico pensando com minha cabeça improdutiva: mas eles são a razão de ser da instituição. Sem estudantes, existiriam as Pós? Hum! Acho que não, pois aqui é uma Universidade. Se é assim, por que eles não são ouvidos no processo? Por que eles não avaliam “qualitativamente” de igual para igual? 
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Espere aí: mas os estudantes têm espaço na Pós, têm seus representantes, diriam muitos dos docentes. Seu pensamento não está pensando direito. Você está sendo pensado, diriam. Será que têm razão? Acho que não. O Estatuto da UFPE é ainda da ditadura militar: sua concepção, sua forma organizacional e sua composição. Quando do fim do governo dos militares (e dos civis) – mas não do autoritarismo e da hierarquização –, o País estabeleceu a Constituinte: deputados eleitos com finalidade exclusiva de escrever as novas leis. Isso não foi à toa. O luto precisava ser feito. Era necessária uma nova configuração social, política, organizacional etc Não se podia administrar o “novo” com forma do “velho”. Quer dizer que não haveria legitimidade se não se fizesse isso? A Pós tem legitimidade? Acho que não. Ela tem legalidade, o que é bem diferente. A ruptura com esse imaginário social da ordem autoritária é imprescindível – não foi feito o luto na UFPE –– obviamente para quem defende uma sociedade democrática. Quem não a defende se agarrará ao fantasma e fará dele o bastião da qualidade e dos resultados.  Então não é em nome da Universidade e da Pós que se faz tanta violência simbólica e efetiva? – certamente, Pierre Bourdieu diria: “Não, de todo!” O Capital simbólico será apropriado por certos indivíduos e grupos e estes sairão fortalecidos do processo – lá em Brasília, na ANPED, sabe-se lá. Mas, e as “mortes” e o sofrimento psíquico? O quê? Não, isso não é importante, o importante é que chegaremos lá. Aonde? Sei lá, chegaremos lá, ao ponto 5. Queremos mais: queremos o ponto 7. Mas, é o máximo, o topo. O preço é muito alto. Quantos não terão que “morrer” para alcançarmos isso? Você sabe, a vida é assim. Há aqueles que são competentes, e outros, o seu oposto. O importante é que chegaremos lá. Nada nos impedirá, pois isso é progresso, é racional, é desenvolvimento, é o correto – não temos saída. A verdade estará conosco. 
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Já ouvi essa história antes, diriam outros. Os que sobreviverem contarão a sua história. Isso é História – afirma categoricamente o fantasma. E aqueles que ficam esperneando? Bem, temos que afastá-los; ora, eles esperneiam porque não são produtivos. Essa obsessão por resultados para sermos simplesmente reconhecidos por Brasília é um absurdo – do ponto de vista do bom senso e do racional. As Pós não fazem discussões profundas sobre a formação dos estudantes – do ponto de vista da formação intelectual, da “qualidade” das disciplinas - em nosso caso, do papel e importância da Pós para Pernambuco (e para o Nordeste) -, inexistem reflexões e projetos institucionais com o Nordeste, pensando o Nordeste-, e, agora, pensando a América Latina (o ALAS abriu essa possibilidade); inexiste, também, reflexão da Pós com os governos (municipais, estaduais e federais) – na verdade, a Pós é utilizada como objeto (“coisa”) dos governantes. Precisamos problematizar, não podemos ficar a reboque da quantofrenia dos governos e empresários. Precisamos colocar nossos conhecimentos a favor do MST e de outras organizações de trabalhadores sem terra, sem teto, sem universidade, etc – mas é preciso vontade política para sentarmos e construirmos coletivamente, junto com todos os estudantes da graduação e das Pós, e com os servidores, um projeto político-social que aponte um compromisso social efetivo. A Pós do governo federal é um órgão público (pelo menos deveria). Ela tem que estar a serviço do nosso Povo. O seu caminho diz respeito não somente a quem faz parte dela, mas dos que estão fora. Acho até que podemos e devemos elaborar projetos, concursos, com a finalidade de discutirmos os graves problemas social-educacionais. Mas como poderemos fazer isso e outras coisas se estamos escravos dos resultados, da mediocridade? A situação social e política é grave no contexto em que vivemos. Não podemos ser cúmplices e irresponsáveis pelos graves problemas sociais, econômicos, éticos e ideológicos que atravessa a Pátria nesse momento.
Essa carta é uma conclamação aos docentes, estudantes e servidores ao bom senso, ao pensamento aberto, não somente do CE, mas de todos que têm o direito e o dever de se posicionar politicamente sobre as questões das instituições públicas e os graves problemas sociais nacionais e locais. Essas questões da quantofrenia são um problema político, e não técnico (de regras matemáticas de pontuação). Não há como fugir da posição política. Seremos cobrados por isso. Não adianta dizer que a culpa é da CAPES. Não podemos mais nos esconder e adotar a amnésia e a política da avestruz como prática política.   
Uma outra Pós-Graduação é possível...
Recife, outubro de 2011

Evson Malaquias de Moraes Santos


*Conforme Gaulejac, “a quantofrenia designa uma patologia que consiste em querer traduzir sistematicamente os fenômenos sociais e humanos em linguagem matemática”. Conferir Gestão como doença social. Idéias e Letras. (p.94)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Mestre traído*...

Celebrava-se a última ceia.
-Todos te amam, ó Mestre! - disse um dos discípulos.
-Todos, não - respondeu gravemente o Mestre. - Conheço alguém que me inveja e, na primeira oportunidade que se apresentar, me venderá por trinta moedas.
- Já sei a quem te referes - exclamou o discípulo. - Ele também me falou de ti.
-A mim também - acrescentou outro discípulo.
- E a mim, e a mim também - disseram todos os outros (todos menos um, que permanecia em silêncio).
- Mas és o único - prosseguiu o que havia falado primeiro. - E para provar o que digo, diremos seu nome em coro.
Os discípulos (todos menos aquele que se mantinha mudo) se olharam, contaram até três e gritaram o nome do traidor. As muralhas da cidade estremeceram-se com o estrépito, pois eram muitos os discípulos e cada um havia gritado um nome diferente. Então, o que não dissera nada saiu à rua e, livre de remorsos, consumiu sua traição...

* Jordi Liost: El Evangelio heretico, traduzido do catalão por Marco Denevi.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Jaques Wagner e seu horário de verão...


Todos sabem, e se não sabem vão saber agora, que a Argentina faz de tudo para se assemelhar a um país europeu, ainda que faça parte, quiçá a contragosto, da vilipendiada e explorada América do Sul. Não sei se por maldade dos deuses, esse país latino americano está justamente na parte mais baixa do continente, esse fato deveria torná-lo mais humilde e menos arrogante! Contudo não é isso que acontece, basta dar uma olhada em suas manifestações culturais, sociais e políticas para que essa grandiloquência se mostre de forma contundente. Os Maradonas, as Evitas e os Peróns não nos deixam mentir! Do lado de cá da fronteira, há um caso análogo. Há um estado numa das regiões que está entre os maiores bolsões de pobreza do mundo que poderia ser chamado de Argentina do nordeste! Tudo na Bahia é pomposo, não sem razão um antigo governador já dissera que o absurdo por aqui tinha/tem precedente! Isso é tão caricatural que um artista local dos mais renomados cometeu um deslize ao dizer: "eu estava na Bahia e saí em excursão pelo nordeste!? Se a Argentina se julga um país europeu encravado no çul da América, a Bahia é o estado da federação que estando no çul do nordeste se apresenta como se estivesse em  região não localizável no mapa do Brasil!   
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O fato é que, inesperadamente para alguns, depois de longos oito anos sem fazermos parte do execrável horário de verão, o governador da Bahia, Jaques Wagner, determinou que era chegada a hora, perdoem-me pelo trocadilho infame, de voltarmos a fazer parte dessa elite da hora adiantada. Por causa dessa decisão singular de sua excelência, somos o único estado da região nordeste, ainda que pareça que não façamos parte dela, que aceitamos adiantar uma hora em nossos relógios: o suiço e o baiano. Como somos diferentes de todo o resto que compõe o universo nordestino, vem daí nosso complexo de angentino, precisávamos estar ancorados naqueles que não são baianos ou paraíbas! Ora, pensamos que já estávamos livres de decisões arbitrárias comuns em outras eras!? O certo(?) é que, em tempos plúmbeos, houve um governador que se transformou literalmente em dono do estado. Esse poder possibilitou que alterasse o que quer que desejasse sem que houvesse qualquer impedimento; o caso mais grotesco foi o do aeroporto que, por capricho de pai, deixou de ser 2 de julho, a data mais significativa do estado, para ter o nome do seu filhoisso ocorreu também a um município; sem contar que batizou uma das maiores avenidas de Salvador com seu nome, além de escolas e outros bens públicos?! Outras aberrações foram perpetradas tendo o auxílio luxuoso dos cúmplices sequiosos por lamberem as botas do cabeça branca. Por questões de segurança do estado, achamos que é melhor não citar o nome do ex-governador, vai que as palavras têm poder e o homem das cinzas como a fênix vira de novo governador, quem nos garante que o estado não deixa de ser Bahia e vira Antonio Peixoto?
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Bem, nossa decepção foi constatar que um governador de um partido que se diz dos trabalhadores, sem qualquer consulta à maioria que o elegeu, justamente aqueles que sofrerão de forma mais acintosa com a mudança de horário, determinou que o estado estaria como todos os outros, exceto os da região nordeste, sic, em horário de verão! É bem provável que para a maioria do empresariado não estarmos entre aqueles que "vivem" em horário de verão causasse diversos transtornos para os seus negócios! Imaginem o grande negociante ter que se enquadrar o tempo inteiro com a agenda de seus parceiros do centro sul, porque seu estado teimava em não aderir à mudança? Esse empresário devia se sentir envergonhado por não fazer parte do mainstream! Agora, para José da Silva, morador de São Tomé de Paripe, trabalhador da construção civil, levantar às 3:30 para esperar um ônibus que o leve ao canteiro de obra, do outro lado da cidade, no bairro da Pituba, será um sofrimento que se prolongará até depois do carnaval, não só pelo serviço de transporte horrível que a cidade dispõe, como também pelos altos índices de violência a que vai se expor, e o governador sabe muito bem disso. Os que ainda têm alguma fé estão dizendo que, por Jaques Wagner ter mexido no horário de Deus, estamos sendo castigados com uma quantidade de chuvas que não aconteceu durante o inverno inteiro! Quer dizer que o governador pragueja e punidos somos nós? O triste dessa tragédia, se é que em algum momento uma tragédia consegue ser diferente, é que quem decidiu que a Bahia não mais faria parte do horário de verão, há oito anos, foi justamente o bando do antigo dono do estado, Antonio Peixoto
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A ciência ainda não tem provas contundentes, mas "críticos alegam que o horário de verão afeta o relógio biológico das pessoas, principalmente das mais velhas, com sérios danos à saúde. Para os que não suportam adiantar os relógios e quando a duras penas já se adaptaram, têm que atrasar, há uma esperança. Tramita na Câmara dos Deputados três projetos de lei cujo objetivo é a extinção do horário de verão no Brasil. A justificativa é que os benefícios com a redução da carga máxima de energia elétrica em horário de pico não atingem a maior parte dos cidadãos, enquanto os prejuízos à saúde e à segurança pública afetam precisamente as pessoas que precisam acordar cedo e ir à escola ou ao trabalho, pois, neste caso, as ruas ainda se encontram às escuras!" Para nossa tristeza nem o governador Jaques Wagner nem aqueles que o pressionaram a aderir ao horário de verão precisam se preocupar em levantar de madrugada para pegar o busão lotado, correr para chegar no horário e bater o ponto para não perder o dia! Infelizmente, para os pobres e miseráveis, são eles que elegem e nada mais têm a perder, a não ser suas pobres vidas, mas quem determina como deverá regular o horário dessas vidas são aqueles que os pobres e miseráveis deram o poder...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Considerações sobre o Bullying...

Acho que chegou o momento de não mais aceitar os atos de bullying a que venho sendo submetido desde criança. Basta! Já durou o suficiente e os responsáveis devem pagar, e caro, por esses longos anos de sofrimento, saibam que sairei à caça daqueles que um dia me ofenderam. Essas ações foram emblemáticas para que me transformasse naquilo que sou hoje: um sujeito recalcado, tímido, antissocial, violento e, acima de tudo, rancoroso! As desculpas, agora, já não me importam, colocarei em prática os ensinamentos do velho testamento: comigo será, olho por olho, dente por dente. Pensando bem, e para evitar ter que explicar as razões de não ter procurado ajuda ao longo de todo esse tempo, vou me suicidar assim que concluir meu plano de vingança!
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Para mim o bullying começou muito cedo, entre os 3, 4 anos quando ganhei minha primeira e nada lisonjeira alcunha. Aliás, são poucas as que não são depreciativas. Como não conseguia levantar da cama e chegar até o banheiro, fazia xixi ali mesmo, logo fui chamado de mijão. O fato é que essa "incontinência urinária" me obrigou a ter que vestir uma espécie de macacão/jardineira marron todas as noites antes de dormir. Eu juro que não fazia porque queria, até que tentava evitar, o problema é que sonhava que estava no lugar certo, porém logo percebia que não quando sentia o líquido quente inundando minha roupa de prisão! Era terrível, já sabia que logo pela manhã seria execrado por aquele ato, frente aos outros irmãos, que sorriam da minha infelicidade, ah, como desejei matar minha mãe e irmãos por tudo aquilo! Superada essa fase, pensei que estaria livre do bullying, que nada, a tormenta mal começara, embora não soubesse. O segundo momento de exposição ao bullying veio quando chegou a hora de aprender a dar o nó/laço nos sapatos, meu Deus, como aquilo parecia difícil. Achava que jamais conseguiria transformar os cadarços em um nó/laço, e olha que o movimento era repetido à exaustão, mas quem disse que era possível que eu fizesse aquilo? Sem titubear, logo me arranjaram um novo apelido muito rapidamente: "Ele é muito burrinho nunca vai aprender!" Se eu pudesse, eu matava quem ousava colocar aqueles apodos em mim, mas era muito pequeno e fraco, quem sabe quando crescesse, um revólver não resolveria o problema?!
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Quando cheguei à escola, lá estava a professora dos meus "sonhos"! A famosa dona Semira, mestra que cometia as maiores atrocidades (assessorada por sua filha dona Raimunda, que era meio vesga), em nome da Educação, desde a já extinta palmatória, até colocar os estudantes de joelhos sobre grãos de milho, o aprender ali não era nada fácil. Sem falar no mais temido dos dias, já que tinha o dia de tudo, o dia da tabuada e a sua famosa sabatina! Na verdade, o objetivo nunca foi aprender e sim tomar o menor número possível de "bolos", porque não tomar nenhum era impossível, mesmo decorando, como não esquecer diante de tamanha pressão?! Havia um cheiro, que sinto até hoje, indicativo de que faltava pouco para chegar à escola. Quando estava próximo à padaria e seu cheiro forte de café torrado, meu coração disparava, pressentia que o momento dos horrores estava prestes a começar, como gostaria de voltar para casa, desejava tudo naqueles anos, menos estudar! Mudei de escola, todavia a situação mudou muito pouco, já não havia a palmatória. Fui presenteado com  mais uma professora marcante. Seu nome? Dona Zelândia. O bullying dessa aí quase fulminou um moleque de apenas sete anos. A infeliz, em uma prova de ciências, pediu o nome de três insetos, fiquei a manhã inteira e o único inseto que me lembrei foi a barata. Cansada por ver o aluno sucumbir à prova, lançou no ar a frase que não poderia ser dita a nenhuma criança: "esse menino não vai a lugar algum, é burro demais!" Pois é, a forma de ensinar não mudara a única coisa que mudou foi a desinência da alcunha, seu diminutivo desaparecera! Outrossim havia adultos que diziam, quando me viam brincando com outras crianças, às vezes, seus filhos: "puxa, como esse menino fala alto!" Oh, como eu queria morrer ao ouvir isso, tentava falar baixo para não ter que passar por esse constrangimento! Lembro-me de Dona Nicinha, que não era era professora, e sim a mãe de outra criança, dizendo: "você não sabe falar mais baixo, menino?!" Vieram outras alcunhas: cambota, pernas de alicate, cangalha, pernas de caubói, entre outras! Fui suportando a tudo e acumulando meu ódio por aqueles que me massacravam! 
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Na universidade, o falar alto ajudava e atrapalhava. Ajudava pois conseguia atingir, sem precisar de microfone, até o último estudante; atrapalhava quando informalmente devia baixar o tom, mas quem disse que conseguia? Também o ensino superior deixou as suas marcas. Havia uma professora, de quem gostava muito, que disse, certa vez, para a sala repleta: "quem fala alto não tem educação!" Não aceitava, mas entendia quando ouvia isso das minhas primeiras professoras, afinal não haviam passado pela academia, mas como entender uma professora universitária, com doutorado na França, dizendo isso a um estudante? Saibam que o respeito se transformou em desprezo. Eu sabia que era uma pessoa educada, que falava alto não porque queria, quem sabe se uma fonoaudióloga não resolveria meu problema? 
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Bem, ao chegarmos até aqui, você deve estar se perguntando: será que ele irá cumprir a promessa de eliminar um por um a todos aqueles que o ofenderam? O fato é que a trajetória da criança que vivenciou todos aqueles constrangimentos, hoje um adulto com todos os problemas que afligem a grande maioria de nós, é a mais pura verdade, menos o desejo de sair por aí com uma arma em punho eliminando todos aqueles que, ao longo desses anos, caricaturaram-no, deixaram-no envergonhado por certo atributos que o acompanham, por exemplo, falar alto, ter as pernas tortas, entre outros! Para ser sincero, é preciso que se diga que só foi feito o desenho da face da vítima, só falei daquele que impingiram sofrimento, só mostrei o perfil daquele que sofreu ações de bullying em muito momentos de sua vida. Mas onde está o lado algoz desse sujeito?  Será que não cometeu nenhum deslize? Quem foi que nunca chamou alguém de cabeção, orelhudonarigudo, burro? Recentemente, um comentarista esportivo, aqui de Salvador, reiteradamente, chamou o colega de cabeça de arromba navio, essa é das antigas! Quem nunca deu uns cascudos no amigo ou colega, no baba, na escola ou em outros lugares? Quem não cometeu nenhuma maldade que atire a primeira pedra!? Neste caso, havia um garoto em sua infância que só chamava de aleijado,  e o moleque respondia: "onde eu encontrei, eu deixei!" Só bem mais tarde ele entendeu o que o aleijadinho queria insinuar. Não estou com isso querendo dizer que as ações de bullying são inofensivas e que não se deve tomar providências para evitá-las, mas que não se pode buscar nestas ações os perfis de franco-atiradores e outros criminosos que a mídia e outros vêm nos vendendo a cada massacre que acontece, empurrando, dessa forma, a poeira para debaixo do tapete, sabemos que o buraco é mais embaixo. Porque se assim fosse, se todos aqueles que sofreram/sofrem ações de bullying saíssem por aí matando, não sei se restaria alguém para contar essa história...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Invejoso...

Para quem não gosta muito de barulho, morar em Salvador e ouvir rádio não é uma combinação das melhores! A cidade incorporou a imagem que as imagens da tv lhe deram! Então, por aqui, temos carnaval o ano inteiro, o infeliz propriamente dito, ou seja, quase uma semana de zoeira ensurdecedora, perdoem-me pela redundância, e sua preparação durante os outros meses do ano! Como todos já sabem, existem artistas da terra que parecem ubíquos, o que faz com que não esqueçamos, um só segundo, que carnaval tem todo ano e o ano inteiro! Quem sabe uns dois exemplos podem deixar esse negócio mais claro? A internet aqui de casa parou de funcionar. Para minha surpresa, um técnico, lá no Rio de Janeiro, conseguiu consertá-la de forma rápida e eficiente via telefone (o técnico local, numa análise rápida e definitiva, condenou o modem), falei da sua eficiência e que caso resolvesse vir a Salvador, que seria seu cicerone. Ele rindo retrucou: tudo bem, quem sabe no carnaval? Estava em Florianópolis tentando comprar um agasalho para o frio lancinante que fazia por lá. Conversando com o vendedor, e nem sei o porquê, pergunta-me se sou da Bahia. Achei estranho já que não apresentava nenhum traje típico da boa terra, terá sido o meu sotaque? Mas eu não tenho! Pois bem, não escapei, ao confirmar que era de Salvador, da pergunta que me persegue de forma recorrente em todo canto que vou: o carnaval é aquilo mesmo? Para que tenham uma idéia de como isso, às vezes, é inconveniente, certa feita em Uberlândia, quase saio do sério quando um sujeito, ao saber da minha origem geográfica, veio logo dizendo que tinha uma vontade danada de vir a Salvador, no carnaval, para sair dando beijo na boca e fazer outras coisas que não acho necessário repetir. Para lhe dar uma porrada, lancei-lhe raivosamente na cara essas palavras: minha mãe também mora lá! Como se não bastasse esse sofrimento, imaginem o repertório da maioria das rádios que vicejam por aqui!? Todavia, para fugir da Lei de Murphy, nem tudo é barulho incessante por aqui, de quando em vez, tocam umas coisas interessantes, fugindo do lugar comum, se assim não fosse, nem o maior dos defensores das Cláudias e Ivetes suportaria, aliás, confesso que já nem sei quem é uma ou quem é a outra! Sei apenas que uma é fake, mas está cada vez mais difícil, sem a imagem, descobrir quem é que é o fake! O fake faz o que todo fake faz, não é? O problema é quando o original incorpora o fake! Quem disse que isso é importante? O fato é que hoje pela manhã uns acordes diferentes insistiam em quebrar a rotina sonora soteropolitana, aguçamos os ouvidos e o que tocava no rádio, ou será na rádio?, era INVEJOSO de Arnaldo Antunes e Liminha, de 2009, o que prova que "quando tudo está perdido, sempre existe uma luz":

O carro do vizinho é muito mais possante
E aquela mulher dele é tão interessante

Por isso ele parece muito mais potente
Sua casa foi pintada recentemente

E quando encontra o seu colega de trabalho

Só pensa em quanto deve ser o seu salário
Queria ter a secretária do patrão
Mas sua conta bancária já chegou no chão

Na hora do almoço vai pra lanchonete

Tomar seu copo d'água e comer um croquete
Enquanto imagina aquele restaurante
Aonde os outros devem estar nesse instante

Invejoso

Querer o que é dos outros é o seu gozo
E fica remoendo até o osso
Mas sua fruta só lhe dá caroço

Invejoso

O bem alheio é o seu desgosto
Queria um palácio suntuoso
mas acabou no fundo desse poço

Depois você caminha até a academia

Sem automóvel e também sem companhia
Queria ter o corpo um pouco mais sarado
Como aquele rapaz que malha do seu lado

E se envergonha de sua própria namorada

Achando que os amigos vão fazer piada
Queria uma mulher daquelas de revista
Uma aeromoça, uma recepcionista

E quando chega em casa liga a tevê

Vê tanta gente mais feliz do que você
Apaga a luz na cama e antes de dormir
Fica pensando o que fazer pra conseguir

O que é dos outros

Querer o que é dos outros é o seu gozo
E fica remoendo até o osso
Mas sua fruta só lhe dá caroço

Invejoso

O bem alheio é o seu desgosto
Queria um palácio suntuoso

mas acabou no fundo desse poço   

domingo, 25 de setembro de 2011

Contraponto...

Assumida as limitações desse escriba, trazer o texto de Alex Castro tinha por finalidade mostrar que ainda é possível falar de amor intenso e completo, diria, extraordinário e possível, neste mundo onde os sites de relacionamentos são os novos pontos de encontros dos futuros casais! Não posso negar que o amor dedicado em vida e agora à memória de José Saramago por Pilar del Río materializa, quiçá, represente melhor aquilo que pretendíamos com essa empreitada. O belo texto de Alex fala de um amor maduro, resolvido, amor que buscamos todos os dias, e quem disser que não quer um amor assim, mente, queremos amar e que nos amem com a mesma intensidade. A declaração de Pilar del Río (em vida ele estava comigo, agora está dentro de mim) eterniza a relação na medida em que livra definitivamente do quotidiano o amor, dito de outra maneira, a vida faz do amor refém porque a convivência o expõe às mazelas de todos os dias, ironicamente é a morte que o liberta, torna-o imorredoiro, nada mais paradoxal, não lhe parece? Não quero eu dizer que para que o amor sobreviva é preciso que um dos amantes tenha que morrer, mas que viver um grande amor não é preciso! É tão verdadeira essa afirmação que, às vezes, a morte torna o amor definitivo! Eu sei, tudo o que estou dizendo soa contraditório! 
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Alex Castro anuncia um amor oposto ao que nós apresentamos para Lanzudo Reis. Naquele temos o encontro do ser divino, da alma gêmea, do amor esperado; neste vemos o amor deixando de ser correspondido, a perda, o sofrimento e, por fim, a morte como bálsamo para a dor lancinante e incurável, pelo menos para ele, do amor sentido por Luiza. A ironia é que ambos amam com a mesma intensidade e paixão. Observa-se em ambos uma apologia do ser amado, levada às últimas consequencias; o primeiro confessa coisas que, em geral, só são ditas na alcova, e expõe sua libido sem nenhuma desfaçatez; o segundo vai se consumindo por um ciúme silencioso, pelo distanciamento da mulher amada, por fim, a suspeita de traição, tão cruel quanto a de Bentinho por Capitu! Somado a tudo isso vem a perda do discernimento. Neste momento, os amantes bradam: "quem foi que lhe disse que no amor há discernimento? No fundo, no fundo, amar é morrer em vida!" Menotti del Picchia resumiu de forma irônica o que está reservado para nós, os humanos, em relação ao amor, disse ele: amar é sofrer, não amar é sofrer mais! O amor nos torna patéticos, em todos os aspectos, principalmente quando escrevemos para quem amamos! Dizem os analistas e entendidos que não há nada mais ridículo que uma carta de amor! Contudo foi Saramago, em seu O ano da morte de Ricardo Reis, quem belamente sintetizou o sentimento ironizando aqueles que tripudiam dos amantes dizendo: não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de amor. Preciso dizer algo mais?...  

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Uma tragicomédia mexicano-brasileira...

Nunca alguém se encaixou, este é um verbo estranho para o caso, de forma tão precisa em seu nome como aquele camarada. Fora batizado como Lanzudo Reis. Um sujeito que, além de ter a sorte no nome, tinha um sobrenome duplamente real! Não jogava em loteria, porém tinha uma capacidade extraordinária para dar palpites, por isso, vivia ganhando coisas nos sorteios em que entrava acidentalmente. Ou seja, os prêmios corriam atrás dele: televisor, geladeira, ventilador, ar condicionado, de novo uma geladeira, outro televisor, mais um ventilador e um liquidificador! Tendo essa característica peculiar para os sorteios, as pessoas viviam lhe dizendo: "joga na mega-sena, rapaz, é bem capaz de você ganhar!" Mas ele não lhes dava ouvidos, para quê? Era o que respondia. Na verdade, queria viver do seu trabalho, onde era reconhecido e competente. Começou na labuta sozinho, aos dezesseis anos, longe de sua cidade natal, fato que tornou sua caminhada ainda mais árdua e difícil. Não esmoreceu um só instante, conseguindo superar os principais obstáculos. O curioso é que mesmo sem ter curso superior, conseguiu um salário superior àqueles que o tinham, logo se tornou o braço direito do patrão, sua importância era capital, sem ele o negócio não andava. Sim, ganhava razoavelmente bem, comparado aos padrões brasileiros, cujo salário mínimo não chega aos míseros seiscentos paus, um emergente, usando um eufemismo da moda! Mas, apesar de todo o sucesso, Lanzudo não estava feliz, o que não deixa de ser um contrassenso, com suas conquistas: casa própria, carro e motocicleta na garagem, porém queria mais, algo estava faltando em sua vida, mas o quê? Era o que se perguntava. Talvez fosse uma companheira, quem sabe?
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Como em toda tragédia ou comédia sempre aparece o amor da vida de alguém, para Lanzudo também não foi diferente e nem difícil encontrar sua cara metade, a pessoa que queria ao seu lado pelo resto de sua existência, aliás, é preciso que se diga, todo apaixonado seguramente repete essa ladainha, ama-se o outro de forma incontrolável! Neste caso, ela estava bem ali, distante apenas alguns quarteirões de sua casa e, por isso, diferente dos dias de hoje, não foi necessário nenhum site de relacionamento para os aproximar. Dizem que foi amor à primeira vista, paixão arrebatadora e incontrolável. Ah, como o amor faz das pessoas seres grotescos! Não podia negar que Luiza foi a coisa mais linda que já passara sob seus olhos! Não tinha nenhuma dúvida que era a pessoa que iria dar sentido e significado à caminhada que começara em terras estranhas. Como diz aquele velho ditado: santo de casa não faz milagres, o fato é que o estrangeiro termina tendo mais oportunidades que os filhos da terra, mas isso agora não é importante, e, por essa razão, esse forasteiro terminou se casando com a menina mais linda do lugar e foram felizes, se isso aqui não fosse a vida real, para sempre...
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Mas na vida o para sempre sempre acaba! Embora a história de Lanzudo seja recortada por uma verdadeira trilha sonora, que vai refletindo seus estados d'alma, não se pode dizer o mesmo do seu casamento! Há outro ditado popular que insiste em dizer que aquele que é feliz no jogo, certamente será infeliz no amor! Espera um pouco. Não há nesta sabedoria um cínico determinismo? Não podemos concordar com isso, há outros personagens que são felizes tanto no jogo como no amor. Por exemplo? Aquele ganhador da mega-sena cuja mulher era manicure. Não, doido, avisa-me aqui meu alter-ego, essa mandou matar o marido! É verdade, e o sujeito não tinha as pernas, quanta maldade! O fato é que Lanzudo começou a notar certo distanciamento por parte de Luiza, já não aceitava mais seus carinhos como fazia outrora. Qual seria a razão dessa mudança? Essa pergunta lhe martelava os cornos, digo, a cabeça. Não, não queria acreditar no pior! Amava Luiza com todas as forças do seu ser, só ela o completava e compreendia as coisas que eram importantes para ele. Como dissera antes, quando as pessoas estão apaixonadas, beiram ao ridículo e não são capazes de ver o que está diante de seus olhos, mesmo que seja do tamanho de um elefante! 
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O caso de Lanzudo já se enquadrava no perfil dos sites que oferecem casos extraconjugais com a manutenção do casamento, ou seja, menos de uma relação sexual por mês! Um homem infeliz, muito infeliz era o que Lanzudo se tornara. A saída seria recorrer as tais redes sociais da traição (como a Ashley Madison, canadense, a Ohhtel, americana e a Second Love, holandesa) que já congregam entre nós mais 370 mil pessoas sedentas para uma saidinha do casamento sem sexo? Não, não poderia trair seu grande amor! O remorso o consumiria, não teria como encarar Luiza no café da manhã! Observem que Lanzudo não esquece um só instante a grande paixão por sua esposinha. O pior da história é que o amor só aumentava e em progressão geométrica, enquanto ela perdia o interesse por ele no mesmo diapasão. 
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A relação conjugal se deteriorava, e sexo, quando havia, era mais rápido que o  de Bruno Mazzeo em Cilada.com! Para piorar a situação, Lanzudo descobriu no histórico do computador do casal que Luiza estava inscrita em todas as redes sociais citadas anteriormente! E agora, José? Perdoe-nos Drummond, por essa aleivosia! Estava sendo traído ou ainda se encontrava apenas no virtual? Dilacerado pelo ciúme, resolveu fazer aquilo que todo homem traído deve fazer, quando tem sua honra ultrajada. Não, senhoras e senhores, não pensou em matá-la, afinal, já saímos da idade média. Pediria imediatamente o divórcio. Mas lembrou que não havia provas, o que um histórico quer dizer? O pior cego é aquele que não quer ver, quem foi mesmo que disse isso? E se fosse apenas platônico? O fato é que nessas horas, todo mundo recorre ao filósofo! Com o coração partido e cheio de dúvidas, Lanzudo viu que célere uma depressão se aproximava, precisava respirar, doía demais aquilo tudo. Deixou sua residência às 17 horas, precisamente. Não levou o carro ou a moto, não estava com cabeça para dirigir ou pilotar, pegou um coletivo, saltou naquele ponto próximo ao Iguatemi, subiu aquela passarela que mais parece um formigueiro e se atirou, não sem antes tirar os sapatos...

sábado, 10 de setembro de 2011

Eu te amo...

Uma Carta de Amor Aberta (Mas Com Trechos Censurados) Eu te amo, sabia?
Eu te amo quando ri e te amo quando resmunga; quando me beija e quando não se deixa ser beijada; quando me dá um presente ou quando reclama dos meus; quando come coisas XXXXXX; quando me liga do trabalho ou da rua ou de qualquer lugar; quando pede minha ajuda no português e quando resmunga; quando me manda links engraçados, fotos divertidas e matérias insólitas; quando me liga pra falar de tudo e de nada, nos nossos assuntos infindáveis; quando te torpedeio e você me torpedeia de volta; quando eu te faço pão e você me faz XXXXXXX; quando não me deixa te tocar e, melhor ainda, quando deixa.
Eu te amo na alegria e na mais-alegria, na saúde e no espirro, na riqueza e na fartura. Eu te amo porque eu te conheço, não porque te idealizo. Eu amo a mulher resmungona mas sacana, perfeccionista mas pragmática, culta mas irônica, linda mas calculista, fria mas apaixonada, pervertida mas carinhosa.
Eu amo o pacote todo. Eu amo seus dedinhos do pé tantas vezes XXXXXXX e tão XXXXXXX. Eu amo suas pernas lindas e tão fáceis de ter XXXXXXXXX. Eu amo sua XXXXXXXX gostosa, cheirosa, voraz, XXXXXXXXX nos meus dedos. Eu amo suas mãos, adoro sentir suas mãos em mim, me pegando, me tocando, acariciando meu XXXXXXX, arranhando minhas costas, passeando por meu corpo, tomando posse de sua propriedade. Eu amo seus XXXXX, tão lindos, no tamanho exato, os XXXXXXX nos XXXX, chupá-los bem devagar. Eu amo seu pescoço, seu decote, passar a língua, dar beijinhos, apoiar minha cabeça no seu colo e me sentir o homem mais amado do mundo. Eu amo suas costas, suas XXXXXXX, sua XXXXXXXXX, seus XXXXXXXXX, sua XXXX, posso me perder mirando seus olhos, ficar lá dias, olhando, apreciando, amando. te fazer ronronar com uma lambidinha. Eu amo (ah como eu amo) sua boca!, te beijar e beijar e beijar (sim, sou um homem que gosta de te beijar) e acariciar sua língua devagar, sentir seu XXXXX secreto em minha língua, deitar ao seu lado e te beijar como se não houvesse depois de amanhã.
Em você, eu me descobri. Pra você, eu me entreguei. Com você, eu fiz coisas que nunca tinha feito, derrubei barreiras, quebrei paradigmas: me deixei XXXXXX e me XXXXXXXX, tudo com uma mulher só! Por você, eu, um escaldado descasado, aprendi a me perder de novo em um grande amor, sem reservas, sem escudos, me jogando inteiramente, mergulhando, apostando todas as minhas fichas. Porque não quero mais ninguém, só você. TODAS as outras, são coadjuvantes na minha vida. Só você é a estrela.
Eu quero caminhar ao seu lado, ser XXXXXXX, te XXXXXXX, te amar, te adorar. Cuidar de você quando estiver doente, te ajudar quando precisar, ser seu descanso quando estiver cansada, ser seu XXXXX humano quando estiver com tesão. Ao seu lado, sempre.
Nosso amor é a coisa mais intensa, mais linda, mais inesperada, mais incrível que me aconteceu. Eu amo te amar, eu amo ser amado por você. Eu amo saber que estou na sua vida e que você está na minha, e que nossas vidas estão juntas.
Dois beijos,
Eu
Alex Castro, com algumas "censuras/inserções" minhas!

domingo, 7 de agosto de 2011

casar e trair: as duas faces da moeda...

Conversava com uma mulher de meia idade (não sei se seria melhor dizer mulher madura!) em Florianópolis, eis que do nada, ela me sai com essa: "estou cadastrada em todos os sites de relacionamentos e tem muita gente querendo casar comigo!" Minha estranheza não se deu por haver muita gente querendo casar com ela ou por estar cadastrada em todos os sites, mas por tomar conhecimento de que as pessoas agora "arriscam" suas vidas apostando neste tipo de relação. Quando conhecemos alguém no dia a dia já é tão difícil o "negócio" dar certo, imaginem uma união baseada nestes termos? A possibilidade hoje de casamento "arranjado" a partir da tela do computador mostra o quão estamos nos afastando cada vez mais do mundo real e apostando todas as fichas no quimérico mundo virtual! Claro, além de totalmente asséptico esse mundo é perfeito como a Utopia de Thomas Morus! 
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O fato é que a pessoa ideal para ficar ao nosso lado, por todo o sempre, está lá do outro lado do micro sendo mediada por quem mais entende as pessoas e as relações afetivas na contemporaneidade: os sites de relacionamentos!? Há pessoas hoje que só estabelecem contato se seu "pretendente" tiver cadastro em alguma rede social, isso demonstra que temos um novo passaporte do amor, sem ele, está cada vez mais difícil namorar e beijar na boca como se fazia antigamente! Com essa referência, temos a certeza que nossa vida amorosa pode ser resolvida a partir de simples toques no teclado! Não deixa de ser estranho entregarmos o futuro das nossas relações mais íntimas à virtualidadeA senha para nossa felicidade se encontra nas mãos das redes sociais! Convivi com a heroína dessa história 35 longos dias. Uma pessoa difícil em todos os sentidos, poderia elencar aqui uma quantidade imensa de adjetivos que poderia depreciá-la, mas basta um para traduzir esse sentimento: infeliz! Ela faz parte de uma legião de homens e mulheres que está buscando sua cara metade por essa via, a causa talvez seja uma solidão dilacerante que os novos modos de viver nos impõem e a confiança de que há um príncipe e/ou princesa encantado(a) em algum lugar a nossa espera! Fico me perguntando o que ela teria dito aos seus pretendentes para que pensassem que teriam encontrado a pessoa dos seus sonhos, mesmo sem nunca tê-la visto pessoalmente, sem conhecer suas manias, seus humores, seus cheiros; o fato é que ela falava e muito que queria casar, estava cansada de viver sozinha!
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Enquanto essa mulher alquebrada de 50 anos, corroída pela solidão, deseja alguém para dividir seus carinhos, a versão brasileira do site ohhtel que é responsável por proporcionar aos amantes, cujo casamento tem sexo meia-bomba, uma traição discreta, entrou no ar. O curioso é que no ar desde o dia 11 de julho de 2011, não completou sequer um mês ainda, e já tem mais de 150 mil usuários dispostos a uma traiçãozinha "facilitada"! Neste caso, só perdemos em número de "sócios" para os EUA onde o site existe há mais de 2 anos e tem 1,4 milhões de casados à procura de alguém para copular! Vemos aí aquela antiga máxima que dizia: o que é bom para os EUA é bom para o Brasil. Segundo pesquisa feita pelo Ohhtel, existem cerca de 14 milhões de homens e mulheres vivendo sem sexo no casamento no Brasil, é muita gente, não?! Os números levantados "afirmam" que 19,2% dos casados têm menos de uma relação sexual por mês, enquanto 51% estão insatisfeitos! A média de idade entre os homens é de 39 anos, entre as mulheres é de 33 anos. A partir de uma estratégia de marketing bem articulada, o Ohhtel não cobra inscrição das mulheres, porém os marmanjos têm que desembolsar cerca de R$ 60 se quiserem manter contato com alguma das inscritas na rede. Contudo parece que esse pormenor não assustou ou intimidou os homens sequiosos por uma traição planejada. O dado deveras importante é que das 14 milhões de almas que fazem parte do cadastro do Ohhtel no Brasil, 66% são homens, enquanto as mulheres somam 34%! 
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Lais RannaVP de operações do site no Brasil, deixou claro quem é o alvo e as razões de se escolher essa alternativa para a busca da felicidade sexual do próximo, disse ela: "quando você se encontra em um casamento sem sexo, você tem três caminhos a seguir: 1. continuar infeliz desse jeito; 2. pedir o divórcio (nessa opção, você estará colocando o sexo acima da família, filhos, finanças, etc); ou 3. continuar o casamento e procurar satisfação sexual em outro lugar. O site, então, é para pessoas que escolheram essa terceira opção e que querem fazer isso de uma forma mais segura." Pois é, sublinhei por entender que estamos diante de uma pessoa que além de cínica, é pragmática e extremamente esperta, ora, a pessoa colocar o sexo acima da família, filhos e finanças é algo nefasto e não recomendável, afinal é importante a manutenção dessas instituições, mas trair/enganar deliberadamente seu/sua parceira(o) é muito mais sensato e seguro do que a separação! É o uso da lógica: trair e coçar é só começar! Vale muito a pena ouvir um pouco mais o que tem a dizer a figura "brilhante" que é Lais Ranna sobre as vantagens de alguém se associar ao Ohhtel: "O pagamento é bem discreto: dinheiro ou cartão, sendo que o nome do site não aparece no extrato bancário. Lembramos que a pessoa deve tratar o futuro amante como um total desconhecido, adotando as mesmas medidas de segurança que usaria em outra rede social. Sugerimos também contar para outras duas pessoas aonde você está indo, além das características físicas de quem você vai encontrar, sem a necessidade de explicar a finalidade do encontro. Marque também um encontro rápido e em local público." É preciso dizer mais alguma a esse respeito depois dessa aula? Apenas que o perigo mora ao lado!
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O que as duas situações têm em comum? Em que a busca de casamento para a superação de uma solidão dilacerante e o desejo de colocar um pouco de sal a partir da traição, via rede social, numa vida sexual já decrépita e sem sentido, se aproximam? Na verdade, nas duas há uma carência humana de afeto, carinho, amor nos dois caminhos postos à disposição, contudo essa carência está se tornando abissal! Talvez o mais grave entre as situações apresentadas seja a nossa total incompetência para nos relacionarmos diretamente, e uma tendência à inserção cada vez mais comum de um parceiro virtual intermediando os encontros. Já não estamos conseguindo caminhar sem essas muletas virtuais a nos auxiliar! Há uma viva demonstração de que precisamos da mediação de outrem para encaminhar até aquilo, a traição, cujo sigilo era fundamental para sua sobrevivência! Será que para tudo o que se relaciona às nossas paixões mais íntimas um site de relacionamentos estará nos "bisbilhotando"?! Vivemos George Orwell e seu 1984? Quiçá isso demonstre que estamos totalmente desamparados no que se refere às questões do nosso afeto e o pior é que não há nenhuma  luz a iluminar o fim do túnel... 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O silêncio é para se ouvir...

Acordo antes do previsto, fico me revirando na cama tentando recuperar aquela última nesga de sono que ainda me resta, mas que provavelmente não terei de volta. No quarto de um hotel barato, às escuras, resolvo ligar a tv, sei que não deveria, pois essa é uma mercadoria que nos impede de pensar livremente. Tudo ali já vem prontinho para ser consumido, a exemplo de suas famigeradas novelas, e só temos que comer com os olhos, embora a profusão de imagens nos ceguem! Porém, naquela manhã, Beth Lago falava sobre o silêncio e como este vem sendo cada vez mais olvidado por nós, o irônico da situação é que dizia isso justamente através de um aparelho que sobrevive da imagem e do som! Para falar do silêncio  não há outro jeito, só quebrando-o! Esqueço esse porém e fico tentando entender por que optamos pela tempestade ao invés da calmaria. E ela através de situações corriqueiras como, por exemplo, a sirene da ambulância, vai me mostrando o quanto o silêncio nos grandes aglomerados é inacessível na maior parte das horas, isto é, o silêncio se manifesta apenas em pequeníssimas frações de tempo, os sons, de todas as naturezas, impõem suas presenças de forma demolidora! O interessante é que som e silêncio são inseparáveis, um não tem existência sem o outro, assim como a sombra não aparece sem a luz!
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No cotidiano somos bombardeados por uma quantidade incomensurável de ruídos que vai além do minimamente suportável! Esses vêm das mais diversas direções e vão, de forma avassaladora, se impondo, enquanto o silêncio está se tornando uma raridade dentro deste tempo tão veloz; entre os muitos barulhos que somos agraciados, observem como os sons dos celulares vão se apropriando dos espaços e tempo de convivência, chegando, de quando em vez, a confundir o dono do aparelho que está tocando: será que é o meu?! Outro movimento é justamente quando as pessoas atendem seus aparelhinhos, neste caso, somos convidados/obrigados a entrar em suas intimidades, ouvir seus queixumes, desavenças, desejos, vitórias, derrotas e tudo o mais! Há uma perda da dimensão do que é público e o que é privado. Aumenta ainda mais esse inconveniente quando temos mais de um celular em uso nas proximidades, neste caso, o silêncio se torna algo constrangedor, sua presença deve ser banida pelo bem da saúde pública.
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Certa ocasião, em um festival percussivo, fui surpreendido deveras por um dos músicos. Ele começou fazendo um barulho ensurdecedor e sem mais nem menos parou de repente; as pessoas ficaram atônitas, incomodadas mesmo com aquele silêncio sem propósito e fora de hora; não desejando quebrar o silêncio com suas próprias respirações, aplaudem fervorosamente a suposta performance! O artista espera calmamente e quando a última palma se cala, diz: era para ouvir o silêncio! Aquela, sim, era uma atitude extraordinária e, por que não dizer, assustadora por estar acontecendo justamente num festival em que o silêncio não fora convidado! Além disso, assumindo meu preconceito, não esperava que um movimento inusitado como aquele fosse feito por Carlinhos Brown!
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Em verdade, o que pode ser dito é que o silêncio nosso de cada dia vai ficando cada vez menos frequente, é como se estivesse paradoxalmente em extinção, e se sua existência não fosse fundamental, já teria sido assassinado sem dó ou piedadeObservem como ele nos incomoda. Quantas vezes você chegou a casa e sentiu aquela atmosfera pesada, e imediatamente não ligou a tv ou o som para acabar com aquela sensação de  vazio que o silêncio proporciona? Somos a civilização do barulho e a sua ausência nos deixa desconsertados, talvez porque ficar a sós com a nossa presença seja insuportável! Existem pessoas que não conseguem ir para cama sem a tv, ainda que não esteja prestando atenção no que está sendo dito por suas imagens e sons! Loucura seria adormecer tendo o silêncio como companheiro! É em Zeca Baleiro, no disco Líricas, que encontro uma leitura provocadora, na faixa Brigitte Bardot, sobre o silêncio, quando ele dedica-lhe sete longos minutos, sete minutos que parecem uma eternidade aos ouvidos ansiosos. Você logo pensava que havia algo errado com aquela faixa, esquecia completamente que música também é silêncio e olha que o disco é do início dos anos 2000! Passado tanto tempo, todas as vezes que ouço a canção me impressiono com a sacada e fico imaginando o impacto nas outras pessoas, o que sentem/fazem quando a música para, o que será que pensam com aquela situação tão incomum? Ainda há lugar para o SILÊNCIO nos nossos dias tão cheios de sons?...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O menino velho e seu sonho...

Sonhos quando consumados costumo chamá-los de Padaria Paris, mas como essa é uma longa história, não vou contar agora, deixa para depois. O que importa neste momento é que consegui realizar o sonho do velho menino, depois de tenebroso e longo inverno, comprei uma motocicleta! Sempre quis ter uma, mas repetidamente apareciam os empecilhos e impediam que o desejo se transformasse em imagens vindas em direção às minhas retinas embaçadas pela presbiopia. Comecei a trabalhar aos treze anos, com uns 16 mais ou menos, já podia comprar a bixinha usada e a prestação, mas o problema é que não tinha crédito, ou seja, podia pagar, mas não podia comprar. E ainda tinha mais um pequenino detalhe: trabalhava, tinha um "salário", porém não existia para o mercado de trabalho! É que a tal da carteira de trabalho não era assinada, trabalhar com parente é sempre assim e na época isso era muito comum, ou seja, mesmo que eu quisesse, não venderiam algo para um trabalhador que não existia! Pedi, então, para que meu pai tirasse no seu nome e, como trabalhava em sua empresa, ia descontando do meu invisível salário, aos pouquinhos! Saibam que a resposta dada ao Vital, aquele do Paralamas do Sucesso, foi muito mais generosa que a minha, disse-lhe seu pai: “motocicleta é perigoso, Vital, é duro te negar, filho, mas isto dói bem mais em mim”. No caso do menino que queria envelhecer, ela foi muito mais dolorosa que até hoje ecoa nos seus tímpanos "quase idosos": “Moto? Claro que não, aquilo é um passaporte para a morte.” Aquilo? Onde já se viu se tratar assim um sonho de menino! Naquele tempo, ter uma CG 125 da Honda, era tudo o que mais queria, por isso, todo santo dia, passava na porta da concessionária, para admirá-la! Esperei a maioridade, diferente de D. Pedro II que a dita cuja lhe caiu no colo, sem precisar fazer o menor esforço, e carteira assinada para ter a motocicleta. Os sonhos não morrem, ficam esperando na antessala da memória, poético isso, não? 
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O problema é que mesmo depois que a maioridade chegou, ainda me encontrava “tutelado”, ou seja, como ainda morava com meu pai e trabalhando em sua gráfica, o “sonho” continuava sendo um passaporte! Com a demora e sem perspectiva de se concretizar, meu desejo começou a adormecer e a antecâmara (alguém ainda diz isso, rapaz? Parece coisa do tempo de Machado de Assis!) a se empoeirar para sempre. Mas como "o pra sempre, sempre acaba", assim falara Manfredini Junior, eis que tudo se modificou com a maturidade e com ela veio a liberdade plena! Agora, o menino já era velho o suficiente para não ter que se submeter a certas coisas comezinhas, os anos de idade lhe davam o direito sacrossanto de dizer NÃO e nada, nada poderia impedir sua utopia DE SE MATERIALIZAR! Resolvera que o sonho sairia voando sobre duas rodas a 200 km por hora! Bem, aí foi minha filha que atrapalhou o baba! Dissera ela, toda cheia de razão, que era muito arriscado andar de moto porque tinha muito medo dos motoristas pela experiência do que tinha em casa que era um usuário contumaz da direção ofensiva!
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Ora, bolas, mas será o Rosenilton? Quer dizer, a Manuela? Tinha sempre uma pedra no meio do meu caminho! Meu pai, agora a filha! Pensam que ficou só nisso? Que nada! Minha namorada também resolveu colaborar com a minha felicidade e foi logo me avisando: “se o senhor comprar uma moto eu te largo, sua misera!?” Perceberam a entonação do senhor na voz dela? Que suavidade! Mulher quando te trata cheia de pronomes de tratamento, saibam que coisa boa não vai acontecer, com certeza, vai entrar água! E o que dizer do mais que carinhoso sua misera? Quanto afeto se derramando numa frase tão pequena! Como pode um sonhador viver sob tamanha pressão? Tudo o que queria era sentir o vento no rosto, ter a liberdade de ir e vir sem se preocupar com engarrafamentos e coisas do gênero! E não me venham dizer que esse é um dos transportes mais individualistas do mundo, porque só cabem duas pessoas no máximo que, exceções à parte, são poucos os carros que levam mais de duas pessoas normalmente, não acreditam? Prestem mais atenção a partir de agora! O certo é que, enfim, comprei a tão sonhada e esperada motocicleta! Mas como nem tudo são flores, aconteceu isso mesmo que vocês estão pensando, a namorada (oh, mulher de palavra, meu Deus!) me largou sem nenhum rodeio, porém não me incomodei muito com isso, porque sei que namoro, casamento e afins são iguais a submarino, podem até boiar, mas foram feitos para afundar! Até que eu gostava da sujeita! Eu não falei que ia entrar água? Pois deixei o namoro afundar, lembrei que ainda sabia nadar! O problema agora era a filha, porque existe ex-namorada, ex-mulher, aliás, tinha um velho professor que sempre dizia: “ex-mulher, você ainda vai ter uma.” Que praga, hein? Mas voltando à motocicleta, não existe ex-filha, mesmo para os pais desnaturados, e filhas idem, rebento é que nem fator RH, não tem como mudar ou deixar de ser seu, ainda que você o renegue! E o meu sonho? No início, era um passaporte, por isso, virou presa fácil daquele motorista cuja direção é OFENSIVA e poderia me atropelar! Na verdade, depois de tantos obstáculos e chegadelas o velho menino fora obrigado a desistir da motocicleta e com isso a antessala da memória se desmoronou juntamente com o sonho do menino velho...