
Quando Marx, lá no século XIX, afirmou que a religião era o ópio do povo, sequer imaginava que algo muito parecido com ela, por sinal originado também naquele século, o esporte moderno, trazia no seu bojo características muito parecidas com um credo! A forma de organização e estrutura desse fenômeno hoje nos leva a pensar no que falou o grande filósofo, sem perder de vista que a analogia é paupérrima, esperamos que Marx nos "perdoe" pela blasfêmia! Pode-se dizer que o esporte é o ópio do povo, com um poder catalisador que assusta, provocando uma alienação brutal, para essa percepção, basta um simples olhar nos estádios, vilas e outros rincões e teremos uma idéia geral da sua capacidade em nos transformar em bestas humanas, como faziam os romanos! Então, oremos, irmãos!.
Tendo essa metáfora como referência, há um fato curioso, neste julho de 2007, entre nós, estamos recebendo uma carga de espetáculos esportivos que se assemelha muito com a maneira como a notícia é transmitida, como ela é trabalhada: um volume, uma quantidade absurda, contudo sequer temos tempo de pensar a respeito; por ser um número avassalador, ficamos apenas no âmbito da informação, jamais se poderá dizer que estamos falando de conhecimento, no caso da notícia e em se tratando do esporte, é pura alienação! A título de exemplo, temos: o início dos jogos Pan-americanos, a final da Copa América, a Liga Mundial de Voleibol e, concomitante a tudo isso, o Campeonato Brasileiro de Futebol, séries A, B e C! Tanta coisa para se assistir que não sabemos ao certo qual escolher, o importante é estarmos envolvidos, assistir ao máximo possível tudo que nos é oferecido neste banquete onde corremos o risco de nos empanturrarmos com tanta fartura, afinal beatos é o que somos!
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Há uma coisa que torna todos esses eventos semelhantes entre si, existe um fio condutor que faz com que as pessoas se "irmanem", fazendo-as acreditar neste deus! Torcer é a oração dessa religião! A torcida alimenta a ilusão do crente de que é tão vencedor quanto os atletas que disputam as mais diversas modalidades esportivas! Há uma fé inabalável no esporte, em tudo o que ele representa, neste sentido, possui a força da religião que nada mais faz que domesticar as pessoas, prometendo-lhes o metafísico; tem que acreditar, a fé remove todos os adversários! Além da fé, para alguns, o esporte se transforma em elemento de ascensão social, independentemente de qualquer formação filosófico-político-cultural, esporte é educação, mas não é preciso estudar!
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Vimos na abertura dos Jogos Pan-americano, no Rio Janeiro, o quanto essa religião moderna é capaz! Para quem está acostumado a fazer o espetáculo do carnaval, a beleza do espetáculo não traz nada de novo, o interessante é que até nisso há uma semelhança! O desfile das escolas de samba parece surreal, temos a impressão que a riqueza desce do morro, caindo belamente no asfalto, escondendo a miséria que envolve as comunidades que trabalham o ano inteiro para que a festa aconteça! O Pan é surrealismo puro, vemos luxo e riqueza em meio a uma cidade dividida! Foi possível "abafar" a manifestação que muitos cariocas fizeram negando o espetáculo circense, pegando o símbolo do Pan, o Cauê, fazendo uma paródia mostrando o Cauhô, que na gíria carioca significa mentira, mas não foi possível evitar que, em meio a tanto brilho, um dos colaboradores financeiros, o presidente da república, fosse copiosamente vaiado todas as vezes que seu nome foi citado ou quando apareceu no telão; ironicamente, diz-se que a voz do povo é a voz de Deus! Contudo os fiéis adoradores do esporte aplaudiram Carlos Arthur Nuzman acintosamente, mostrando o quão é contraditória a relação do crente com seu objeto de adoração! Ambos, Lula e Nuzman, estão muito mais preocupados com o credo religioso da competição do que com a outra banda da cidade, envolta em sombras, miséria e violência para que o "deus" Pan possa servir como cartão de visitas para que mostremos ao mundo que somos capazes de organizar as Olímpiadas, até lá, oremos, irmãos...
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