terça-feira, 17 de junho de 2008

Identidade...

Há coisas que costumam acontecer que nem sempre as respostas podem ser encontradas na lógica nossa de cada dia. Por estranha ironia, foi-nos sugerida a leitura do livro Identidade, de Zygmunt Bauman, ao tempo em que está acontecendo a UEFA EURO 2008, na Áustria e Suíça. Embora muitos digam que é um torneio em que o Brasil não participa, temos nada mais que 6 "ex-brasileiros" jogando em diferentes países! Na verdade, como estamos falando de uma nova categoria de indivíduos, são os "ex", a pergunta que pode ser feita é: qual o lugar desses sujeitos no espaço social? No caso do "ex" carioca Kuranyi, por exemplo, jamais em tempo algum, será reconhecido como alemão! Os brasileiros vão dizer que ele é naturalizado, mas não fazemos a menor idéia como os alemães o nomearão! O certo é que ele não mais será de cá, mas também não será de lá! Será que podemos dizer que essas novas "identidades" que vêm se proliferando traz no seu bojo uma nova categoria de pessoas, de indivíduos? Cidadãos que "emprestam" seus corpos para ter um passaporte, ganhar uma "identidade" e, a partir de então, entrar para esse circo de "miquinhos" amestrados!
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Bauman afirma, no livro citado, que saíra da Polônia em razão da sua ascendência judia e pelas condições políticas que naquele momento seu país vivia. Fora excluído, privado de sua identidade, impedido de lecionar em seu próprio país, contudo fora acolhido pela Grã- Bretanha onde pôde trabalhar, sem os riscos que corria em sua pátria. Em razão disso, algum tempo depois, naturalizou-se britânico, todavia nunca se sentira inglês. Era um estrangeiro, sempre se considerara polonês! Ao ser homenageado pela Universidade de Praga, com o título de doutor honoris causa, viu-se imerso num dilema. A instituição tem por hábito tocar o hino do país de origem do homenageado. Perguntaram-lhe, então, qual o hino deveria ser executado: Polonês ou Inglês? A decisão "salomônica" encontrada foi tocar o hino da Europa, já que europeu ele jamais deixara de ser. Não era um passaporte que definia quem pertencia a este espaço territorial. Mas essa tentativa de "inclusão" de identidade, paradoxalmente, era excludente, já que "tirava de pauta uma identidade definida em termos de nacionalidade - tipo de identidade que me foi negada e tornado inacessível".
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Esse exemplo emblemático, serve para tentarmos entender as novas identidades, conquistadas por aqueles sujeitos que hoje podem ser chamados de "ex" brasileiros! O segundo deles, chama-se Marcos Senna, nasceu carioca, porém, por questões "ideológicas", se tornou "espanhol" em 2006, muito provavelmente porque tem uma "identificação" imensa com a Espanha. Não temos nenhuma dúvida que essa "identificação" deve fazer seu coração palpitar ao ouvir o hino nacional do seu novo lugar! Outro "ex" brasileiro é Roger Guerreiro, o "polonês", que nasceu paulista, em São Caetano; Embora não fale quase coisa nenhuma de sua nova língua identitária, ao ter sua cidadania polonesa reconhecida, exclamou cheio de orgulho: "estou muito feliz porque já esperava há muito tempo obter a cidadania polaca. Começava a ficar nervoso. Agora que a obtive, prometo representar a Polônia o melhor que puder dentro dos gramados e em qualquer outra situação." O meia Deco (Anderson Luís de Souza) é outro que compõe essa legião estrangeira, um dos "homens fortes" do técnico Luís Felipe Scolari, autor intelectual da sua naturalização. Antes de se tornar "lusitano", era de São Bernardo do Campo,SP. Contudo foi revelado pelo Corinthians de Alagoas, daí se transferindo para o futebol português. O penúltimo dos "ex-cidadãos" brasileiros é Mehmet Aurélio (Marco Aurélio Brito dos Prazeres). Ele é o primeiro jogador não nascido na Turquia a integrar a seleção daquele país. Naturalizou-se em 2006 e no mesmo ano estreou na seleção turca. Em 2007 foi eleito melhor jogador da equipe!
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Chegamos, enfim, ao último a compor a lista dos cidadãos de identidade "vendida"! Pepe (Képler Laveran Lima Ferreira) nasceu em Maceió, Alagoas, há 25 anos. Estreou na seleção portuguesa em 22 de novembro de 2007. É chamado na Espanha: "el central de los 30 millones", por ter sido o jogador mais caro dos últimos tempos. Talvez seja, de todos os cidadãos "sem identidade", aquele que causou maior constrangimento ao dizer que aqui é um lugar bonito, mas a violência no Brasil, não o deixa pensar sequer em passar as férias por estas plagas! De forma incisiva, afirmou que prefere ficar em Portugal, pois não quer expor sua família à violência generalizada a que estão expostos aqueles que vivem do lado cá! Em 8 anos já fala com sotaque lusitano e ao cantar o hino português demonstra sentimento, percebe-se uma vontade arrogante de incorporar o espírito português! Não sente qualquer emoção com as coisas do lado de cá do Atlântico. Por suas palavras, deduz-se que já se sente como um verdadeiro cidadão português! Um "conterrâneo" dele, disse: "antes de mais devo dizer que eu não gosto do Pepe. Mete-me nojo. Se eu fosse jogador da bola, o Pepe era daqueles jogadores que eu tinha vontade de lhe partir uma perna." Desprezado pelos filhos da terra (alguns chegaram a dizer que não vibraram com o gol feito por ele) que lhe nega a identidade, despreza a identidade brasileira. Entretanto não terá, em momento algum, a identidade portuguesa! O que causa maior tristeza na entrevista de Pepe é perceber que caso não tivesse nenhuma habilidade motora, comporia a legião dos pobres e miseráveis que circulam pelas ruas e avenidas, trabalhando ou em busca de emprego, que diferente dele, é obrigada a ficar no Brasil e enfrentar a violência que ele (ex-nordestino), por ser um "lusitano" da gema, não quer nem para si, nem para os seus!...

3 comentários:

wager matias disse...

Poxa prof. também estou lendo um dos livros do Bauman. Mais um p/ as conversas de Julho. Abraço

Manoel Gomes disse...

Pelo visto, vamos precisar de tempo para colocar as nossas conversar em dia,rs, cercados que estamos pelos BB da academia: Bauman, Bourdieu e Boaventura!! Até...

Manuela Cássia disse...

Relendo este post, remeti a final da Eurocopa 2008. Nela, o narrador da rede que detinha os direitos de exibição, falava incansavelmente que haviam ao menos 2 brasileiros na final. Um era Marcos Sena, e o outro, Kuranyi. Os dois, naturalizados e defendendo as cores de outras pátrias. Concordo quando é dito que nunca, jamais em tempo algum serão reconhecidos como nascidos nos respectivos países. Nesse caso, espanha e Alemanha. O narrador, falava inclusive em ter um brasileiro snedo o melhor jogador da Euro como se fosse algo incrível, de uma representatividade tamanha. Ora, se eles escolheram de bandear para outras praças, porque os legitimar enquanto brasileiros que não querem mais ser???? Que optaram por adquirir outra nacionalidade? Em tempos de safra ruim, como dizem alguns, é preciso recorrer aos jogadores "brasileiros" de outras praças...