domingo, 6 de setembro de 2015

As aparências enganam...

Qual é o tamanho do seu preconceito? Você consegue afirmar categoricamente que não padece desse "desvio" moral? Analisando-se agora é bem provável que esteja dizendo: "não, não padeço dessa inumanidade, tenho até vários amigos entre os que discutem as questões de gênero! Ora, quem em sã consciência vai assumir que é preconceituoso, ainda que o discurso esteja encharcado dele? Ficamos na superfície, no aparente e nos apressamos em soltar um: "não, eu não sou preconceituoso, basta observar as minhas atitudes, a forma como eu trato as mulheres, mesmo aquelas desprovidas de beleza!" Lembrei-me agora de um dos muitos dias vividos no período da graduação, na "velha" e querida UFBA; estando numa roda de amigos, uma querida muito simpática, ao ver minha tatoo estampada no braço, vociferou: "eu não faria de modo algum uma tatuagem! Não deixaria meu corpo marcado com algo tão..." não conseguiu concluir o que seria o "algo tão"! 
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Sinceramente, não percebi nenhum desdém em sua voz, quiçá um certo despeito pela minha "ousadia", eu era calouro! Perguntei-lhe se era preconceituosa, sem pestanejar respondeu: "claro que não!" Minha compreensão, naquele momento, era que esse "marcar" nada mais era que sujar sua pele. "Sem contar o risco que você corre." De forma sarcástica lhe perguntei: "esse 'você' sou eu ou você?" "Estou me referindo a você, não que seja preconceituosa, como já disse antes, porém se imagine numa rua deserta vindo alguém, em sua direção, além de ser negra, com uma tatuagem, você não ficaria com receio de passar por perto? Acho que atitudes como a sua só reforçam o estereótipo, entende?"

Pelo que entendi, ser preto e tatuado era algo inconcebível, agindo assim não ajudava em nada a "causa" dos negros, deveria extirpar a tatoo e, quem sabe, tornar-me um pouco menos preto, assim não correria nenhum risco de ser confundido numa rua deserta!? Fiquei me perguntando quantos de nós pensam de forma exatamente igual a essa figura, mas que negam em alto e bom som que não têm qualquer tipo de preconceito? Inclua aí aqueles que dizem que não faz qualquer tipo de discriminação, tanto assim que têm amigos gays, gordos, baixos, feios, pretos!?
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Essas questões me vieram de forma inocente, na verdade, caminhava meio disperso pela rua, indo fazer mais uma sessão de minha "maori" quando, de repente, uma "amiga" me saudou de forma calorosa: "como vai, corredor?" Aliás, às vezes, passo pelas pessoas frente a frente e não as vejo, razão pela qual, muitas me adjetivam de marrento, tirado ou outros qualificativos menos nobres, não finjo que não as vejo, mas ninguém acredita. Bem, é preciso dizer que há ocasiões que finjo mesmo! Voltando a amiga corredora, a inesperada saudação me assustou um pouco, mesmo porque depois de mais de um mês sem correr já não sabia se aquele substantivo/adjetivo me pertencia! Ela me perguntou por que nunca mais tinha me visto correndo. Expliquei a razão que me afastara das ruas por mais de um mês. Mostrou certo pesar sincero pelo meu sofrimento; estar sem correr é insuportável, ainda que esteja suportando a duras penas a privação dessa droga. Jurara que tudo ia dar certo e que muito em breve estaria de novo correndo, oxalá, disse eu, como diriam os gregos!

Quando foi embora, fiquei pensando como as aparências nos enganam; no meio da conversa, na tentativa de levantar minha autoestima, ela dissera que era visível que deixara de fazer minha corrida diária, notava-se que estava "um pouquinho mais gordo!" Que coisa interessante, não? Ainda que seja lugar comum as pessoas acharem que engordamos ou emagrecemos quando ficam algum tempo sem nos ver, porém fazer associação direta com a falta de atividade física é que me chamou mais atenção, isso é típico daqueles que se autodenominam "educadores físicos." Pela fama que a corrida tem no emagrecimento, é óbvio que sua ausência acarreta um aumento na massa corpórea, não é mesmo? Contudo neste período de sedentarismo forçado e aborrecido, por estranha ironia, perdi 3 quilos! É isso mesmo, estou mais magro, mesmo sem estar fazendo qualquer atividade física sistematizada, vejam como algo tão simples traz à tona nossos mais arraigados estereótipos, é assim com os nossos preconceitos, as aparências enganam e muito...  

3 comentários:

Anônimo disse...

Valeu preto tatuado. Adorei o texto. Se o link não tivesse sido mandado por você eu diria que foi um branco que escreveu, afinal, pretos não sabem escrever, diria sua amiga da tatuagem. De seu amigo da Paraíba.

Manoel Gomes disse...

Valeu, PB, não esqueci quando me disse o que me faltava, naquela reunião em Amaralina!!!!

Aline Machado disse...

É cultural. Não sabemos lidar com as diferenças, a não ser hierarquizando. Coisas de do senso comum, de gente superficial... ou seria de todos? Afinal, temos que manter as aparências.