quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O plantador de repolhos...


Acreditava que as pessoas nascem com um papel a representar, por isso, aceitava a vida assim como ela era, não se irava com a propriedade paupérrima que herdara, não era um sujeito revoltado, resignação era o seu nome, razão pela qual não soava estranho sua música predileta ser aquela de Tim Maia, cujo título era azul da cor do mar. Tinha por hábito cantarolar essa canção todas as vezes que a tristeza se fazia companheira; para ele “na vida a gente tem que entender que um nasce para sofrer enquanto o outro ri”, eram versos mágicos. Por ser um sujeito que cria, achava que ser assim fora uma escolha de forças maiores que as suas, por isso, vivia sua rotina sem sofrer ou praguejar. Filho de pais (quase) analfabetos, nascido no nordeste brasileiro, diríamos que era branco, embora sabendo quais foram os colonizadores e que a escravidão é parte da nossa pele, não poderia afirmar com convicção! Por ironia do destino, (ou seria da História?) se alfabetizara ainda em tenra idade, numa escola de pau a pique, da cidadezinha onde morava, mas, mesmo conseguindo ler as palavras do mundo, achava que seu lugar era ali, no mesmo lugar onde seus pais nasceram e, por certo, morreriam, e, como bom filho, repetiria o ciclo sem grandes remorsos. O destino lhe impusera uma determinação, sabia que era "filho de peixe". Contudo, inopinadamente, fizera vestibular por "esporte" e fora aprovado entre os primeiros, diríamos, surpreendentemente; a vitória do nosso plantador de repolhos se torna mais contundente porque não precisou entrar na universidade via Sisu, cotas sociais ou quaisquer outras dessas "muletas" que o Estado implantou para fazer a tal da "reparação". Entrar no ensino superior tirara dele o adjetivo de agricultor, tornara-se acadêmico, e justamente quando tudo conspirava contra ele. O curso torna-se desnecessário dizer, seja qual for, representou um salto enorme para um filho de camponeses analfabetos! Provara por A+B que com muito esforço, dedicação e responsabilidade, qualquer um pode ser o que quiser sob o capitalismo. O plantador de repolhos terminou a graduação no tempo previsto, fez mestrado sem precisar de dilatamento de prazo, foi um estudante brilhante no doutorado e agora está fazendo o pós-doc em Londres. Certa manhã, sentado confortavelmente na poltrona da sala do seu grande apartamento, cuja vista lhe permite ver a Trafalgar Square, pensando sobre sua vida, milhões de dúvidas o perseguem, porém seus olhos se iluminam com uma certeza que o faz quase gritar: "agora posso afirmar que sou um ex-plantador de repolhos", para logo em seguida entrar em silêncio profundo, quebrado apenas por passos longínquos de algum transeunte desavisado. Vai à janela, observa o formigueiro lá embaixo e se faz a incomoda pergunta: "qual é mesmo a moral da minha história”...

2 comentários:

Profª Amanda Leite Novaes disse...

A moral da história talvez seja trazer à tona que ser um ex-plantador de repolho não tenha mudado muita coisa no mundo, infelizmente. Seria necessário muito mais!

Estava com saudades de visitar seu blog. Aproveitei e me atualizei nos textos... Obrigada pela oportunidade! Aquele forte abraço!

Manoel Gomes disse...

Muito bom, espero que venhas muitas outras vezes, embora saiba das suas muitas atribuições, minha querida Amanda!