quarta-feira, 2 de julho de 2008

Formação de Professores...

Uma das coisas que temia quando resolvi sair da sala de aula, com o intuito de estudar, fazer aquilo que chamam de qualificação, palavra estranha essa (quem não tem qualificação é desqualificado?), era perder a "embocadura"! Ficar afastado do contato cotidiano com os estudantes me preocupava sobremaneira, não eram eles que estavam perdendo com a minha saída. Quem gosta do espaço da sala de aula, sabe do que estou dizendo. A Escola é o espaço cuja função é transmitir o conhecimento produzido àqueles que transpõem seus umbrais, contudo, nas atuais condições, tem deixado muito a desejar! Está numa encruzilhada: não consegue responder às expectativas dos professores que não querem estar lá. Isso tem levado muitos deles a sofrerem daquilo que chamam de síndrome de Burnout que é uma composição de burn = queima e out= exterior, sugerindo assim que a pessoa com esse tipo de estresse, consome-se física e emocionalmente, passando a apresentar um comportamento agressivo e irritadiço. Por outro lado, os estudantes também não sabem por que vão para lá, qual a razão de ter que passar alguns anos de suas vidas num lugar que não responde aos seus mínimos interesses. Será que as Universidades que têm a responsabilidade de formação conseguem instrumentalizar os professores para que estes consigam dizer aos estudantes que vale à pena estar na escola? Os professores sabem? E os formadores ensinam?
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Há alguns anos escrevi um texto dizendo que a Escola estava morta, que estávamos vivendo sob os seus escombros, naquela oportunidade isso não passava de mera provocação, queria que me dissessem que aquilo não passava de sandice minha! Que não era verdade, que podíamos reverter o quadro instaurado! De lá para cá, parece-me que as coisas só pioraram! Se temos escolas nos grandes centros sem as mínimas condições de existência, imaginem quando nos afastamos, quando a força centrífuga age, as condições são as piores possíveis, assim como os salários! Como andam as Escolas que estão formando professores no Brasil? Estarão formando como se fossem uma linha de montagem, formando professores como se fossem veículos? Como pensar em qualificar, essa palavra teima em aparecer, se as salas das escolas de formação estão sempre cheias, tendo em média 40 ou 50 pessoas? Somos cúmplices desse formato de educação, estamos lá, aceitamos essas condições, somos aquilo que Pedro Demo chamou de "revolucionários de sala de aula"! Bourdieu,se referindo à escola, disse que "uma instância oficialmente incumbida de assegurar a transmissão dos instrumentos de apropriação da cultura dominante que não se julga obrigada a transmitir metodicamente os instrumentos indispensáveis ao bom êxito de sua tarefa de transmissão, está destinada a transformar-se em monopólio das classes sociais capazes de transmitir por seus próprios meios."
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Há uma preocupação com o processo de formação! Sabe-se, isso me parece um avanço, que os professores tolhem, castram as possibilidades criativas das crianças! Em linhas gerais, os professores não conseguem entender a lógica da criança, suas peculiaridades, sua forma de interpretar o mundo! As argumentações indicam que temos professores despreparados para enfrentar uma criança ávida por aprender! Há uma tentativa de achar o culpado pelo fracasso do modelo. Embora, todas as vezes que se vai exemplificar a causa da deficiência do processo de ensino/aprendizagem, o personagem principal é aquele ou aquela professora que não consegue perceber a riqueza que a criança apresenta! Contudo ainda não vi, nós, os formadores, assumirmos que temos uma parcela enorme de responsabilidade no quadro apresentado, ora, somos os responsáveis pela formação daqueles que estão nas salas de aula, ou não?! Vamos continuar fazendo nossas reflexões do alto da nossa sapiência, falando para nossos próprios umbigos?...

3 comentários:

Manuela Cássia disse...

Para nós, humanos, é muito mais fácil fazer a "culpabilização" do outro, a ter que olhar para nossos próprios umbigos. Acredito que essa postura de estarmos alheios as coisas que acontecem bem em frente aos nossos olhos, é que contribuem para toda essa descaracterização da escola como vemos hoje...

Manoel Gomes disse...

Pois é, Tuca, o que me assusta é que os cursos de formação parecem estar satisfeitos com a forma como a educação vem sendo pensada, ora, nas reflexões dos professores que trabalham nas licenciaturas, a grita é geral em relação à metodologia de ensino, dizem eles que os estudantes estão saindo com um arcabouço teórico "carente", mas fica só nisso...

monica disse...

Realmente professor. As vezes nos percebemos tão distantes de uma realidade tão próxima, tão nossa, eu que o diga, os acontecimentos em sala de aula, os grilinhos que cantam em nossa cabeça e muitos deles que cantarão até depois de sairmos da universidade "formados" e a realidade das escolas que nos esperam lá fora, e de repente temos uma doce ilusão de que tudo vai se resolver; os grilos cantarão só até o final do semestre e que teremos embasamento teórico e engajamento suficiente para atuar na realidade escolar que nos espera. Mas sabemos q a questão da educação e da formação de educadores é bem mais q isso.