quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Esporte para Deficientes...

Estávamos em uma aula de História Antiga, na universidade, o assunto abordado era as Cidades-Estado gregas, quando uma colega começou a chorar. Fiquei aturdido, o fato é que ninguém entendeu o que estava acontecendo. Quem chorara fora Maysa, uma das estudantes mais "fortes" e experientes entre nós. Senti uma vontade muito grande de perguntar o motivo do choro, mas, meio constrangido, emudeci. Disse, cá comigo, que há coisas que não precisamos saber, não é mesmo? Entretanto, por conta da intensidade das lágrimas, a causa veio à tona um tempo depois e tornou-se pública!
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Sabe-se que em Esparta as pessoas consideradas deficientes, quando nasciam, eram atiradas do alto de um penhasco, não havia espaço para os considerados anormais; Vivia-se no modo de produção escravista. Na realidade, Maysa tinha um filho com deficiência motora e, é óbvio, que se tivesse nascido naquele momento, seria um dos que seriam sacrificados e ela, enquanto mãe, sabia disso e, naquele momento, lhe veio à memória a "política de saneamento" espartana! Você pode dizer que esse é um drama um tanto quanto piegas, afinal, tanto espacial quanto temporalmente há uma distância cavalar, mas mãe quando é mãe o afetivo está sempre à flor da pele!
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Sabemos que o modo de produção que rege as nossas vidas tem no lucro e na exploração sua base de sustentação! Temos alguns discursos enganosos, aqueles que afirmam uma coisa, mas que no fundo, no fundo, querem dizer outra bem diferente. Um exemplo bem nítido disso, vimos nos tais dos jogos pan-americanos para os deficientes, chamados de forma eufemística de parapan, embora não aconteça paralelo ao dos normais. A postura dos atletas deficientes a cada dia fica mais e mais parecida com a dos ditos eficientes! Já tinha notado isso em outras oportunidades, mas percebo que cada vez mais as competições se acirram, chegando ao paroxismo dos outros jogos! Houve "atleta" que competiu com fratura, porque precisava ganhar um número xis de medalhas, para engradecimento da pátria! Infelizmente o inocente útil, Clodoaldo, não ganhou todas as medalhas que tinha previsto, tinha um mexicano no caminho! O uso dessas "aberrações" é tão intensa que os normais deveriam rever todos os seus valores. Como podem pessoas naquelas condições ser capazes de grandes proezas e nós outros ficamos reclamando da sorte, reclamando de "barriga cheia"! Isso é bem característico do modo de exploração!
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Nesta lógica escrota, os defientes produzem, segundo alguns, às vezes, tanto quanto os normais e são bem mais baratinhos. O discurso da inclusão, que tanto professor de Educação Física, de boa fé, acredita e chora com as vitórias dos seus pupilos, é tão falacioso quanto movimento sustentável no modo de produção capitalista! Sabe-se que o que Esparta fazia com os sujeitos incompatíveis com a sua política era extremamente perverso e desumano, mas menos hipócrita que o discurso da inclusão vinculado, hoje, pelo modo de produção capitalista. Em um modo de produção em que a eficiência é apregoada aos quatro cantos do planeta, o discurso ideológico encontrou um eufemismo para falar dos deficientes; não, eles não são ceguinhos, aleijados, deficientes mentais, não! Chamemo-los de pessoas com necessidades especiais! Essa preciosidade, não muda em nada as condições destas pessoas, muito pelo contrário, reforça uma postura hipócrita que sinaliza para uma cínica "igualdade" que só existe na cabeça dos ingênuos!
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O mundo é pensado para e pelos normais, as concessões são meras condescendências! Tivemos o caso do atleta deficiente argentino, Carlos Raul Maslup, que ganhou o bronze no tênis de mesa. Sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) um dia antes do fim dos jogos e teve dificuldade de encontrar hospital para um atendimento rápido e eficiente. Teve morte cerebral confirmada nesta quarta-feira, 22/08/2007. Como se sabe, o tempo é fator determinante no tratamento do AVC! Uma entidade de para-atletas alegou que, em relação à saúde, o tratamento oferecido aos deficientes foi de qualidade inferior! O mais estranho de tudo isso é que o uso das imagens desses "super homens sem-pernas-sem-braços" foi tão ideologicamente indecente, com o objetivo de provocar descaradamente comoção nacional com as suas vitórias, contudo a eles, enquanto símbolo de superação tão apregoada, foi reservado, apenas, um pequeno espaço de pé de página na mídia que os ovacionou durante as competições, para falar do obituário de um dos seus ilustres representantes, um triste fim para uma pessoa com necessidade especial...

Um comentário:

Manuela Cássia disse...

Senti arrepios com a leitura desse texto. Brilhante, se me permite dizer. Já conversamos sobre isso, e se me recordo bem, foi nas para-olimpiadas de Atenas, quando eu lhe disse que estava assistindo. Sem dúvida, a mídia é a mais interessada nessa lógica. Fica tudo lindo! E o melhor de tudo, foi que os atletas com necessidades especiais ainda ganharam mais medalhas que os normais, e ficaram na frente dos EUA. Olha que beleza?????? Era tudo que a globo queria. Lembro inclusive que um canal (UM) ficou a disposição do parapan.
É tudo tão hipócrito, tão podre.