sábado, 19 de abril de 2008

Comoção...

Na minha infância, lá pelos idos dos anos de 1960, um filho, chamado Marcelo Souto Maia, na Bahia, exterminou sua família e, para surpresa de muitos, não demonstrou nenhum remorso! O sujeito matou pai e mãe em uma época que a tal da violência não estava tão "midiática"! Imaginem aí no século passado, como as pessoas reagiram à tamanha hediondez? "Um monstro, matar a própria mãe?!" Havia um elemento nesta história que aumentava mais ainda a comoção popular. A família Souto Maia era milionária, logo, o fator de motivação, para o assassinato, era econômico. A hipótese era uma possível perda da herança! Um prato cheio para que o detetive/policial que existe em cada um de nós assumisse seu papel e saísse à cata de "provas"! Uma coisa diferenciava dos nossos "tempos modernos", a mídia ainda engatinhava e não possuia, ainda, a capacidade de "glamurizar" as tragédias nossas de cada dia!
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Em relação à questão de assassinatos dentro da própria família, tivemos, mais recentemente, o caso da garota Suzana Von Richthofen que organizou, juntamente com o namorado, Daniel Cravinhos, a morte dos pais, chegando a "ver" seus genitores sendo espancados até a morte; conseguiu construir um alíbi que a protegia, mas que foi desmascarado posteriormente; vimos que não só era cúmplice como também mentora do assassínio. Neste caso, a mídia já era uma "senhora austera", capaz de tornar o acontecimento numa verdadeira história cinematográfica! Comoção Nacional, as pessoas foram "estimuladas" ao desejo de vingança, tal como hoje, gritaram palavras como "assassina, assassina"! O que não lembramos é se as "luzes" demoraram tanto tempo iluminando a cena do crime como no "caso da menina Isabella"!
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Sem querer "partidarizar" ou apontar o dedo ou defender quem quer que seja, ações como essas devem ser rechaçadas com veemência; o certo é que nós humanos somos capazes das ações mais atrozes. Por causa de um simples pedaço de pão, mata-se uma criança, ou, por mera diversão, atea-se fogo em um índio na capital federal. Está escrito no "livro" que o filho do "primeiro" homem, Caim, assassinou o próprio irmão, Abel, por causa de ciúme! No caso "Isabella", a mídia nos "manipulou" de tal forma que ficamos assistindo a esse drama, a esse perverso circo dos horrores, quando no fundo, tudo levava a crer que os assassinos não poderia ser ninguém menos que a dupla Jatobá/Nardoni! Os meios de comunicação esgarçaram o caso quanto puderam, provocando nas pessoas o sentimento de justiça feita com com as próprias mãos, afinal, a vítima, além de criança e indefesa, era filha do assassino! Vi alguns orgãos de imprensa, de forma hipócrita, perguntando por que as pessoas ficaram na porta da casa dos "réus", a pedir justiça e a cometer excessos; cômico, se não fosse trágico! Neste quase um mês de exposição, em que os índices de audiência beiraram à estratosfera, vimos mais um Big Brother, em que o país "inteiro" clamou por vingança, o tal do "olho por olho, dente por dente"
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Como pai, o arrastar do caso nos causou dois sentimentos. O primeiro de pura estupefação, ainda que tenhamos consciência que, nós, os humanos, somos capazes das coisas mais hediondas, mas ainda assim, estamos atônitos com o ato e a frieza do "ator", não vimos em nenhum momento, em seu semblante, qualquer sinal de dor ou arrependimento! O segundo, relacionado à ansiedade que demonstramos por notícias do caso, havia um verdadeiro "prazer" quando fomos percebendo que as nossas hipóteses tinham algum fundamento. A criança morta ao aparecer com seu sorriso nas diversas telas de TV, era apenas para avivar nossos "corações e mentes", mas aquelas imagens eram "tangenciais", o que queríamos, mesmo, era descobrir como os "pais" assassinos reagiam, sentiam a morte da menina! É, somos capazes de tudo, de tudo mesmo para nos SAFAR! Há no ar um sentimento de revolta por saber que somos sádicos, temos um prazer mórbido de massacrar quem, geralmente, não tem como se defender, haja vista, o que Hitler fez com as crianças judias, ou os americanos, e suas bombas atômicas, com as crianças japonesas de Hiroshima e Nagasaqui. Mais recentemente, o que vêm fazendo os EUA com as crianças IRAQUIANAS! O que dizer de Alexandre Nardoni e sua digníssima esposa? É possível dizer mais alguma coisa? Sim, somos seres cruéis e sanguinários, mas o que é mais doloroso perceber é como, subrepticiamente, a mídia, de forma "silenciosa", clama pela lei de TALIÃO, por uma justiça surda! Não obstante, vamos nos matar mutuamente que ela sabe, MUITO BEM, como transformar a nossa torpeza em ESPETÁCULO...

3 comentários:

wager matias disse...

Mais uma bela reflexão! A super exploração dos nossos sentimentos pela mídia( e como você sempre diz, possui pessoas por detrás)contribui para a formação de condutas/comportamentos, mercadoriza o próprio viver e estímula o medo de está em contanto com o outro. Ainda bem que não tenho mais TV em casa,rsrs. Abraço.

Manoel Gomes disse...

Pois é, meu amigo, o que mais angústia é o sentimento de impotência que nos imobiliza. Uma colega daqui de Florianópolis, disse uma coisa interessante: "sem minimizar a atrocidade do fato, mas o que fica bem claro é que quando o crime está situado fora do espaço de ação dos miseráveis a visibilidade é enorme; quantos crimes de crianças pobres sequer são mencionados?

Manuela Cassia Silveira disse...

Sem contar que, com essa super exposição do caso, omite-se os outros tantos problemas que enfretamos cotidianamente e as diferenças com a quais os humanos são tratados.Porvavelmente, se Isabella fosse pobre e tivese caído da janela de um predio na periferia de salvador, com as mesmas circunstãncias, a super exposição não existiria. Pobre não dá manchete! Pobre não dá ibope!