quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O camelô e o cirurgião I...

Percebe-se que camelô já não é um termo tão comum como nos meus tempos de criança pequena, nas ruas de paralelepípedos do bairro da Liberdade, em Salvador. Hoje, vendedor ambulante soa mais "natural", embora no cotidiano perca o substantivo e o adjetivo passa a ser seu nome de guerra! Vivemos tempos em que muitos querem ganhar no "grito" e nada como a figura do trabalhador informal para tornar isso algo concreto! O número de espertos que quer se dar bem cresce em proporção geométrica, estão aí as operações da Polícia Federal que não me deixam mentir, a ideia é ganhar um troco em cima dos trouxas, dos desprevenidos, daqueles que ainda acham que temos salvação!
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Véspera de feriado prolongado, o sujeito não queria comprar nenhuma bugiganga, o único desejo era voltar para casa e, para que isso acontecesse, era necessário atravessar "aquela" passarela carregada de ambulantes por todos os lados. O que não esperava era que um deles o abordasse usando justamente o substantivo/adjetivo que ele utilizava normalmente quando se referia a alguém, seria coincidência ou aquele camelô realmente o conhecia? Professor? Mesmo tendo dirigido o olhar para o chamamento, continuou sua trajetória. O ambulante ao perceber que mesmo utilizando aquele artifício não fora "reconhecido", apelou para um: "eu sou irmão de fulano!" Claro que continuou sem lembrar, mas também não poderia afirmar categoricamente que o sujeito mentia. A pergunta seguinte era uma armadilha, que o velho professor não soube evitar. "Está morando onde agora?" Pronto, o cara deveria conhecê-lo, porque a resposta, seja qual fosse, abria brecha para uma suposta afetividade! Sem que lhe perguntasse afirmou que vendia óculos mostrando uma infinidade deles sobre uma banca! Quando percebeu que não houve qualquer interesse pelo produto anunciado, tirou não se sabe de onde uma latinha de pomada igual às ilustradas na foto acima, embora não tivesse nenhuma noção, começava ali a via crucis do nosso professor!
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Mais que rapidamente, nosso ambulante se transformou em um "doutor" de causar inveja a qualquer um daqueles que fazem parte do Projeto "Mais Médicos" do governo federal! Falava com muita segurança e propriedade sobre o caráter terapêutico do medicamento, inclusive, detalhando quais eram as doenças que a pomada exterminava: brotoeja, eritema, eczema, urticária, verruga, herpes, entre outras! A expressão do seu interlocutor deve ter lhe revelado o grau de desinteresse na compra e/ou utilização do tal medicamento. Mas o cara, igual a todo brasileiro, não desistiu e retirou o último coelho da cartola, seu último cartucho. Dissera que gostava muito do professor e por isso daria de presente a pomada sem nenhum custo! Que contrassenso era aquele? Não existe almoço grátis e promoção em quem tem o lucro como alvo não passa de tapeação, o famoso engana trouxa, diria minha avó! O constrangimento já tinha se instalado há tempos por isso o  velho professor mais que depressa queria sair dali, mas o camelô não permitiu qualquer saída antecipada, imediatamente retirou outra latinha, mais uma vez não deu para perceber de onde e, mais que rapidamente, abandonou o jaleco de dermatologista, incorporando o de urologista no momento seguinte! Agora a pomada servia para ampliar o prazer sexual, seu uso nas horas de lazer possibilitava que se fizesse amor a noite inteira sem parar até a manhã seguinte, e desse "viagra" era fornecedor exclusivo!
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Logo em seguida, colocou as duas latas num envelope e afirmou que era mais um brinde, não precisava pagar absolutamente nada! Não, aquilo não estava acontecendo, era surreal, nosso personagem recebera duas consultas médicas, sem hora marcada, sem filas, sem atraso, sem precisar acordar 4:00 da madrugada para consegui a senha 97, num país em que saúde é sinônimo de descaso. A conversa já beirava o nonsense, e, mais do que nunca, o incauto "paciente" queria deixar aquele consultório a céu aberto e desaparecer! Pensou que bastava receber o envelope das mãos do "médico" e tudo estaria resolvido, acabaria, enfim, o pesadelo! Ledo engano, ainda faltava algo para terminar com aquele circo de horrores. Quando as "amostras grátis" estavam se preparando para mudar de mãos, o paciente ouviu as palavras que programas do tipo "criança esperança", que fazem filantropia com o dinheiro dos outros, costumam atirar na cara da audiência: "dê quanto puder só para me ajudar, embora uma dessas na farmácia custe R$26,00!" Espera aí, não era presente? E a representação exclusiva? O "quanto puder" representava quanto? Já receoso, nosso amigo abriu a carteira e tirou $10,00, porém o médico camelô alertou: "na farmácia Santana só uma custa...!" Na carteira, cujos olhos do ambulante doutor já tinham devassado, só restavam mais $18,00; meio que sem graça entregou mais dez, mas percebeu que o médico não ficara muito satisfeito. Não se sabe a razão de não as ter tomado de volta! Se você que está lendo essas linhas observar as duas latinhas lá em cima na foto introdutória, vai verificar que são idênticas em tudo, infelizmente, você não pode perceber o aroma, mas posso lhe adiantar que são inodoras!  Foi um assalto? O velho professor foi descaradamente roubado? Deveria chamar um policial e dizer que foi coagido e exigir ressarcimento e prisão do "médico"? O que você recomendaria?... 

8 comentários:

Lusimary disse...

Delicioso ler um texto assim, uma situação tão corriqueira, que pode acontecer com qualquer pessoa, em qualquer lugar no mundo, retratada com tamanho requinte. Parabéns, professor! Fico muito feliz de te ler

Lusimary . disse...

Quanto ao questionamento final, o velho professor deveria usar de uma técnica curitibana: não falar com estranhos! Kkkkkkkk... A partir do momento que parou e deu atenção, ficou à mercê da lábia e, sendo uma pessoa educada, não soube dizer "não ". Ficou uma curiosidade... espero que me seja sanada num futuro próximo. ..

Manoel Gomes disse...

Gouvêa, Todas as dúvidas serão sanadas num futuro bem próximo, como deve ter percebido, esse é o número 1, o dois será postado semana que vem, aí voltamos a conversar...por enquanto, vamos esperar aquele pessoal de um certo grupo do whatszap se manifestar, pelo que sei, não são mudos, rsrsrs

Aline Machado disse...

Um assalto mascarado que o professor poderia ter evitado se não ficasse constrangido em dizer não, afinal ninguém faz ou dá nada de graça, não é mesmo? Também fiquei curiosa com algumas coisas... rsrs

Manoel Gomes disse...

Aline, fique tranquila, as coisas curiosas serão desveladas, rsrs

Manuela Cássia disse...

Adorei a tática Curitibana, só esqueceu que estamos falando de baianos!!! Kkkkkkkkkkkkkkkkk

Lusimary . disse...

Demora muito para saber se sim ou não, professor doutor Manoel Gomes? KKKKKKK
Usou o medicamento milagroso? Ou melhor, os dois medicamentos? O "receitado" pelo dermatologista e, principalmente, o do urologista? Kkkkkkkk

Manoel Gomes disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
minha querida, talvez também seja essa a pergunta que Alinne queria fazer, observe os potes, são idênticos em tudo, como disse são inodoros, imaginemos, pode fazer isso, que estivesse "esperando por um milagre", perdão pelo trocadilho, não seria muito mais "seguro" recorrer a azulzinha do que correr o risco de nem poder esperar mais pelo milagre?kkkkk Saiba que pela "convicção" do nosso vendedor, nem ele mesmo acredita em tal proeza, mas o grande mal do sabido é pensar que todo mundo é besta...