terça-feira, 11 de outubro de 2011

Considerações sobre o Bullying...

Acho que chegou o momento de não mais aceitar os atos de bullying a que venho sendo submetido desde criança. Basta! Já durou o suficiente e os responsáveis devem pagar, e caro, por esses longos anos de sofrimento, saibam que sairei à caça daqueles que um dia me ofenderam. Essas ações foram emblemáticas para que me transformasse naquilo que sou hoje: um sujeito recalcado, tímido, antissocial, violento e, acima de tudo, rancoroso! As desculpas, agora, já não me importam, colocarei em prática os ensinamentos do velho testamento: comigo será, olho por olho, dente por dente. Pensando bem, e para evitar ter que explicar as razões de não ter procurado ajuda ao longo de todo esse tempo, vou me suicidar assim que concluir meu plano de vingança!
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Para mim o bullying começou muito cedo, entre os 3, 4 anos quando ganhei minha primeira e nada lisonjeira alcunha. Aliás, são poucas as que não são depreciativas. Como não conseguia levantar da cama e chegar até o banheiro, fazia xixi ali mesmo, logo fui chamado de mijão. O fato é que essa "incontinência urinária" me obrigou a ter que vestir uma espécie de macacão/jardineira marron todas as noites antes de dormir. Eu juro que não fazia porque queria, até que tentava evitar, o problema é que sonhava que estava no lugar certo, porém logo percebia que não quando sentia o líquido quente inundando minha roupa de prisão! Era terrível, já sabia que logo pela manhã seria execrado por aquele ato, frente aos outros irmãos, que sorriam da minha infelicidade, ah, como desejei matar minha mãe e irmãos por tudo aquilo! Superada essa fase, pensei que estaria livre do bullying, que nada, a tormenta mal começara, embora não soubesse. O segundo momento de exposição ao bullying veio quando chegou a hora de aprender a dar o nó/laço nos sapatos, meu Deus, como aquilo parecia difícil. Achava que jamais conseguiria transformar os cadarços em um nó/laço, e olha que o movimento era repetido à exaustão, mas quem disse que era possível que eu fizesse aquilo? Sem titubear, logo me arranjaram um novo apelido muito rapidamente: "Ele é muito burrinho nunca vai aprender!" Se eu pudesse, eu matava quem ousava colocar aqueles apodos em mim, mas era muito pequeno e fraco, quem sabe quando crescesse, um revólver não resolveria o problema?!
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Quando cheguei à escola, lá estava a professora dos meus "sonhos"! A famosa dona Semira, mestra que cometia as maiores atrocidades (assessorada por sua filha dona Raimunda, que era meio vesga), em nome da Educação, desde a já extinta palmatória, até colocar os estudantes de joelhos sobre grãos de milho, o aprender ali não era nada fácil. Sem falar no mais temido dos dias, já que tinha o dia de tudo, o dia da tabuada e a sua famosa sabatina! Na verdade, o objetivo nunca foi aprender e sim tomar o menor número possível de "bolos", porque não tomar nenhum era impossível, mesmo decorando, como não esquecer diante de tamanha pressão?! Havia um cheiro, que sinto até hoje, indicativo de que faltava pouco para chegar à escola. Quando estava próximo à padaria e seu cheiro forte de café torrado, meu coração disparava, pressentia que o momento dos horrores estava prestes a começar, como gostaria de voltar para casa, desejava tudo naqueles anos, menos estudar! Mudei de escola, todavia a situação mudou muito pouco, já não havia a palmatória. Fui presenteado com  mais uma professora marcante. Seu nome? Dona Zelândia. O bullying dessa aí quase fulminou um moleque de apenas sete anos. A infeliz, em uma prova de ciências, pediu o nome de três insetos, fiquei a manhã inteira e o único inseto que me lembrei foi a barata. Cansada por ver o aluno sucumbir à prova, lançou no ar a frase que não poderia ser dita a nenhuma criança: "esse menino não vai a lugar algum, é burro demais!" Pois é, a forma de ensinar não mudara a única coisa que mudou foi a desinência da alcunha, seu diminutivo desaparecera! Outrossim havia adultos que diziam, quando me viam brincando com outras crianças, às vezes, seus filhos: "puxa, como esse menino fala alto!" Oh, como eu queria morrer ao ouvir isso, tentava falar baixo para não ter que passar por esse constrangimento! Lembro-me de Dona Nicinha, que não era era professora, e sim a mãe de outra criança, dizendo: "você não sabe falar mais baixo, menino?!" Vieram outras alcunhas: cambota, pernas de alicate, cangalha, pernas de caubói, entre outras! Fui suportando a tudo e acumulando meu ódio por aqueles que me massacravam! 
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Na universidade, o falar alto ajudava e atrapalhava. Ajudava pois conseguia atingir, sem precisar de microfone, até o último estudante; atrapalhava quando informalmente devia baixar o tom, mas quem disse que conseguia? Também o ensino superior deixou as suas marcas. Havia uma professora, de quem gostava muito, que disse, certa vez, para a sala repleta: "quem fala alto não tem educação!" Não aceitava, mas entendia quando ouvia isso das minhas primeiras professoras, afinal não haviam passado pela academia, mas como entender uma professora universitária, com doutorado na França, dizendo isso a um estudante? Saibam que o respeito se transformou em desprezo. Eu sabia que era uma pessoa educada, que falava alto não porque queria, quem sabe se uma fonoaudióloga não resolveria meu problema? 
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Bem, ao chegarmos até aqui, você deve estar se perguntando: será que ele irá cumprir a promessa de eliminar um por um a todos aqueles que o ofenderam? O fato é que a trajetória da criança que vivenciou todos aqueles constrangimentos, hoje um adulto com todos os problemas que afligem a grande maioria de nós, é a mais pura verdade, menos o desejo de sair por aí com uma arma em punho eliminando todos aqueles que, ao longo desses anos, caricaturaram-no, deixaram-no envergonhado por certo atributos que o acompanham, por exemplo, falar alto, ter as pernas tortas, entre outros! Para ser sincero, é preciso que se diga que só foi feito o desenho da face da vítima, só falei daquele que impingiram sofrimento, só mostrei o perfil daquele que sofreu ações de bullying em muito momentos de sua vida. Mas onde está o lado algoz desse sujeito?  Será que não cometeu nenhum deslize? Quem foi que nunca chamou alguém de cabeção, orelhudo, narigudo, burro? Recentemente, um comentarista esportivo, aqui de Salvador, reiteradamente, chamou o colega de cabeça de arromba navio, essa é das antigas! Quem nunca deu uns cascudos no amigo ou colega, no baba, na escola ou em outros lugares? Quem não cometeu nenhuma maldade que atire a primeira pedra!? Neste caso, havia um garoto em sua infância que só chamava de aleijado,  e o moleque respondia: "onde eu encontrei, eu deixei!" Só bem mais tarde ele entendeu o que o aleijadinho queria insinuar. Não estou com isso querendo dizer que as ações de bullying são inofensivas e que não se deve tomar providências para evitá-las, mas que não se pode buscar nestas ações os perfis de franco-atiradores e outros criminosos que a mídia e outros vêm nos vendendo a cada massacre que acontece, empurrando, dessa forma, a poeira para debaixo do tapete, sabemos que o buraco é mais embaixo. Porque se assim fosse, se todos aqueles que sofreram/sofrem ações de bullying saíssem por aí matando, não sei se restaria alguém para contar essa história...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Invejoso...

Para quem não gosta muito de barulho, morar em Salvador e ouvir rádio não é uma combinação das melhores! A cidade incorporou a imagem que as imagens da tv lhe deram! Então, por aqui, temos carnaval o ano inteiro, o infeliz propriamente dito, ou seja, quase uma semana de zoeira ensurdecedora, perdoem-me pela redundância, e sua preparação durante os outros meses do ano! Como todos já sabem, existem artistas da terra que parecem ubíquos, o que faz com que não esqueçamos, um só segundo, que carnaval tem todo ano e o ano inteiro! Quem sabe uns dois exemplos podem deixar esse negócio mais claro? A internet aqui de casa parou de funcionar. Para minha surpresa, um técnico, lá no Rio de Janeiro, conseguiu consertá-la de forma rápida e eficiente via telefone (o técnico local, numa análise rápida e definitiva, condenou o modem), falei da sua eficiência e que caso resolvesse vir a Salvador, que seria seu cicerone. Ele rindo retrucou: tudo bem, quem sabe no carnaval? Estava em Florianópolis tentando comprar um agasalho para o frio lancinante que fazia por lá. Conversando com o vendedor, e nem sei o porquê, pergunta-me se sou da Bahia. Achei estranho já que não apresentava nenhum traje típico da boa terra, terá sido o meu sotaque? Mas eu não tenho! Pois bem, não escapei, ao confirmar que era de Salvador, da pergunta que me persegue de forma recorrente em todo canto que vou: o carnaval é aquilo mesmo? Para que tenham uma idéia de como isso, às vezes, é inconveniente, certa feita em Uberlândia, quase saio do sério quando um sujeito, ao saber da minha origem geográfica, veio logo dizendo que tinha uma vontade danada de vir a Salvador, no carnaval, para sair dando beijo na boca e fazer outras coisas que não acho necessário repetir. Para lhe dar uma porrada, lancei-lhe raivosamente na cara essas palavras: minha mãe também mora lá! Como se não bastasse esse sofrimento, imaginem o repertório da maioria das rádios que vicejam por aqui!? Todavia, para fugir da Lei de Murphy, nem tudo é barulho incessante por aqui, de quando em vez, tocam umas coisas interessantes, fugindo do lugar comum, se assim não fosse, nem o maior dos defensores das Cláudias e Ivetes suportaria, aliás, confesso que já nem sei quem é uma ou quem é a outra! Sei apenas que uma é fake, mas está cada vez mais difícil, sem a imagem, descobrir quem é que é o fake! O fake faz o que todo fake faz, não é? O problema é quando o original incorpora o fake! Quem disse que isso é importante? O fato é que hoje pela manhã uns acordes diferentes insistiam em quebrar a rotina sonora soteropolitana, aguçamos os ouvidos e o que tocava no rádio, ou será na rádio?, era INVEJOSO de Arnaldo Antunes e Liminha, de 2009, o que prova que "quando tudo está perdido, sempre existe uma luz":

O carro do vizinho é muito mais possante
E aquela mulher dele é tão interessante

Por isso ele parece muito mais potente
Sua casa foi pintada recentemente

E quando encontra o seu colega de trabalho

Só pensa em quanto deve ser o seu salário
Queria ter a secretária do patrão
Mas sua conta bancária já chegou no chão

Na hora do almoço vai pra lanchonete

Tomar seu copo d'água e comer um croquete
Enquanto imagina aquele restaurante
Aonde os outros devem estar nesse instante

Invejoso

Querer o que é dos outros é o seu gozo
E fica remoendo até o osso
Mas sua fruta só lhe dá caroço

Invejoso

O bem alheio é o seu desgosto
Queria um palácio suntuoso
mas acabou no fundo desse poço

Depois você caminha até a academia

Sem automóvel e também sem companhia
Queria ter o corpo um pouco mais sarado
Como aquele rapaz que malha do seu lado

E se envergonha de sua própria namorada

Achando que os amigos vão fazer piada
Queria uma mulher daquelas de revista
Uma aeromoça, uma recepcionista

E quando chega em casa liga a tevê

Vê tanta gente mais feliz do que você
Apaga a luz na cama e antes de dormir
Fica pensando o que fazer pra conseguir

O que é dos outros

Querer o que é dos outros é o seu gozo
E fica remoendo até o osso
Mas sua fruta só lhe dá caroço

Invejoso

O bem alheio é o seu desgosto
Queria um palácio suntuoso

mas acabou no fundo desse poço   

domingo, 25 de setembro de 2011

Contraponto...

Assumida as limitações desse escriba, trazer o texto de Alex Castro tinha por finalidade mostrar que ainda é possível falar de amor intenso e completo, diria, extraordinário e possível, neste mundo onde os sites de relacionamentos são os novos pontos de encontros dos futuros casais! Não posso negar que o amor dedicado em vida e agora à memória de José Saramago por Pilar del Río materializa, quiçá, represente melhor aquilo que pretendíamos com essa empreitada. O belo texto de Alex fala de um amor maduro, resolvido, amor que buscamos todos os dias, e quem disser que não quer um amor assim, mente, queremos amar e que nos amem com a mesma intensidade. A declaração de Pilar del Río (em vida ele estava comigo, agora está dentro de mim) eterniza a relação na medida em que livra definitivamente do quotidiano o amor, dito de outra maneira, a vida faz do amor refém porque a convivência o expõe às mazelas de todos os dias, ironicamente é a morte que o liberta, torna-o imorredoiro, nada mais paradoxal, não lhe parece? Não quero eu dizer que para que o amor sobreviva é preciso que um dos amantes tenha que morrer, mas que viver um grande amor não é preciso! É tão verdadeira essa afirmação que, às vezes, a morte torna o amor definitivo! Eu sei, tudo o que estou dizendo soa contraditório! 
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Alex Castro anuncia um amor oposto ao que nós apresentamos para Lanzudo Reis. Naquele temos o encontro do ser divino, da alma gêmea, do amor esperado; neste vemos o amor deixando de ser correspondido, a perda, o sofrimento e, por fim, a morte como bálsamo para a dor lancinante e incurável, pelo menos para ele, do amor sentido por Luiza. A ironia é que ambos amam com a mesma intensidade e paixão. Observa-se em ambos uma apologia do ser amado, levada às últimas consequencias; o primeiro confessa coisas que, em geral, só são ditas na alcova, e expõe sua libido sem nenhuma desfaçatez; o segundo vai se consumindo por um ciúme silencioso, pelo distanciamento da mulher amada, por fim, a suspeita de traição, tão cruel quanto a de Bentinho por Capitu! Somado a tudo isso vem a perda do discernimento. Neste momento, os amantes bradam: "quem foi que lhe disse que no amor há discernimento? No fundo, no fundo, amar é morrer em vida!" Menotti del Picchia resumiu de forma irônica o que está reservado para nós, os humanos, em relação ao amor, disse ele: amar é sofrer, não amar é sofrer mais! O amor nos torna patéticos, em todos os aspectos, principalmente quando escrevemos para quem amamos! Dizem os analistas e entendidos que não há nada mais ridículo que uma carta de amor! Contudo foi Saramago, em seu O ano da morte de Ricardo Reis, quem belamente sintetizou o sentimento ironizando aqueles que tripudiam dos amantes dizendo: não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de amor. Preciso dizer algo mais?...  

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Uma tragicomédia mexicano-brasileira...

Nunca alguém se encaixou, este é um verbo estranho para o caso, de forma tão precisa em seu nome como aquele camarada. Fora batizado como Lanzudo Reis. Um sujeito que, além de ter a sorte no nome, tinha um sobrenome duplamente real! Não jogava em loteria, porém tinha uma capacidade extraordinária para dar palpites, por isso, vivia ganhando coisas nos sorteios em que entrava acidentalmente. Ou seja, os prêmios corriam atrás dele: televisor, geladeira, ventilador, ar condicionado, de novo uma geladeira, outro televisor, mais um ventilador e um liquidificador! Tendo essa característica peculiar para os sorteios, as pessoas viviam lhe dizendo: "joga na mega-sena, rapaz, é bem capaz de você ganhar!" Mas ele não lhes dava ouvidos, para quê? Era o que respondia. Na verdade, queria viver do seu trabalho, onde era reconhecido e competente. Começou na labuta sozinho, aos dezesseis anos, longe de sua cidade natal, fato que tornou sua caminhada ainda mais árdua e difícil. Não esmoreceu um só instante, conseguindo superar os principais obstáculos. O curioso é que mesmo sem ter curso superior, conseguiu um salário superior àqueles que o tinham, logo se tornou o braço direito do patrão, sua importância era capital, sem ele o negócio não andava. Sim, ganhava razoavelmente bem, comparado aos padrões brasileiros, cujo salário mínimo não chega aos míseros seiscentos paus, um emergente, usando um eufemismo da moda! Mas, apesar de todo o sucesso, Lanzudo não estava feliz, o que não deixa de ser um contrassenso, com suas conquistas: casa própria, carro e motocicleta na garagem, porém queria mais, algo estava faltando em sua vida, mas o quê? Era o que se perguntava. Talvez fosse uma companheira, quem sabe?
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Como em toda tragédia ou comédia sempre aparece o amor da vida de alguém, para Lanzudo também não foi diferente e nem difícil encontrar sua cara metade, a pessoa que queria ao seu lado pelo resto de sua existência, aliás, é preciso que se diga, todo apaixonado seguramente repete essa ladainha, ama-se o outro de forma incontrolável! Neste caso, ela estava bem ali, distante apenas alguns quarteirões de sua casa e, por isso, diferente dos dias de hoje, não foi necessário nenhum site de relacionamento para os aproximar. Dizem que foi amor à primeira vista, paixão arrebatadora e incontrolável. Ah, como o amor faz das pessoas seres grotescos! Não podia negar que Luiza foi a coisa mais linda que já passara sob seus olhos! Não tinha nenhuma dúvida que era a pessoa que iria dar sentido e significado à caminhada que começara em terras estranhas. Como diz aquele velho ditado: santo de casa não faz milagres, o fato é que o estrangeiro termina tendo mais oportunidades que os filhos da terra, mas isso agora não é importante, e, por essa razão, esse forasteiro terminou se casando com a menina mais linda do lugar e foram felizes, se isso aqui não fosse a vida real, para sempre...
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Mas na vida o para sempre sempre acaba! Embora a história de Lanzudo seja recortada por uma verdadeira trilha sonora, que vai refletindo seus estados d'alma, não se pode dizer o mesmo do seu casamento! Há outro ditado popular que insiste em dizer que aquele que é feliz no jogo, certamente será infeliz no amor! Espera um pouco. Não há nesta sabedoria um cínico determinismo? Não podemos concordar com isso, há outros personagens que são felizes tanto no jogo como no amor. Por exemplo? Aquele ganhador da mega-sena cuja mulher era manicure. Não, doido, avisa-me aqui meu alter-ego, essa mandou matar o marido! É verdade, e o sujeito não tinha as pernas, quanta maldade! O fato é que Lanzudo começou a notar certo distanciamento por parte de Luiza, já não aceitava mais seus carinhos como fazia outrora. Qual seria a razão dessa mudança? Essa pergunta lhe martelava os cornos, digo, a cabeça. Não, não queria acreditar no pior! Amava Luiza com todas as forças do seu ser, só ela o completava e compreendia as coisas que eram importantes para ele. Como dissera antes, quando as pessoas estão apaixonadas, beiram ao ridículo e não são capazes de ver o que está diante de seus olhos, mesmo que seja do tamanho de um elefante! 
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O caso de Lanzudo já se enquadrava no perfil dos sites que oferecem casos extraconjugais com a manutenção do casamento, ou seja, menos de uma relação sexual por mês! Um homem infeliz, muito infeliz era o que Lanzudo se tornara. A saída seria recorrer as tais redes sociais da traição (como a Ashley Madison, canadense, a Ohhtel, americana e a Second Love, holandesa) que já congregam entre nós mais 370 mil pessoas sedentas para uma saidinha do casamento sem sexo? Não, não poderia trair seu grande amor! O remorso o consumiria, não teria como encarar Luiza no café da manhã! Observem que Lanzudo não esquece um só instante a grande paixão por sua esposinha. O pior da história é que o amor só aumentava e em progressão geométrica, enquanto ela perdia o interesse por ele no mesmo diapasão. 
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A relação conjugal se deteriorava, e sexo, quando havia, era mais rápido que o  de Bruno Mazzeo em Cilada.com! Para piorar a situação, Lanzudo descobriu no histórico do computador do casal que Luiza estava inscrita em todas as redes sociais citadas anteriormente! E agora, José? Perdoe-nos Drummond, por essa aleivosia! Estava sendo traído ou ainda se encontrava apenas no virtual? Dilacerado pelo ciúme, resolveu fazer aquilo que todo homem traído deve fazer, quando tem sua honra ultrajada. Não, senhoras e senhores, não pensou em matá-la, afinal, já saímos da idade média. Pediria imediatamente o divórcio. Mas lembrou que não havia provas, o que um histórico quer dizer? O pior cego é aquele que não quer ver, quem foi mesmo que disse isso? E se fosse apenas platônico? O fato é que nessas horas, todo mundo recorre ao filósofo! Com o coração partido e cheio de dúvidas, Lanzudo viu que célere uma depressão se aproximava, precisava respirar, doía demais aquilo tudo. Deixou sua residência às 17 horas, precisamente. Não levou o carro ou a moto, não estava com cabeça para dirigir ou pilotar, pegou um coletivo, saltou naquele ponto próximo ao Iguatemi, subiu aquela passarela que mais parece um formigueiro e se atirou, não sem antes tirar os sapatos...

domingo, 7 de agosto de 2011

casar e trair: as duas faces da moeda...

Conversava com uma mulher de meia idade (não sei se seria melhor dizer mulher madura!) em Florianópolis, eis que do nada, ela me sai com essa: "estou cadastrada em todos os sites de relacionamentos e tem muita gente querendo casar comigo!" Minha estranheza não se deu por haver muita gente querendo casar com ela ou por estar cadastrada em todos os sites, mas por tomar conhecimento de que as pessoas agora "arriscam" suas vidas apostando neste tipo de relação. Quando conhecemos alguém no dia a dia já é tão difícil o "negócio" dar certo, imaginem uma união baseada nestes termos? A possibilidade hoje de casamento "arranjado" a partir da tela do computador mostra o quão estamos nos afastando cada vez mais do mundo real e apostando todas as fichas no quimérico mundo virtual! Claro, além de totalmente asséptico esse mundo é perfeito como a Utopia de Thomas Morus! 
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O fato é que a pessoa ideal para ficar ao nosso lado, por todo o sempre, está lá do outro lado do micro sendo mediada por quem mais entende as pessoas e as relações afetivas na contemporaneidade: os sites de relacionamentos!? Há pessoas hoje que só estabelecem contato se seu "pretendente" tiver cadastro em alguma rede social, isso demonstra que temos um novo passaporte do amor, sem ele, está cada vez mais difícil namorar e beijar na boca como se fazia antigamente! Com essa referência, temos a certeza que nossa vida amorosa pode ser resolvida a partir de simples toques no teclado! Não deixa de ser estranho entregarmos o futuro das nossas relações mais íntimas à virtualidade. A senha para nossa felicidade se encontra nas mãos das redes sociais! Convivi com a heroína dessa história 35 longos dias. Uma pessoa difícil em todos os sentidos, poderia elencar aqui uma quantidade imensa de adjetivos que poderia depreciá-la, mas basta um para traduzir esse sentimento: infeliz! Ela faz parte de uma legião de homens e mulheres que está buscando sua cara metade por essa via, a causa talvez seja uma solidão dilacerante que os novos modos de viver nos impõem e a confiança de que há um príncipe e/ou princesa encantado(a) em algum lugar a nossa espera! Fico me perguntando o que ela teria dito aos seus pretendentes para que pensassem que teriam encontrado a pessoa dos seus sonhos, mesmo sem nunca tê-la visto pessoalmente, sem conhecer suas manias, seus humores, seus cheiros; o fato é que ela falava e muito que queria casar, estava cansada de viver sozinha!
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Enquanto essa mulher alquebrada de 50 anos, corroída pela solidão, deseja alguém para dividir seus carinhos, a versão brasileira do site ohhtel que é responsável por proporcionar aos amantes, cujo casamento tem sexo meia-bomba, uma traição discreta, entrou no ar. O curioso é que no ar desde o dia 11 de julho de 2011, não completou sequer um mês ainda, e já tem mais de 150 mil usuários dispostos a uma traiçãozinha "facilitada"! Neste caso, só perdemos em número de "sócios" para os EUA onde o site existe há mais de 2 anos e tem 1,4 milhões de casados à procura de alguém para copular! Vemos aí aquela antiga máxima que dizia: o que é bom para os EUA é bom para o Brasil. Segundo pesquisa feita pelo Ohhtel, existem cerca de 14 milhões de homens e mulheres vivendo sem sexo no casamento no Brasil, é muita gente, não?! Os números levantados "afirmam" que 19,2% dos casados têm menos de uma relação sexual por mês, enquanto 51% estão insatisfeitos! A média de idade entre os homens é de 39 anos, entre as mulheres é de 33 anos. A partir de uma estratégia de marketing bem articulada, o Ohhtel não cobra inscrição das mulheres, porém os marmanjos têm que desembolsar cerca de R$ 60 se quiserem manter contato com alguma das inscritas na rede. Contudo parece que esse pormenor não assustou ou intimidou os homens sequiosos por uma traição planejada. O dado deveras importante é que das 14 milhões de almas que fazem parte do cadastro do Ohhtel no Brasil, 66% são homens, enquanto as mulheres somam 34%! 
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Lais Ranna, VP de operações do site no Brasil, deixou claro quem é o alvo e as razões de se escolher essa alternativa para a busca da felicidade sexual do próximo, disse ela: "quando você se encontra em um casamento sem sexo, você tem três caminhos a seguir: 1. continuar infeliz desse jeito; 2. pedir o divórcio (nessa opção, você estará colocando o sexo acima da família, filhos, finanças, etc); ou 3. continuar o casamento e procurar satisfação sexual em outro lugar. O site, então, é para pessoas que escolheram essa terceira opção e que querem fazer isso de uma forma mais segura." Pois é, sublinhei por entender que estamos diante de uma pessoa que além de cínica, é pragmática e extremamente esperta, ora, a pessoa colocar o sexo acima da família, filhos e finanças é algo nefasto e não recomendável, afinal é importante a manutenção dessas instituições, mas trair/enganar deliberadamente seu/sua parceira(o) é muito mais sensato e seguro do que a separação! É o uso da lógica: trair e coçar é só começar! Vale muito a pena ouvir um pouco mais o que tem a dizer a figura "brilhante" que é Lais Ranna sobre as vantagens de alguém se associar ao Ohhtel: "O pagamento é bem discreto: dinheiro ou cartão, sendo que o nome do site não aparece no extrato bancário. Lembramos que a pessoa deve tratar o futuro amante como um total desconhecido, adotando as mesmas medidas de segurança que usaria em outra rede social. Sugerimos também contar para outras duas pessoas aonde você está indo, além das características físicas de quem você vai encontrar, sem a necessidade de explicar a finalidade do encontro. Marque também um encontro rápido e em local público." É preciso dizer mais alguma a esse respeito depois dessa aula? Apenas que o perigo mora ao lado!
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O que as duas situações têm em comum? Em que a busca de casamento para a superação de uma solidão dilacerante e o desejo de colocar um pouco de sal a partir da traição, via rede social, numa vida sexual já decrépita e sem sentido, se aproximam? Na verdade, nas duas há uma carência humana de afeto, carinho, amor nos dois caminhos postos à disposição, contudo essa carência está se tornando abissal! Talvez o mais grave entre as situações apresentadas seja a nossa total incompetência para nos relacionarmos diretamente, e uma tendência à inserção cada vez mais comum de um parceiro virtual intermediando os encontros. Já não estamos conseguindo caminhar sem essas muletas virtuais a nos auxiliar! Há uma viva demonstração de que precisamos da mediação de outrem para encaminhar até aquilo, a traição, cujo sigilo era fundamental para sua sobrevivência! Será que para tudo o que se relaciona às nossas paixões mais íntimas um site de relacionamentos estará nos "bisbilhotando"?! Vivemos George Orwell e seu 1984? Quiçá isso demonstre que estamos totalmente desamparados no que se refere às questões do nosso afeto e o pior é que não há nenhuma  luz a iluminar o fim do túnel...