domingo, 15 de julho de 2007

Elza Soares: gigante pela própria natureza!

Quando criança, havia uma expressão que àquela época não entendia o quão perversa era, além de não compreender o sentido preconceituoso, mas a repetia como um papagaio; tinha uma conotação machista, embora quem a pronunciava com frequência eram as mulheres que estavam ao meu redor! acontecia sempre na hora do almoço, quando o prato principal era galinha, dizia-se sempre: "vamos comer Elza Soares!" Era uma maldade que trazia em si um preconceito, e como todo preconceito, abominável! A causa dessa deformidade estava vinculada ao grande amor vivido por essa mulher com Garrincha, o grande craque do Botafogo. Muitas mulheres odiavam-na por ser ela uma "destruidora" de lares, era assim que a nomeavam! Ora, ela fez um pai "sair de casa e abandonar os filhos para viver uma aventura!" Em plena década de 1960, mulher, artista e negra, arriscar-se a viver uma relação extraconjugal era uma barra! Os homens diziam que depois dela, Garrincha já não era mais o mesmo jogador, ou seja, o ataque vinha de todos os lados, mas ela segurou a onda...
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Em grandes eventos esportivos, os jogos olímpicos entre outros, há uma abertura onde o país sede tenta, em grande estilo, contar sua história vinculada, é óbvio, com os jogos. No caso dos Jogos Pan-americanos não foi diferente! A partir das manifestações culturais brasileiras fomos sendo apresentados às peculiaridades dos jogos! Acho essas manifestações de extremo mau gosto, por uma razão bem simples: são muito parecidas umas às outras, uma repetição ad aeternum! Há uma pirotecnia que, em cada lugar ou país, tenta mostrar beleza e brilhantismo, mais isso, mais aquilo, ou seja, mais do mesmo! Contudo, na abertura dos Jogos Pan-americanos, algo belíssimo aconteceu. A primeira imagem a aparecer, cantando o hino nacional, vestida de amarelo, brilhando com seu canto, aos setenta anos, nada mais, nada menos que ela: Elza Soares! O cantar dessa jovem "Senhora" fez comigo algo que só acontecia quando era criança/adolescente e não entendia que o simbolismo dos signos nacionais sempre esteve carregado de um patriotismo tosco, grosseiro, sendo imposto de cima para baixo aos incautos, ainda que reconheça o quão é bela a letra do hino nacional brasileiro; Elza Soares me fez chorar com sua interpretação, sua entonação, sua grandeza e suas lágrimas, foi perfeita a sua aparição, e ainda me provoca arrepios apenas com a lembrança. Elza Soares, agradeço, "às margens plácidas, deitado eternamente em berço esplêndido", pelo canto lindo, sensível e generoso que nos presenteou naquela noite magnífica!

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