quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Tempos de Paz...

Não vou mentir que tenho um pé atrás quando o assunto é indústria cinematográfica nacional, não sem razão. A partir da utilização do termo "cultura", criam-se leis para carrear recursos públicos para eventos sob tal rubrica, o que não se diz é que é cultura com fins lucrativos, logo deveria se autofinanciar! O fato é que não existe indústria de cinema no país se o Estado não injetar recursos. O que não deixa de ser um grande contra-senso. Neste sentido, quando vi as chamadas do filme "Tempos de Paz", de imediato, disse para mim mesmo: "lá vem mais uma produção da Globo Filmes (a produtora que mais obtém financiamento do Estado), com seu formato 'vitorioso' de novela em tela grande, haja vista, o filme Se eu fosse você 2!" Como de hábito, o diretor (Daniel Filho) e o elenco eram os "mesmos" de sempre, aquelas figurinhas carimbadas. Para minha surpresa, embora com "cara" de novelão das oito, a peça/filme fugia um pouquinho do padrão global. Para ser sincero, o impacto da entrevista dos atores Dan Stulbach e Tony Ramos foi maior do que o produto propriamente dito. Sem querer fui convencido a ver o filme, mesmo com toda a restrição ao "modelo" global de cinema.
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Não sei, talvez a "grande" sacada tenha sido transformar a peça que os dois protagonizaram em um filme "arrumadinho", sei, nada de novo! Contudo não é teatro na telona, aliás, não acredito que Daniel Filho mesmo que quisesse fosse competente a ponto de conseguir essa proeza. Bem sinteticamente, a história tem como pano de fundo o fim da segunda guerra, a razão do título, embora no Brasil esse fim ainda não estivesse muito claro, burocraticamente. Naquele momento, estavámos saindo da Ditadura Vargas e as novas regras ainda não tinham sido estabelecidas. A questão da imigração é posta em cena, tendo como palco a cidade do Rio de Janeiro. Dan Stulbach faz um ator polonês que quer se passar por agricultor, para que possa permanecer no Brasil, segundo suas palavras: "o país precisa de braços para a lavoura", portanto merecia estar entre aqueles que aqui permaneceriam! O problema é que dá de cara com um
"ex" torturador, Tony Ramos, que trabalha na Alfandêga como chefe da imigração, sua antiga "função" perdeu o sentido e ele perdeu a paz nesses tempos! De saída, suspeita que aquele sujeito com o sotaque carregado, mas que fala português, deve ser, sem sombra de dúvida, um nazista disfarçado. O artifício do "ex" torturador para demonstrar que o 'polonês' está mentindo, ao se dizer agricultor, é bem simples, pede-lhe que mostre as mãos! É bom que se diga que Francisco Julião, um advogado que representava as Ligas Camponesas, ao ser preso pelas forças de repressão da Ditadura Militar, mais uma em nosso caminho, foi descoberto por causa de suas mãos, disse-lhe o torturador, à época, que aquelas não eram mãos de quem trabalha a terra! Voltando "aos" "Tempos de Paz", o imigrante não tem saída, descoberto, aceita a proposta que o torturador lhe faz. Se consegui fazê-lo chorar, o carimbo para a sua permanência está garantido, antes, porém, lhe informa algumas das atrocidades cometidas por ele! Conta com regozijo que fora capaz de enfiar uma haste de aço no pênis de um prisioneiro e aquecê-la posteriormente, além de amputar a mão do médico que conseguira salva a vida da pessoa que ele mais venerava: sua irmã! Digam-me: existe alguma possibilidade de fazer um "homem" desse chorar?
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Se perguntarmos a um pediatra qual é a profissão de maior relevância social, é muito provável que ele afirme que é a dele, justificando que o futuro está em suas mãos, já que garante a saúde dos que perpetuarão a espécie! Esse talvez seja o grande equívoco de quem deixa de pensar na totalidade e estabelece hierarquia para as coisas da vida. Quem é mais importante para a sociedade o agricultor que ara a terra e produz alimento ou o ator que encarna seus personagens? É possível mensurar? Pois é, o roteiro de
Tempos de Paz nos faz crer que até os "brutos" são capazes, depois de um estupro, chorar copiosamente com o dramalhão da novela das oito! Sabemos do que são capazes os humanos, quem há de esquecer a bomba atômica que os americanos lançaram sobre os civis das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, na segunda guerra? Trata-se de uma apologia sem-vergonha ao trabalho do ator, o torturador pode não entender nada de teatro, mas se sensibiliza com o que vê! O que podemos dizer aos torturadores de todas as espécies, mesmo os que se emocionam como o Segismundo do filme/peça, é que a lei de Talião lhes cai bem...

7 comentários:

Lauro Xavier Neto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lauro Xavier Neto disse...

inefável!!!!!

Lauro Xavier Neto disse...

MMMMMMMMaaaaaannnnnnnnooooooooo, que honra ter minha foto publicada,
beijos!!!!

Lusimary disse...

Quando vi que a peça havia se tornado um filme e que eram os mesmos atores, me entusiasmei, confesso! Não conhecia, só havia ouvido elogios a respeito e ela foi lançada no festival de teatro aqui, em Curitiba! Ao assisti-lo, pensei que deveria continuar como uma peça. Afinal, é uma homenagem ao teatro! Mas, se continuasse neste espaço, o teatro, será que algumas pessoas poderiam conhecê-la? O cinema ainda não é acessível a todos mas ainda é mais acessível que o teatro. Eu concordo quando você diz que as produções nacionais se parecem com as novelas da globo e Daniel Filho é cria da "vênus platinada". Mas, ainda assim, algumas pessoas não teriam acesso a esta peça teatral se não fosse esta produção. Rapaz, também concordamos, em 100%, em relação ao torturador. É difícil imaginar alguém que tenha feito o que fez, chorar depois de uma interpretação teatral! Mas, a ficção, nesta homenagem faz tudo ser possível! Beijos

Manoel Gomes disse...

Lauro, meu camarada, estava relembrando como nossa amizade foi construída, sua sinceridade sempre, nossas fugas dos abutres, ops, urubus, como você costumava dizer, os embates ferrenhos em Jequié,rapaz, quem poderia imaginar que quase saímos nos tapas,murros e safanões? rsrsrs...saiba,meu amigo, que além de INEFÁVEL, você é um grande IRMÃO, eu sei, bem mais novo, mais um grande irmão que ganhei em PERNamBUcoPARAHYBA, força sempre!

Manoel Gomes disse...

Mary Maria,
você sabe que concordo em parte com o que diz. Não sei se tese de que o teatro é capaz de tocar o coração dos mais cruéis é válida. Sei lá, acho que é superestimar um espaço da arte, a arte deve nos tornar mais sensíveis, ir além, como no caso do filme, é mera apelação...e tem mais, não esqueçamos dos preços dos ingressos...mas uma coisa deve ser dita, o filme trouxe você de volta, será que isso não contradiz o meu arguemento, rsrsrs...dois beijoss

Jonatan disse...

quero assistir