sexta-feira, 25 de maio de 2007

O "sotaque" carioca...

Um dos meus sonhos de menino era conhecer a cidade do Rio de Janeiro. Não sei se pela "semelhança" com Salvador ou se pelo fascínio que o mar da cidade exerce sobre as pessoas. Negar ninguém vai que o mar é emblemático nas duas cidades! Na realidade, o brilho dessas capitais, a luz que emanam têm nas águas seu sortilégio! Parafraseando Shakespeare, diria que há mais belezas entre o céu e a terra cariocas do que supõe a nossa vã filosofia! Foi minha filha, quando me visitou em fevereiro, que revigorou essas reminiscências ao dizer: "Pai, em junho, você tem duas opções para suas 'férias': ou vamos conhecer o Rio de Janeiro ou, como de costume, venho para o São João de Jequié". Não sei o porquê, mas escolhi a primeira opção!
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A proximidade da viagem tem me feito prestar mais atenção aos fatos que gravitam em torno da cidade. Tento "entender" a lógica e o "sotaque" cariocas. O que vemos na mídia, diariamente, desestimula qualquer viajante! Bala perdida, estilhaços, carros arrastados e ônibus queimados são imagens assustadoras! A "guerra civil" instaurada tem possibilidade de terminar ou o caos em que o Estado se encontra já não sinaliza qualquer chance de convivência para além da bárbarie? Grande parte dos responsáveis pela segurança da cidade demonstra certa fanfarronice nas suas declarações que, num primeiro olhar, parece que agudiza o confronto muito mais do que aponta qualquer alternativa de resolvê-lo.
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Sistematicamente, o governador Sérgio Cabral Filho, um dos fanfarrões, aponta saídas que demonstram que a guerra travada entre a força repressiva do Estado e os traficantes parece não ter fim. Quando da tragédia do garoto João Hélio, em fevereiro, e porque o ato tinha sido praticado por um menor, fez um discurso veemente, sugerindo, inclusive, que, como nos EUA, cada Estado tivesse sua própria legislação penal, que fosse reduzida de 18 para 16 anos a culpabilidade por crimes cometidos, quiçá a pena de morte, como se isso resolvesse a situação. Sob as luzes das câmeras televisivas, acordou uma ação conjunta de combate ao crime, ao tráfico de drogas e ao contrabando de armas com os governadores de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Quando da morte do policial militar que fazia sua segurança pessoal, manifestou a necessidade da presença das Forças Armadas e a participação mais efetiva da Força de Segurança Nacional!
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Quando assumiu, o governador prometia envidar esforços no sentido de atacar a questão da violência, do narcotráfico, do crime organizado de forma incisiva. Por ser aliado do governo federal, obteve o auxílio da Força de Segurança Nacional para ajudar a resolver o caso da segurança pública, neste sentido, para não repetir o que fizera sua antecessora que recusou repetidamente a colaboração, por questões outras que agora não vêm ao caso. O secretário de segurança pública, José Mariano Beltrame, ao argumentar sobre as ações de violência que ocorrem na cidade afirmou que "a configuração geográfica facilita esses núcleos de violência se instalarem. Se fosse uma cidade como Brasília, isso não aconteceria". No que diz respeito à questão das forças armadas fazendo o patrulhamento da cidade disse que "as Forças Armadas não são a solução para o problema da violência no Rio," contudo: "qualquer ajuda neste momento vai nos ajudar no curto prazo." O secretário afirma que para resolver o problema são necessárias medidas estruturais e valorização da polícia do Estado. Essas declarações nos provocam algumas questões. Se o Rio fosse Brasília o problema da segurança seria resolvido? As tais medidas estruturais se resumem a quê? Como valorizar a polícia do Rio de Janeiro, a questão é econômica, social...? Será que a situação do Rio de Janeiro é caso de polícia, de força de segurança, das forças armadas? Os seus muitos fanfarrões ainda não perceberam que de armas e munições o Estado já está cheio?
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Se a realidade carioca é tão nua, crua e perversa assim, ficamos imaginando se ainda é possível viver o sonho de menino, sob essa perspectiva de medo e temor extremos se interpondo entre os sonhos mais comezinhos. Shakespeare diz que: Por aqui não há nem bosques, nem arbustos, para a gente se resguardar do tempo, e já se anuncia nova tempestade... dizem que a força do hábito nos faz aceitar situações inimagináveis, o incomum passa a ser normal, vamos nos acomodando e aceitamos experiências das mais cruéis como normais por conta da nossa insensibilidade. A escravidão não foi uma elaboração metafísica, foram homens de carne osso que exterminaram outros tantos! Há uma poeta que escreveu, numa bela homenagem ao povo do Rio: ...cariocas nascem bambas, cariocas nascem craques, cariocas têm sotaque...O que Adriana Calcanhotto afirma na canção parece fazer parte de um Rio de Janeiro antigo, distante e inatingível. Os antigos cariocas eram alegres, atentos, dourados e espertos, enquanto os cariocas novos estão vivendo dias nublados, embora cariocas não gostem de dias assim...

Um comentário:

Manuela Cassia Silveira disse...

Lindo texto. extremamente reflexivo. Você conseguiu explicar coisas que a maioria da população carioca sente e que nós, que estamos longe, só ficamos sabendo o que a tv "quer" nos dizer. E pai, a música de Adriana Calcanhoto caiu como uma luva...