sábado, 15 de setembro de 2007

Comunistas...

Na canção "Mulheres de Atenas", de Chico Buarque e Augusto Boal, há um ultimatum para aqueles que não compactuam com as injustiças, os autores apontam um exemplo de estratégia para sobreviver aos que querem nos fazer aceitar o mundo como ele é, na realidade, uma bela metáfora! "Mirem-se no exemplo daquelas mulheres", é o que eles dizem! Uma analogia possível seria: mirem-se no exemplo de Marx, um burguês, que abriu mão de todas as comodidades que a vida lhe ofereceu para, a partir da dialética materialista, transformar o mundo, ao invés de apenas pensá-lo, neste sentido, alterar o curso da vida daqueles que, diferente dele, não tinham acesso à comodidade nenhuma!
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Nascida por volta do século dezenove, a elaboração de Marx e Engels consegue fazer uma radiografia sem retoques do modo de produção capitalista, uma ruptura epistemológica de dimensões gigantescas! Tendo sofrido as mais variadas privações, convivido com toda espécie de desencanto e, ainda assim, não ter cedido um só milímetro naquilo que acreditava, deve, sim, ser um exemplo a ser seguido! Em seu projeto a humanidade era mais importante do que ter coisas, possuir objetos! Vemos muitos dos que dizem que querem outra possibilidade que não a que vivemos hoje, não ir além das "letras" escritas pelo Alemão. Ele disse, na 11ª tese sobre Feuerbach, que o mundo precisava ser transformado, não fazia um discurso, o discurso estava em sua pele, em seus atos e ações. O que vemos, hoje, são "comunistas" que não têm a fortaleza, para, assim como ele, ir além do texto! Quantos se dizem comunistas e não conseguem materializar sua ações mais corriqueiras, na verdade, são tão reacionários quanto aqueles que criticam de forma tão vociferante. Quantos se dizem comunistas e no fundo de suas consciências são os defensores mais ferrenhos da propriedade privada, quase sem "querer", são partidários da divisão social do trabalho, embora pensem que não!
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Muitos dos que se consideram comunistas não podem ficar apenas nas palavras, para isso, não podem perder de vista que pensar dialeticamente é entender a realidade como contraditória! Precisa-se voltar ao texto para entender o real e estar no real para entender o texto. Questiona-se: e qual é o texto que se torna fundamental neste momento? Muitos dos que se diziam de esquerda, hoje, estão fazendo o discurso em que não se sabe para onde eles apontam, ou seja, são pós-tudo, menos o que dizem que são! Passados mais de 150 anos da sua elaboração, não nos esqueçamos que foi escrito por volta de 1845/1846, é de fundamental importância estudarmos A Ideologia Alemã! Os que se dizem marxistas não podem deixar de estar sempre voltando a este texto. Está tudo lá. Nesta obra, Marx e Engels fazem a primeira exposição do Materialismo Histórico tendo os jovens hegelianos como anteparo para as suas mais finas ironias! Em todas as letras eles dizem: "O modo de produção da vida material determina o caráter geral dos processos da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens o que lhes determina a realidade objetiva, mas, ao contrário, a realidade social é que lhes determina a consciência". Voltemos, pois, ao texto antes de pensarmos que somos mais do que somos, antes de acharmos que já sabemos mais do que pensamos que sabemos, antes de afirmarmos que somos quando, na realidade, não passamos de crianças, pensando que somos revolucionários, mas que, no fundo, no fundo, não passamos de conservadores insignes...

2 comentários:

Thiago Oshiro disse...

Muito bom camarada!
Gostaria de poder copiar seu texto e mostra-lo a uns camaradas que certamente precisam ler este texto, o que me diz?
Gostaria também que me falasse sobre o que acha do "culto" aos comunistas do passado, como Lenin, Trotsky, Stalin e o próprio Marx...
Ainda tenho muito a ler, e gostei muito desse post.
Parabéns.

Manoel Gomes disse...

Camarada Thiago, sinta-se a vontade! Ainda voltaremos a conversar, estou em transito, quando chegar em florianópolis, respondo oomo merece...