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Estranha coincidência, mas esse mês foi brabo! Meus camaradas, aconteceu de tudo um pouquinho e mais um pouquinho! Aqui no Brasil, que a calhorda delegação americana teve a ousada petulância de chamar de Congo, nada contra o Congo, já fomos chamados de Bolívia pelo presidente deles, tomara que isso não nos faça deitar no divã com uma aguda crise de identidade, o presidente foi vaiado "calorosamente" na abertura dos "enganadores" jogos pan-americanos, Bernadinho cortou Ricardinho só por causa de um dinheirinho, a "classe média" na TV reclamando pelo atraso dos vôos, mudou-se o Ministro da Defesa, demitiu-se Waldir Pires (fiquei constrangido com sua saída, nem um murmúrio sequer) o acidente totalmente evitável da TAM, além, é claro, do escândalo Renan/senado que se arrasta para o esquecimento, queiram os orixás e seus exus que não!
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Longe daqui, mas não menos importante, perdemos Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, dois gênios da imagem, olha, não é pouca coisa não! Contudo, apesar de tudo isso, vibramos como desesperados pelas medalhas de ouro do Thiago Pereira, que se fosse "contra" todos, no máximo obteria o bronze e em apenas duas ou três modalidades! Nosso maior medalhista joga "Ping Pong", somos medalha de ouro no pentatlo moderno, ficamos com a prata no hipismo, esporte popular no Brasil. Contamos passo a passo, assessorados, é verdade, pelos Galvões Buenos, o número de medalhas para ver se conseguiríamos ganhar de Cuba, já que do Canadá foi barbada! Quase que vencemos, não deu, mas se fosse, o que seria o justo, diriam as Hortências da vida, contar pelo total ficaríamos à frente de Cuba, com certeza! Todos esses acontecimentos que julho nos "presenteou" e livre, espero eu, do trauma pós-avch, traz-me à memória a poesia mais que brasileira do poeta Russo e sua Perfeição, que mais parece um roteiro de cinema, pela profusão de imagens:
Vamos celebrar a estupidez humana,
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e seqüestros
Nosso castelo de cartas marcadas,
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera -
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição