Costumo, de forma irônica, utilizar a expressão "teoria do beija-flor" quando percebo que alguém, ao fazer a sua parte no "incêndio florestal", mostra um sentimento de dever cumprido. Muitos a utilizam por conta do seu efeito sedativo, afinal, "todos" querem ir para o céu, e uma boa ação diária é a primeira das premissas, pelo menos é o que "eles" pensam! O resultado dessa boa ação é um "sorriso estampado na face de quem a recebeu". Temos aí a conclusão mais óbvia: "há algo mais belo que o riso agradecido no rosto de uma criança?" Exemplos temos aos borbotões, mas fiquemos com um que é emblemático: o "criança esperança", a maior filantropia com o dinheiro alheio já visto ao longo dos últimos anos, ligue e doe!
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Voltemos à "teoria do beija-flor", o momento mágico das boas ações, onde fazemos a nossa parte neste grande latifúndio de miseráveis. O que queremos é ficar com a consciência tranquila, para isso, ajudamos o próximo que está em condições insatisfatórias (perdoem-me pelo eufemismo), sim, porque não há nada mais humilhante do que ter que pedir, seja o que for, para sobreviver. Estou falando sobre isso, porque fiquei intrigado com a felicidade de Rodrigo Ratier, em texto escrito na Revista Escola, de abril, que teve como meta a ampliação do número de livros lidos por aqueles que, em tese, não têm esse hábito, por isso, a partir daquele momento, não mais daria dinheiro "aos pedintes, artista circenses e vendedores ambulantes que fazem do congestionamento da cidade de São Paulo seu ganha-pão." Distribuiria livros para aqueles que não poderia comprá-los, a ação nos leva quase que imediatamente ao "a gente não quer só comida". A música embalaria a leitura daqueles pobres desvalidos que têm fome! Parece que nem sempre precisamos de comida, livro, conhecimento é fundamental, embora saiba que para ler não basta saber ler! Leitura não se resume à simples decodificação de caracteres! Será que o ato de apenas entregar livros nos semáforos e adjacências pode alavancar um processo de leitura para além da simples decodificação de caracteres?
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Recusar-se a dar outra coisa que não um livro pode fazer um bem danado para quem "pratica a ação", contudo não tenho certeza se a recíproca é verdadeira! Almoçava com minha filha, recentemente, quando no meio de uma "garfada", um garoto nos abordou e, sem meias palavras, pediu: "pague um almoço para mim!" Olhei para Manuela Cássia, que me devolveu um olhar que no momento não consegui decodificar o que queria me dizer! Naquele momento, ainda não tinha lido a crônica do doador de livros (quem sabe não tiraria um livro da pasta e entregaria ao garoto?), nem pensei na "teoria do beija-flor", ou que é fundamental não dar o peixe, mas ensinar a pescar. Não pensei em nada disso, naquele instante fugaz. Não titubeei e paguei a comida para o moleque! Sei que não resolvi, em nenhum momento, o problema dos famintos, sei bem que resvalei, e muito, na "teoria do beija-flor", mas naquela hora, não perdi de vista o que escreveram, aqueles alemães nascidos no século XIX, na Ideologia Alemã: "de modo nenhum se pode libertar os homens enquanto estes não estiverem em condições de adquirir comida e bebida, habitação e vestuário na qualidade e quantidade perfeitas.", pois é, para fazer História, a gente não quer só comida, mas a gente precisa comer...