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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A teoria na prática é outra?...

Olhar o horizonte e observar, pelo contar das horas, que o "pôr do sol" se aproxima é tão natural e óbvio que nos deixa tranquilos e à vontade, no fundo, no fundo, dizemos convictos das nossas certezas: "tudo está no seu lugar, graças a Deus". Eis como o aparente nos desafia, será que é isso mesmo que vejo ou apenas ilusão? Na realidade, quando consideramos essa "verdade absoluta" como óbvia, estamos vivendo a realidade do século II. Cláudio Ptolomeu, um egípcio que era grego, afirmara que a terra era o centro do universo, a igreja tornou isso um dogma; ora, para ele a terra era estática, enquanto o sol girava ao seu redor, contemplando sua nudez deliciosamente avassaladora, não, isso ele não disse, quem disse fui eu! A cosmovisão de Ptolomeu perdurou por quase 14 séculos, foi Copérnico quem disse não ao geocentrismo, estático era o sol, corroborado por Galileu e, posteriormente, Kepler acrescentou que os planetas não giram em círculos, e sim em elipses. Se convidássemos alguém para ver o "pôr da terra" seriamos tachados de loucos, mas  loucos são vocês que continuam enxergando com os olhos de Ptolomeu!
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Tudo isso para dizer que é preciso mais do que aquilo que os os olhos veem para que possamos enxergar, o simples olhar não nos permite ir além da aparência, claro está que, se a mera aparência fosse suficiente para desvelar a realidade, a ciência não teria nenhuma utilidade. Somos enganados e a grandiosidade do acontecimento, na maior parte das vezes, nos cega, quem há de negar o quão é encantadora aquela tonalidade áurea no cair na da tarde no Porto da Barra, na terra de Jorge Amado? Acho que um evento como esse faz com que as pessoas afirmem que a teoria na prática é outra, mas será isso possível? E a empiria, que papel representa quando se fala em teoria e prática? Realmente teoria e prática estão desassociadas como querem nos fazer crer alguns pesquisadores? Existe mesmo entre elas a conjunção aditiva e?
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Ouvir alguém, que supostamente conhece os meandros da pesquisa, dizer: "a teoria na prática é outra", não deveria, mas me deixa constrangido, justamente porque os discípulos dessa pessoa vão perpetuar essa dicotomia ad nauseam, ad aeternum. Ora, se você que está constantemente tentando sair do terreno das aparências, já dispõe de uma série de ferramentas que põem em xeque as certezas que o olhar quer demonstrar, ao fazer dessa afirmação uma profissão de fé nega tudo aquilo que você produziu. Vejamos. Tenho um filho e estudo a Educação Infantil e, sem levar em consideração tudo que já foi produzido a respeito, digo que a teoria na prática é outra, não só estou desrespeitando aqueles que se debruçaram na constituição desse objeto, mas negando tudo aquilo que eu mesmo produzi, neste caso, inapelavelmente, transito no terreno do senso comum, sim, para que Wallon tivesse nomeado de impulsivo-emocional a primeira parte da vida da criança, que vai de zero a um ano, mais ou menos, ele não se baseou apenas naquilo que os olhos dele viam, foi preciso todo um arcabouço, que é teórico/prático, todo um estudo longitudinal, se isso não ocorrer, se não fiz uma análise rigorosa do fenômeno, sem perder de vista que existo porque penso, então vou terminar afirmando que a teoria na prática é outra; são irmãs siamesas, porque para que uma exista a outra tem que estar presente, senão não estamos falando nem de uma nem de outra, se a teoria na prática é outra, meu estudo, minha tese, o que quer que elabore, não passou pelo rigor exigido para tal, portanto, digno de ser rechaçado por quem quer que seja, aliás, se isso ocorrer, não tenho uma tese, tenho um simulacro, porque a teoria não pode ser outra na prática... 
 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Escola está morta...

A propósito do último concurso público, realizado pela Secretaria de Educação do Estado, gostaríamos de tecer algumas considerações a respeito da escola que temos e a que almejamos. O texto a seguir faz parte de uma inquietação que imaginamos não ser apenas nossa, mas de muitos outros professores, inclusive estes que estão entrando agora com o concurso referido acima.
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Durante muito tempo, a escola serviu como aprisionadora dos indivíduos, a sua função se baseava em preparar os estudantes para decorar coisas inúteis e sem sentido, e o "aprendido" nestas condições, era esquecido assim que transposta a soleira da porta. O professor era o detentor supremo do saber; o estudante? Um mero receptáculo onde o mestre depositava os ensinamentos; era, usando de "eufemismo", a absorção do vômito professoral. Aquilo que Paulo Freire, muito mais sensível do que nós, preferia chamar de educação bancária.
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E no final, esse tipo de aprendizagem se mostrou ineficiente, era preciso mudar, afinal (descobriu-se?) que se tratava de seres humanos, portanto diferentes dos animais por possuírem telencéfalo desenvolvido e polegar opositor, por isso mesmo, capazes de transcender ao meramente biológico, fisiológico e todos os outros "ógicos", mudou-se a escola. Agora, a figura do professor já não era a mais importante, o estudante passava a ser o responsável direto por sua aprendizagem, ou seja, o centro foi alterado, os vômitos professorais foram esquecidos e criou-se a possibilidade de a escola tornar-se algo agradável e interessante.
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Com essa mudança, visava-se atingir a maioria da população escolar; como essa nova abordagem conseguiria essa meta era o "x" da questão. O problema básico: se o estudante não tinha por hábito este "fazer diário" é lógico que terminaria se perdendo no emaranhado criado antes que esta prática fosse estimulada, e este tipo de concepção fracassou. A escola voltou a servir a uns poucos, pois quem viveu o tempo inteiro alimentado por migalhas, diga-se "vômitos professorais", não teria as mesmas chances que aqueles que tinham todas as condições a seu favor.
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Buscou-se, então, outra forma em que fosse possível alterar as condições, se o estudante não aprendeu a aprender, teria ele agora que aprender a fazer! Estaria dessa forma reservada a poucos o acesso a "culturas mais elaboradas", ou seja, uns iriam para a fábrica e outros para a universidade, em outras palavras, para uns, as atividades intelectuais; para outros, a linha de montagem, ironicamente falando, a volta às origens: filho de trabalhador trabalha, enquanto os originários da outra classe estudam! Embora alguns mais "ousados", às vezes, não respeitem os limites que lhes são impostos, e sem consulta prévia, adentram os muros  sacrossantos da universidade, desejosos de beber, também,  das tais "culturas elaboradas, mas, é preciso que se diga,  isso é exceção, não passa de gotículas no "oceano do conhecimento".
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A cultura é um bem construído pela humanidade, se é assim, todos devem ter acesso, exemplo clássico da negação desse direito vemos no Brasil, onde pretos e outros menos afortunados nas minas , nos canaviais, nos pelourinhos pagaram com seu sangue a construção de um país que lhes é negado quotidianamente. Mas voltemos ao que falávamos antes, o que a escola pode fazer para permitir que o estudante realmente sinta prazer em ir até ela? Por que não valorizar a "cultura da rua"? Por que ao entrar na escola é preciso esquecer o mundo que pulsa lá fora? Por que o conhecimento na sala de aula é tão abstrato que o estudante não consegue entender para que serve e, por isso mesmo, não consegue transcender ao quadrilátero em que está confinado ou o círculo vicioso que ela se tornou? "Um mais um é sempre dois?" Se o estudante tem medo, a escola, mais uma vez, falhou no que prometeu: servir de alavanca para o crescimento humano! Tentemos reconstruí-la a partir dos seus escombros, é isso mesmo, esta que aí está, morreu...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O fantasma da quantofrenia*...

O tema da “avaliação” e da “qualidade” está em moda atualmente – quase que como sinônimos. Estruturas e políticas perversas, sádicas, estão sendo implantadas paulatinamente em nossas vidas no cotidiano das instituições. E como tal, elas não estão sendo refletidas. As Pós-Graduações, inclusive a nossa, vêm defendendo uma concepção perversa, de punição e de retaliação, como fazer político-pedagógico, mas não reconhecem essa prática. Não se vê nessa prática. Isso não é novo na história. Quantos ex-escravos no Brasil Colônia se aliaram às instituições da Casa-Grande e ao sistema repressivo policial e passaram a combater (“dedurar” e participar de práticas violentas) os seus irmãos? Se tomarmos, também, o nazismo e os torturadores a serviço dos governos militares/civis e seus apoiadores no Brasil, nenhum destes reconhece que fez o mal. Dependendo do grau de compromisso com essas instituições mortíferas, uns, plenamente, desconhecem seu envolvimento; outros, que as defendem abertamente, argumentam que lutavam contra um mal maior e, portanto, as violências e os assassinatos foram necessários. Docentes, não se sintam agredidos por tal comparação. Óbvio que vocês não são nem torturadores e nem nazistas, e nem capatazes – nem conceitualmente, nem historicamente e nem politicamente. Contudo, temos que aceitar: a lógica estruturante é a mesma. Isso é o que importa para a análise e a auto-análise. Por isso, Félix Guatarri, diz-nos que “Hitler ainda está vivo”: “nos sonhos, nos delírios, nos filmes, nos comportamentos torturadores dos policiais...”. Assim, o mesmo ocorre com essa política de “produtividade”, de “qualidade”, das instituições. Aplicam as políticas, mas não assumem as suas consequências. Bresser Pereira, ideólogo e coordenador das políticas neoliberais no Brasil, agora, escreve contra as políticas neoliberais com o mesmo afã com que a defendia. Cínico, escroto (Titãs, belo rock transgressor), cara de pau? Um pouco disso tudo e, talvez, algo mais.
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O professor português, Doutor Almerindo J. Afonso, da Universidade do Minho, que esteve aqui recentemente, proferindo uma palestra, questionou, indagou: “pra que avaliar”? Disse ele: “os docentes nem mais se indagam hoje sobre isso, apenas discutem qual a melhor avaliação” (citação de sentido e não literal). Imediatamente todos olharam pra mim porque defendi recentemente o FIM da avaliação, da nota e da chamada – infelizmente não dá para teoricamente desenvolver a tese do “fim” da avaliação aqui. No momento contemporâneo não se pode discutir o “FIM” nesse período fantasmático, pois está “proibido” blasfemar, romper com o sagrado (resultado e produtividade). Na verdade, entendo a avaliação como uma instituição imaginária social (um fantasma, no sentido castoriadiano) que está nos assombrando, fazendo parte de nossas vidas, como se existisse a priori e não fosse nossa criação imaginária – evidentemente, inventada e fortalecida pelas grandes organizações midiáticas, pelos Estados e pelas empresas. Delírios, delírios, delírios são a avaliação. Ora, como delírio, quem criticar a avaliação será percebido, certamente, como um “inimigo”, uma ameaça e um “incompetente”, um “incapaz”. Na verdade, as pessoas estão incorporando sua “incompetência” e estão incapazes de reagir aos fantasmas: frequência, pontos, hierarquizações de veículos, tempo controlado (mas são de corpos biológicos, têm uma narrativa cronológica, psíquica, cultural e política), exposição pública como incompetente. Se pensarmos direito, como estamos dominados pelo “fantasma”, nós não “publicamos”, somos “publicados”. Completamente dominados pela imaginação do chicote da “avaliação” – lembro-me de Edilson Fernandes -, não mantemos uma relação com o tempo, mas somos “temporalizados” pelos prazos; não produzimos saberes, somos dominados pelas palavras que precisam ser ditas, a qualquer custo, mesmo que não tenhamos grande coisa a dizer nesse momento, mas se exige que se diga; não mantemos um diálogo com os autores, mas os cuspimos freneticamente (Ah! Que saudade de Augustos dos Anjos!) para sermos reconhecidos em alguma perspectiva teórica; não temos objetos de pesquisa, mas somos objetificados pela ditadura das exigências “acadêmicas” (!?!?).
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Essa ditadura do resultado imbeciliza-nos e idiotiza-nos cotidianamente. Como o importante é fazermos “pontos”, pra que debate? Pra que discussão? Pra que polêmica? Pra que projeto político-pedagógico? No máximo, um defensor ou alguém que já foi fabricado para pensar assim atua na organização de um seminário,  chamando os afiliados aos Congressos, nas instituições, elaborando um texto, publicando e ficando na expectativa de ganhar “ponto” – objetivo central. Não tem sentido participar de debate (ou organizá-lo) quando não vale “ponto” (quantos docentes da Pós organizaram debates – polêmicos - recentemente que não valem pontos?). Qual a finalidade de um texto? O que eu quero com as minhas palavras? O que pretendo com as imagens que estão circulando nas minhas palavras?  Quem concorda comigo ou discorda de mim? O meu texto mexeu com o coletivo humano? Isso não importa, o importante é que eu fiz “ponto” no lattes. O vazio – o Nada – reina nas universidades hoje. Ninguém tem nada a dizer, pois não tem mais o que dizer, já foi dito há muito tempo o que deveria ser dito – o “tempo”, a “história” morreu ( o futuro também não existe, morreu). Temos apenas que “produzir” palavras, no presente momento, pois é o único tempo existente, vazias de sentido, porque o que precisa ser dito, já foi dito há muito tempo e não há mais o que dizer. Nem o que recordar, rememorar, porque o presente é agora, o resultado é agora, você tem que provar agora que você merece a instituição. Passado e futuro não existem no domínio desse fantasma – se existir, apenas, de forma utilitária (o que dá no mesmo, a morte do tempo). Só o presente vale.
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 Ora, a predominância absoluta do presente leva-nos ao utilitarismo e ao sadismo. Aqueles que querem gozar da onipotência das produções visando ao “resultado” não podem reconhecer o Outro. O Outro é um objeto – literal. É uma peça – é um taylorismo mais sofisticado. Vincent de Gaulejac nos alerta de que Taylor é mais progressista que o mais novo gerencialismo quantitativista. E como peça, troquemo-la quando não mais nos servir. Tudo pelo resultado. Difícil de combater essa concepção porque esse fantasma não tem corpo, não tem matéria (são normas, instrumentos, números, dados estatísticos, resultados). Como diz Enriquez, o grande estrategista tem que ser “cool”, frio, indiferente. Não pode se permitir demonstrar sentimentos “femininos”. O importante é o resultado. Conforme Dejours, que escreveu “A banalização da injustiça social”, não são os "grandes homens” que fazem o mal, mas os medianos das organizações. São esses que demitem, aterrorizam seus subordinados em nome dos resultados e para serem reconhecidos pela organização. Como ele diz: “É em nome dessa justa causa que se utilizam, larga manu, no mundo do trabalho, métodos cruéis contra nossos concidadãos, a fim de excluir os que não estão aptos a combater nessa guerra: estes são demitidos da empresa, ao passo que dos outros, dos que estão aptos ao combate, exigem-se desempenhos sempre superiores em termos de produtividade, de disponibilidade, de disciplina e de abnegação”.Enriquez defende que nunca o indivíduo esteve preso nas malhas da organização e “tão pouco livre em relação ao seu corpo, ao seu modo de pensar, à sua psique”. Há docentes na ANPED que gostam de E. Enriquez – mas este autor combate essa política e essa prática nas organizações; alguns gostam de Boaventura Santos – este, também, denuncia e tenta elaborar teoria que seja alternativa à globalização; uns, elogiam a Christophe Dejours; outros admiram e louvam a Paulo Freire, mas este viveu seu pensamento; outros mais se encantam com Almerindo Afonso e Licínio Lima; outros, ainda, com a ação comunicativa de Habermas. Poderíamos ilustrar o que afirmamos com um conjunto de autores que são escarrados (lembro-me de Augusto dos Anjos) em citações nos tão propalados artigos que valem ponto no lattes. Mas são palavras vazias, são palavras “virgens”, “puras”, que não marcam a tinta do papel porque são superficiais. Esses e outros autores, se consultados sobre a prática política e a concepção de ciência e saber no cotidiano daqueles que os citam, certamente, se rebelariam, pois não se veriam nelas. A instituição, por estar morta, e/ou dominada por esse fantasma, ou os autores/os teóricos tornam-se sem sentido, desfigurados, apenas retóricos, porque estão desconectados do real. A pulsão de morte está encravada na instituição universitária.
Dejours chama-nos a atenção de que “se essa maquinaria continua a mostrar seu poderio é porque consentimos em fazê-la funcionar, mesmo quando isso nos repugna. Mesmo quando isso nos repugnar!”. Conforme ele, esse consentimento decorre do “sofrimento no trabalho”. A perda da esperança gradual no trabalho e a consciência de que quanto mais se dão ao trabalho, mais se agrava a situação constroem esse consentimento à injustiça. 
O domínio da presentificação do tempo não ataca apenas alguns docentes “improdutivos”, mas os estudantes. Literalmente como objetos – estritamente objetais-, eles sofrem – efetivamente sofrem - toda a política deliberada do Programa. Como coisas - e Karl Marx chamou muito bem a atenção sobre o fetichismo da mercadoria –, os três estudantes são tratados (!?!?) ... Ora, Se são coisas, não são “tratadas”. “Coisas” não têm sentimentos, não pensam, não desejam, portanto não são tratadas, são descartadas, são peças. Coisas são “avaliadas” (ou avariadas?), não precisam ser avaliadores. Agora entendo porque os estudantes não participam do “processo de avaliação” da instituição e dos docentes. Os estudantes, do ponto de vista dessa lógica, não contam.  Fico pensando com minha cabeça improdutiva: mas eles são a razão de ser da instituição. Sem estudantes, existiriam as Pós? Hum! Acho que não, pois aqui é uma Universidade. Se é assim, por que eles não são ouvidos no processo? Por que eles não avaliam “qualitativamente” de igual para igual? 
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Espere aí: mas os estudantes têm espaço na Pós, têm seus representantes, diriam muitos dos docentes. Seu pensamento não está pensando direito. Você está sendo pensado, diriam. Será que têm razão? Acho que não. O Estatuto da UFPE é ainda da ditadura militar: sua concepção, sua forma organizacional e sua composição. Quando do fim do governo dos militares (e dos civis) – mas não do autoritarismo e da hierarquização –, o País estabeleceu a Constituinte: deputados eleitos com finalidade exclusiva de escrever as novas leis. Isso não foi à toa. O luto precisava ser feito. Era necessária uma nova configuração social, política, organizacional etc Não se podia administrar o “novo” com forma do “velho”. Quer dizer que não haveria legitimidade se não se fizesse isso? A Pós tem legitimidade? Acho que não. Ela tem legalidade, o que é bem diferente. A ruptura com esse imaginário social da ordem autoritária é imprescindível – não foi feito o luto na UFPE –– obviamente para quem defende uma sociedade democrática. Quem não a defende se agarrará ao fantasma e fará dele o bastião da qualidade e dos resultados.  Então não é em nome da Universidade e da Pós que se faz tanta violência simbólica e efetiva? – certamente, Pierre Bourdieu diria: “Não, de todo!” O Capital simbólico será apropriado por certos indivíduos e grupos e estes sairão fortalecidos do processo – lá em Brasília, na ANPED, sabe-se lá. Mas, e as “mortes” e o sofrimento psíquico? O quê? Não, isso não é importante, o importante é que chegaremos lá. Aonde? Sei lá, chegaremos lá, ao ponto 5. Queremos mais: queremos o ponto 7. Mas, é o máximo, o topo. O preço é muito alto. Quantos não terão que “morrer” para alcançarmos isso? Você sabe, a vida é assim. Há aqueles que são competentes, e outros, o seu oposto. O importante é que chegaremos lá. Nada nos impedirá, pois isso é progresso, é racional, é desenvolvimento, é o correto – não temos saída. A verdade estará conosco. 
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Já ouvi essa história antes, diriam outros. Os que sobreviverem contarão a sua história. Isso é História – afirma categoricamente o fantasma. E aqueles que ficam esperneando? Bem, temos que afastá-los; ora, eles esperneiam porque não são produtivos. Essa obsessão por resultados para sermos simplesmente reconhecidos por Brasília é um absurdo – do ponto de vista do bom senso e do racional. As Pós não fazem discussões profundas sobre a formação dos estudantes – do ponto de vista da formação intelectual, da “qualidade” das disciplinas - em nosso caso, do papel e importância da Pós para Pernambuco (e para o Nordeste) -, inexistem reflexões e projetos institucionais com o Nordeste, pensando o Nordeste-, e, agora, pensando a América Latina (o ALAS abriu essa possibilidade); inexiste, também, reflexão da Pós com os governos (municipais, estaduais e federais) – na verdade, a Pós é utilizada como objeto (“coisa”) dos governantes. Precisamos problematizar, não podemos ficar a reboque da quantofrenia dos governos e empresários. Precisamos colocar nossos conhecimentos a favor do MST e de outras organizações de trabalhadores sem terra, sem teto, sem universidade, etc – mas é preciso vontade política para sentarmos e construirmos coletivamente, junto com todos os estudantes da graduação e das Pós, e com os servidores, um projeto político-social que aponte um compromisso social efetivo. A Pós do governo federal é um órgão público (pelo menos deveria). Ela tem que estar a serviço do nosso Povo. O seu caminho diz respeito não somente a quem faz parte dela, mas dos que estão fora. Acho até que podemos e devemos elaborar projetos, concursos, com a finalidade de discutirmos os graves problemas social-educacionais. Mas como poderemos fazer isso e outras coisas se estamos escravos dos resultados, da mediocridade? A situação social e política é grave no contexto em que vivemos. Não podemos ser cúmplices e irresponsáveis pelos graves problemas sociais, econômicos, éticos e ideológicos que atravessa a Pátria nesse momento.
Essa carta é uma conclamação aos docentes, estudantes e servidores ao bom senso, ao pensamento aberto, não somente do CE, mas de todos que têm o direito e o dever de se posicionar politicamente sobre as questões das instituições públicas e os graves problemas sociais nacionais e locais. Essas questões da quantofrenia são um problema político, e não técnico (de regras matemáticas de pontuação). Não há como fugir da posição política. Seremos cobrados por isso. Não adianta dizer que a culpa é da CAPES. Não podemos mais nos esconder e adotar a amnésia e a política da avestruz como prática política.   
Uma outra Pós-Graduação é possível...
Recife, outubro de 2011

Evson Malaquias de Moraes Santos


*Conforme Gaulejac, “a quantofrenia designa uma patologia que consiste em querer traduzir sistematicamente os fenômenos sociais e humanos em linguagem matemática”. Conferir Gestão como doença social. Idéias e Letras. (p.94)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Considerações sobre o Bullying...

Acho que chegou o momento de não mais aceitar os atos de bullying a que venho sendo submetido desde criança. Basta! Já durou o suficiente e os responsáveis devem pagar, e caro, por esses longos anos de sofrimento, saibam que sairei à caça daqueles que um dia me ofenderam. Essas ações foram emblemáticas para que me transformasse naquilo que sou hoje: um sujeito recalcado, tímido, antissocial, violento e, acima de tudo, rancoroso! As desculpas, agora, já não me importam, colocarei em prática os ensinamentos do velho testamento: comigo será, olho por olho, dente por dente. Pensando bem, e para evitar ter que explicar as razões de não ter procurado ajuda ao longo de todo esse tempo, vou me suicidar assim que concluir meu plano de vingança!
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Para mim o bullying começou muito cedo, entre os 3, 4 anos quando ganhei minha primeira e nada lisonjeira alcunha. Aliás, são poucas as que não são depreciativas. Como não conseguia levantar da cama e chegar até o banheiro, fazia xixi ali mesmo, logo fui chamado de mijão. O fato é que essa "incontinência urinária" me obrigou a ter que vestir uma espécie de macacão/jardineira marron todas as noites antes de dormir. Eu juro que não fazia porque queria, até que tentava evitar, o problema é que sonhava que estava no lugar certo, porém logo percebia que não quando sentia o líquido quente inundando minha roupa de prisão! Era terrível, já sabia que logo pela manhã seria execrado por aquele ato, frente aos outros irmãos, que sorriam da minha infelicidade, ah, como desejei matar minha mãe e irmãos por tudo aquilo! Superada essa fase, pensei que estaria livre do bullying, que nada, a tormenta mal começara, embora não soubesse. O segundo momento de exposição ao bullying veio quando chegou a hora de aprender a dar o nó/laço nos sapatos, meu Deus, como aquilo parecia difícil. Achava que jamais conseguiria transformar os cadarços em um nó/laço, e olha que o movimento era repetido à exaustão, mas quem disse que era possível que eu fizesse aquilo? Sem titubear, logo me arranjaram um novo apelido muito rapidamente: "Ele é muito burrinho nunca vai aprender!" Se eu pudesse, eu matava quem ousava colocar aqueles apodos em mim, mas era muito pequeno e fraco, quem sabe quando crescesse, um revólver não resolveria o problema?!
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Quando cheguei à escola, lá estava a professora dos meus "sonhos"! A famosa dona Semira, mestra que cometia as maiores atrocidades (assessorada por sua filha dona Raimunda, que era meio vesga), em nome da Educação, desde a já extinta palmatória, até colocar os estudantes de joelhos sobre grãos de milho, o aprender ali não era nada fácil. Sem falar no mais temido dos dias, já que tinha o dia de tudo, o dia da tabuada e a sua famosa sabatina! Na verdade, o objetivo nunca foi aprender e sim tomar o menor número possível de "bolos", porque não tomar nenhum era impossível, mesmo decorando, como não esquecer diante de tamanha pressão?! Havia um cheiro, que sinto até hoje, indicativo de que faltava pouco para chegar à escola. Quando estava próximo à padaria e seu cheiro forte de café torrado, meu coração disparava, pressentia que o momento dos horrores estava prestes a começar, como gostaria de voltar para casa, desejava tudo naqueles anos, menos estudar! Mudei de escola, todavia a situação mudou muito pouco, já não havia a palmatória. Fui presenteado com  mais uma professora marcante. Seu nome? Dona Zelândia. O bullying dessa aí quase fulminou um moleque de apenas sete anos. A infeliz, em uma prova de ciências, pediu o nome de três insetos, fiquei a manhã inteira e o único inseto que me lembrei foi a barata. Cansada por ver o aluno sucumbir à prova, lançou no ar a frase que não poderia ser dita a nenhuma criança: "esse menino não vai a lugar algum, é burro demais!" Pois é, a forma de ensinar não mudara a única coisa que mudou foi a desinência da alcunha, seu diminutivo desaparecera! Outrossim havia adultos que diziam, quando me viam brincando com outras crianças, às vezes, seus filhos: "puxa, como esse menino fala alto!" Oh, como eu queria morrer ao ouvir isso, tentava falar baixo para não ter que passar por esse constrangimento! Lembro-me de Dona Nicinha, que não era era professora, e sim a mãe de outra criança, dizendo: "você não sabe falar mais baixo, menino?!" Vieram outras alcunhas: cambota, pernas de alicate, cangalha, pernas de caubói, entre outras! Fui suportando a tudo e acumulando meu ódio por aqueles que me massacravam! 
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Na universidade, o falar alto ajudava e atrapalhava. Ajudava pois conseguia atingir, sem precisar de microfone, até o último estudante; atrapalhava quando informalmente devia baixar o tom, mas quem disse que conseguia? Também o ensino superior deixou as suas marcas. Havia uma professora, de quem gostava muito, que disse, certa vez, para a sala repleta: "quem fala alto não tem educação!" Não aceitava, mas entendia quando ouvia isso das minhas primeiras professoras, afinal não haviam passado pela academia, mas como entender uma professora universitária, com doutorado na França, dizendo isso a um estudante? Saibam que o respeito se transformou em desprezo. Eu sabia que era uma pessoa educada, que falava alto não porque queria, quem sabe se uma fonoaudióloga não resolveria meu problema? 
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Bem, ao chegarmos até aqui, você deve estar se perguntando: será que ele irá cumprir a promessa de eliminar um por um a todos aqueles que o ofenderam? O fato é que a trajetória da criança que vivenciou todos aqueles constrangimentos, hoje um adulto com todos os problemas que afligem a grande maioria de nós, é a mais pura verdade, menos o desejo de sair por aí com uma arma em punho eliminando todos aqueles que, ao longo desses anos, caricaturaram-no, deixaram-no envergonhado por certo atributos que o acompanham, por exemplo, falar alto, ter as pernas tortas, entre outros! Para ser sincero, é preciso que se diga que só foi feito o desenho da face da vítima, só falei daquele que impingiram sofrimento, só mostrei o perfil daquele que sofreu ações de bullying em muito momentos de sua vida. Mas onde está o lado algoz desse sujeito?  Será que não cometeu nenhum deslize? Quem foi que nunca chamou alguém de cabeção, orelhudonarigudo, burro? Recentemente, um comentarista esportivo, aqui de Salvador, reiteradamente, chamou o colega de cabeça de arromba navio, essa é das antigas! Quem nunca deu uns cascudos no amigo ou colega, no baba, na escola ou em outros lugares? Quem não cometeu nenhuma maldade que atire a primeira pedra!? Neste caso, havia um garoto em sua infância que só chamava de aleijado,  e o moleque respondia: "onde eu encontrei, eu deixei!" Só bem mais tarde ele entendeu o que o aleijadinho queria insinuar. Não estou com isso querendo dizer que as ações de bullying são inofensivas e que não se deve tomar providências para evitá-las, mas que não se pode buscar nestas ações os perfis de franco-atiradores e outros criminosos que a mídia e outros vêm nos vendendo a cada massacre que acontece, empurrando, dessa forma, a poeira para debaixo do tapete, sabemos que o buraco é mais embaixo. Porque se assim fosse, se todos aqueles que sofreram/sofrem ações de bullying saíssem por aí matando, não sei se restaria alguém para contar essa história...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Saúde do homem: falta educação?...

Há cerca de dois anos, mais ou menos, participei de uma conversa "informal" por demais interessante a respeito de determinada "disciplina" fazer ou não parte do currículo de um curso da área de saúde. Naquela ocasião perguntara qual a razão de o componente curricular saúde do homem não fazer parte da grade do tal curso já que havia um similar em relação à mulher. Dissera minha interlocutora que não havia necessidade no currículo de uma discussão com esse enfoque(?). A fala sugeria, em linhas gerais, que aquela não era uma temática relevante(?), penso eu, devido aos muitos "privilégios" que os homens já possuíam ou possuem na maioria das vezes! Todavia as campanhas do ministério da saúde demonstram claramente o quão aquela professora se enganara, além de, inadvertidamente, reforçar preconceitos!
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Não deve ser segredo para ninguém que muitos homens, indivíduos fanfarrões por natureza, desconhecem coisas importantíssimas sobre sua saúde e, para agravar a situação, alguns profissionais que poderiam contribuir na superação dessa ignorância agem ou pensam tal e qual o senso comum. O que parece claro, a partir da "discussão" sobre o currículo, é que a "displicência" na formação profissional no trato de assuntos  importantes, em alguns cursos, senão em todos da área de saúde, termina trazendo conseqüências desastrosas a quem mais interessa: aqueles que procurarão pelo sistema de saúde. É fato que a forma como a questão é tratada faz com que o senso comum permaneça soberano, levando a maioria dos indivíduos a pensar que não precisa saber ou que já sabe tudo a respeito do seu corpo! São tantos os tabus masculinos que muitos homens morrem ou por desconhecimento ou porque só procuram ajuda quando a situação já está quase sem solução, levados por uma "macheza" decadente! Um bom exemplo são os exames de próstata. Sabe-se que por causa de uma estupidez milenar, muitos "protelam" o quanto podem o tal exame e quando não há mais como evitar a pergunta que se fazem é: "PSA (antígeno prostático específico) ou Toque retal?" Na maioria das vezes, buscam mil alternativas para fugir do temível toque! Alguns chegam a mentir. Há os que afirmam em alto e bom som que por causa do seu PSA baixo não houve necessidade do toque retal, quando na verdade um sem o outro não se configura um diagnóstico completo, neste caso, por que mentimos então?
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Há uns três meses, mais ou menos, fiquei extremamente assustado quando uma das minhas mamas começou a crescer! O curioso é que muitos homens não sabem ou desconhecem que possuem duas! Perdoem-me, mas uma digressão, aqui, se faz necessária para mostrar o quanto  a falta de informação e a  ignorância independem do estrato social do indivíduo. Estou me referindo à declaração infeliz do então governador do Paraná, Roberto Requião de Mello e Silva, e sua ironia a respeito do câncer de mama?! A argumentação do governador, eivada de preconceito, mostra como o desconhecimento de questões fulcrais acompanha muitos daqueles que, em tese, deveriam estar contribuindo com ações educativas sobre o assunto! O que o governador desconhece é que  ele, assim como todos os homens, também está sujeito ao câncer de mama, e não apenas "aqueles" que ele preconceituosamente nomeou! 
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O fato é que o crescimento da mama, acompanhado de uma dor fortíssima, começou a me preocupar e muito (e olha que não fizera uso de nenhuma substância, ou qualquer coisa que o valha, que estimulasse seu crescimento). Na verdade, esse crescimento já acontecera, como é normal, quando estava entrando na puberdade, a essa alteração dávamos o nome de "pedra", embora o nome seja outro. Esse acontecimento era uma sinalização que estávamos "amadurecendo", esse fenômeno pode ser repetir a partir dos 40 anos e é conhecido  como ginecomastia! Estranhamente, sequer sabia a que especialista recorrer, não aprendera quando devia, embora isso não justifique minha ignorância! Alguém sugeriu que procurasse um urologista, aquiesci de imediato. Infelizmente, para mim, não, não era a um(a) urologista que eu deveria recorrer e sim a um(a) mastologista! A ironia é que a informação sobre a qual profissional recorrer me fora dada por uma pessoa comum! O que eu desconfiava era que, nestes casos, o percentual de mulheres pode chegar a 100% nas consultas! Para falar a verdade, em todas elas sempe havia pelo menos um homem (eu) o que derruba minha tese!
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Na realidade, a ginecomastia sugere alguns exames nada "interessantes" para efetivação de um diagnóstico! No primeiro momento, soube que deveria ser submetido a uma mamografia! Antes, que não sou bobo, perguntei a duas mulheres se era um procedimento assustador, porque o nome era! É isso mesmo que você está pensando: homens são medrosos, embora posem de valentes! Recebi duas respostas totalmente opostas: DOÍA muito e não!? Para minha surpresa, as duas estavam certas. O fato é que algumas mulheres sentem muita dor, enquanto outras, nem tanto! A dor está associada ao tamanho da mama, quanto menor, mais dor! Como as mamas dos homens costumam ser minúsculas, vá imaginando aí o meu sofrimento! Para mim a dor foi tão intensa que só não desmaiei porque o exame dura apenas alguns segundos, mas que parecem uma eternidade! "Senti" mais ainda ao saber que teria que repetir! Uma coisa não pode ser esquecida: no dia do exame é recomendável não usar desodorante, perfume ou talco, porque podem deixar resíduos que interferem no resultado! Encurtando a história, o segundo passo era fazer uma ultrassonografia (esse totalmente indolor!), para minha felicidade, os dois exames não constataram nada de grave, embora ainda esteja à espera do diagnóstico final, é que tive que trocar de mastologista, sabe como é a saúde no Brasil!? O fato é que hoje detenho um conhecimento sobre minha saúde que deveria ter adquirido lá na minha adolescência, mas como dizia minha avó: "antes tarde do que nunca", não é mesmo?...  

quinta-feira, 18 de março de 2010

Calvário dos estudantes...

Estudar no Brasil, pelo menos por enquanto, ainda é um privilégio para poucos. São tantas as dificuldades a se enfrentar que as desistências não são poucas. Hoje vemos como o Estado, através do Sisu (sistema de seleção unificada), tenta minorar essa situação usando o subterfúgio do ENEM (exame nacional do ensino médio) e sua ciranda: as vagas aparecem, desaparecem e reaparecem como num passe de mágica, essa instabilidade deixa os estudantes apavorados! As siglas citadas nada mais são que um remédio "novo" para uma doença incurável chamada vestibular! Estamos falando do primeiro momento desse grande funil que é a entrada na universidade. Logo, logo, o estudante vai  perceber que ser aprovado no vestibular, ou seja lá o que for que "eles" usem como mecanismo de entrada na universidade, é parte mais fácil dessa ópera bufa! Na verdade, a maior dificuldade é se manter no curso escolhido com qualidade! A grande ironia é que alguns dos que defendem as famigeradas cotas raciais dizem que os estudantes que entram por esse artifício se saem melhor do que aqueles que entram pelo vestibular, ora, por que ao invés da defesa do privilégio da reserva de vagas esses arautos não pregam a extinção do exame?
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Por outro lado, depois que a etapa da graduação é superada, não acabam aí os problemas, em breve, surgem outros que já se manifestam nos momentos finais dos estudos universitários, entre eles o mais agudo é o medo de não conseguir uma colocação rentável que possa proporcionar uma vida com "vacas nem tão magras" como aquelas do período da formação inicial! A pergunta que persegue o estudante o dia todo e todo dia é: "será que vou conseguir um emprego decente quando sair?" O fato é que poucos são aqueles que conseguem realizar o sonho da colocação perfeita, na sua grande maioria, vemos que para se ganhar uma renda razoável é preciso fazer diversos "bicos" para atingir o tão sonhado padrão pequeno-burguês, cantado em prosa e verso como a meta humana! Além de tudo isso, ainda existe a situação esdrúxula que se tornou comum nestes tempos acelerados: os estudantes pensando na sua afirmação no mercado de trabalho e na possibilidade de garantir os tais "bicos", iniciam os estudos de pós-graduação em plena graduação!?!? É isso aí, no Brasil o absurdo tem precedente!!
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Na verdade, a falácia da inserção em curso superior encobre o grande engodo que é vendido a todo momento: vencer na vida depende, em grande parte, de esforço individual! Não nos esqueçamos que muitos daqueles que acreditam nas cotas raciais afirmam que a entrada via reserva de vaga supre parte da reparação devida aos pretos, mas a que pretos eles se referem? Aos que vivem nas periferias das grandes e pequenas cidades e (sobre)vivem no subemprego e em suas moradias precárias ou àqueles que de alguma forma têm voz e podem custear um curso superior? Estudar no Brasil, infelizmente, não é para qualquer um! Haja vista os valores de livros e outros apetrechos necessários aos estudos. Há um discurso hipócrita que sinaliza que as cotas estão endereçadas a todos! Na verdade, só os "bem-sucedidos", pretos ou brancos, chegarão ao tão sonhado "sucesso"! Os que não fazem parte desse séquito que lograrem ter acesso à universidade, são a exceção que confirmam a regra, é a doação de alguns anéis para não se perder os dedos...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Professores e Deputados...

Recebi, via "mala direta", um "documento" pedindo minha adesão a uma causa das mais nobres. No referido "santinho" é sugerida uma pressão popular sobre o congresso para que deputados elaborem lei que os obrigue a colocar seus fillhos na Escola Pública. Logo na introdução do "panfleto", o "missivista" não só acha genial a idéia, como parece que descobriu a roda com a proposta. Segundo essa genialidade, a "punição" imposta aos parlamentares os faria legislar em causa própria e é justamente o que quer o "documento"! Como os senhores deputados não iam desejar ver seus filhos estudando no lugar onde os pobres estudam, por isso a qualidade fica a desejar, elaborariam leis que visassem a recuperaçãao da Escola Pública! É isso, quem elaborou o tal docuemento deve ter tido uma "iluminação aristotélica", pensou o genial autor: os deputados são membros do poder legislativo, logo são eles responsáveis pelo ordenamento legal que pode salvar a Escola Pública e todos, assim como os filhos dos deputados, poderão estudar naquele espaço, pois a educação por lá será da melhor qualidade! O mais estranho é que essas vozes costumam esbravejar com a atitude dos parlamentares que, em sua maioria,  advogam em proveito próprio, todavia desde que tirem uma "lasquinha", aceitam descaradamente esse comportamento como uma grande contribuição.
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Professores, assim como outras categorias profissionais, são hipócritas! Discursam veementemente contra a exploração, as políticas públicas e outros, nos espaços das salas de aula, porém no cotidiano reagem tal e qual aqueles que o IBGE chama de "classe média", só que algumas "letras" abaixo que os ilustres parlamentares! Certa oportunidade conversava em uma roda de docentes e a discussão "escorregou" para Escola Pública. Todos a defendiam com unhas e dentes. Faziam críticas a estudantes que não valorizavam atuar naquele espaço "santificado"! Eis que de repente, apareceu a pergunta que é o "tendão de aquiles" desses "defensores" da educação popular: "seus filhos estudam na escola pública?" O mais estranho é que dentre os que faziam parte daquela roda, nenhum, eu disse, nenhum, tinha os filhos estudando na Escola Pública!? Usaram os argumentos mais indecentes para justificar essa contradição, ou seja, aqueles que defendem a Escola Pública, a defendem para os filhos dos outros, dos pobres, em linhas gerais, os seus filhos, não, jamais em tempo algum! O fato é que se consideravam bons professores, eram professores que atuavam no espaço sacrossanto da Escola Pública, não obstante entendiam que seria um erro permitir que seus rebentos frequentassem seus espaços de trabalho!! As justificativas eram as mais injustificáveis possíveis, contudo houve uma que até hoje não consigo esquecer, pela "riqueza" da metáfora, disse o professor do alto da sua sapiência e com toda sua solércia: "se eu posso dar ao meu filho uma FERRARI, por que fazê-lo sofrer com um fusca?" Como são semelhantes esses professores e seus deputados; os primeiros querem que a Escola Pública seja tão boa quanto a escola que os filhos dos segundos estudam, pois ainda que os filhos de ambos estudem na PRIVADA, a privada dos deputados é muito melhor...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Doutorando...

Domingos Frias de Bragança, sem bajulação ou acordos espúrios, ingressou em um curso de doutorado de nível 7. Caso não saibam o que isso representa, é o maior nível de um programa de pós-graduação no Brasil. Ficara deveras orgulhoso com o feito! Adepto fervoroso daquilo que é conhecido como meritocracia, herdara do pai a vocação. Sabia que nascera para a profissão que escolhera! Nunca se perguntara qual a razão de, geralmente, filho de médico ser médico, assim como, filho de advogado ser advogado, aqui, e apenas aqui, a expressão filho de peixe... é verdadeira! Acreditava que o mundo social tem uma lógica justa, uma certa hierarquia, que deve ser respeitada e obedecida a qualquer custo, sob o risco de atrapalhar o bom funcionamento do sistema, caso aconteça qualquer intempérie. A verdade é que a produção no modo capitalista é caótica e desordenada, mas isso nosso herói não tinha conhecimento ou achava que era algo que não devia se preocupar! Àqueles que questionavam esse "modelo", afirmava que caso não houvesse essa divisão hierárquica, ninguém ia desejar estar nos postos mais baixos na escala do trabalho, os garis são um bom exemplo disso! Machado de Assis ironicamente diria: "aos vencedores, as batatas!" Alguns serão faxineiros, outros, pelas mãos da meritocracia, doutores! E olhem que Domingos Frias de Bragança não tem nenhum parentesco com Bóris Casoy
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Com a inserção na pós-graduação, fizera, mais que rapidamente, aquilo que é de praxe quando se obtém algum produto no mundo acadêmico, uma ampliação no seu capital cultural, como diria Bourdieu, atualizara seu currículo lattes. Aqui, torna-se necessária uma pequena digressão. Quando se chega a este nível de escolaridade, os indivíduos se intitulam doutorandos! O fato é que ninguém se diz graduando quando na universidade, usa-se como artifício o nome do curso, lógico quando este dá certo destaque ao estudante, tipo: "faço medicina"; ou vocês já ouviram alguém dizer sou graduanda em direito ou em matemática? Nesta história, que ora lhes conto, o indivíduo colocou no seu lattes que era doutorando, mas saibam que ele não é o único, 10 entre 11 pós-graduandos proclamam esse "titulo", o que não deixa de ser sarcástico, para não dizer grotesco. A ironia é que há estudantes que quando terminam sua graduação já se dizem doutores (sic). Mas o que vem a ser doutorando, afinal, neste mercado? Será algum nível de excelência? Algum título nobiliárquico? Doutorando não é título, embora seja usado como tal! Convidados que são para congressos e afins, esses "nobres acadêmicos" não se fazem de rogados, inflam o peito e tascam logo no folder: fulano de tal, doutorando! Alguns mais ousados, quando o nível do doutorado é de 5 em diante, não deixam de colocar mais esse dado, isso lhes dá maior visibilidade! O fato é que o currículo lattes se tornou a principal dor de cabeça acadêmica, é hoje o instrumento oficial e responsável pela divulgação da produção científica brasileira. Necessário se faz enchê-lo de penduricalhos para mostrar o quão se é eficiente. Nesta lógica, tudo tem que ser transformado em mais um produto para que os olhos dos órgãos de fomento, como a Capes e o CNPQ, brilhem a favor dos postulantes às bolsas e/ou outros "ganhos"!
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Minha digressão, que seria pequena, fugiu-me ao controle! Voltemos aos problemas do nosso doutorando. Domingos Frias de Bragança descobriu que muitos dos seus professores tendo sobre suas cabeças a espada da produção, encontraram uma saída, no mínimo, suspeita, para que pudessem dar conta do esforço descomunal que é produzir artigos como máquinas! Aliaram a produção dos seus orientandos às suas! A pesquisadora Beatriz Alencar d'Araujo Couto mostra indignação ao analisar a questão, diz ela que isso é: "apenas um exemplo de tudo o que seres humanos são capazes de fazer por alguns minutos de glória ou trocados para financiar pesquisa, não fosse encobrirem uma mudança insidiosa que parece lançar uma grande parte dos pesquisadores atualmente a direcionar a pesquisa para garantir os índices de produtividade que os órgãos de pesquisa pariram sem maiores explicações." Mas o que vem a ser isso na vida do nosso estudante, perdoem-me o ato falho, doutorando? Já incorporado ao locus acadêmico, sabe que não passa de mão-de-obra barata nas mãos do orientador, metaforicamente, é o gari dessa escala hierárquica, que ele, ainda assim, defende! O fato é que descobriu que muitos dos seus professores, costumam "mudar o título e fazer ligeiras alterações no conteúdo e publicar em diversos periódicos," o mesmo artigo! Entretanto mesmo sabendo como o sistema funciona, mesmo sendo um explorado a serviço dessa "máquina", Domingos entendia que, como fiel adepto da meritocracia, isso não era/é algo indecoroso, muito pelo contrário, concorda que faz parte das regras do jogo. Explicava que num futuro nem tão distante, fará o mesmo com seus futuros orientandos! Para provar que estava certo, lançou um desafio, sugeriu que se perguntasse a qualquer doutorando se preferia brigar por uma mudança radical no modelo em voga, correndo o risco de não ter seu diploma de doutor reconhecido pela CAPES, ou aceitar esse darwinismo acadêmico, Domingos Frias de Bragança assinalou que 100% dos doutorandos, se consultados, ficariam com a segunda opção!

Esse tipo de raciocínio é mais cômodo para a academia por esta se encontrar à mercê dos órgãos de fomento, afinal, há a dependência de bolsas e outros recursos. O mais importante é que se cumpra os tais índices de produtividade, embora haja queixas e reclamações quanto ao modelo, "todos" continuam, como carneiros, atualizando seus lattes, fazendo suas pesquisas, dando suas aulas. Nietzsche dissera no século XIX que: “é o rebanho que busca se igualar aos demais e assim dissimular sua mediocridade.” Aquele que, por alguma razão, deixa de cumprir esses "requisitos", é sumariamente alijado da elite que produz artigos em profusão, o que confirmaria a "tese" do nosso doutorando. Note-se que o quadro é sombrio. Muitos dos que poderiam se opor compactuam com o modelo, mais preocupados com suas pesquisas, seus diplomas e/ou as retaliações dos seus orientadores! Felizmente há os que se incomodam com o produtivismo que impera na ciência hoje em dia, para esses e apenas para esses, é fundamental que assumam os riscos de uma outra possibilidade, que assumam os riscos da criação de outros valores éticos, que assumam outro modus vivendi, pois quem é espectador deste teatro de absurdos, parafraseando Glauber Rocha,  ou é cúmplice ou é covarde...

sábado, 18 de abril de 2009

A gente também quer comer...

Costumo, de forma irônica, utilizar a expressão "teoria do beija-flor" quando percebo que alguém, ao fazer a sua parte no "incêndio florestal", mostra um sentimento de dever cumprido. Muitos a utilizam por conta do seu efeito sedativo, afinal, "todos" querem ir para o céu, e uma boa ação diária é a primeira das premissas, pelo menos é o que "eles" pensam! O resultado dessa boa ação é um "sorriso estampado na face de quem a recebeu". Temos aí a conclusão mais óbvia: "há algo mais belo que o riso agradecido no rosto de uma criança?" Exemplos temos aos borbotões, mas fiquemos com um que é emblemático: o "criança esperança", a maior filantropia com o dinheiro alheio já visto ao longo dos últimos anos, ligue e doe!
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Voltemos à "teoria do beija-flor", o momento mágico das boas ações, onde fazemos a nossa parte neste grande latifúndio de miseráveis. O que queremos é ficar com a consciência tranquila, para isso, ajudamos o próximo que está em condições insatisfatórias (perdoem-me pelo eufemismo), sim, porque não há nada mais humilhante do que ter que pedir, seja o que for, para sobreviver. Estou falando sobre isso, porque fiquei intrigado com a felicidade de Rodrigo Ratier, em texto escrito na Revista Escola, de abril, que teve como meta a ampliação do número de livros lidos por aqueles que, em tese, não têm esse hábito, por isso, a partir daquele momento, não mais daria dinheiro "aos pedintes, artista circenses e vendedores ambulantes que fazem do congestionamento da cidade de São Paulo seu ganha-pão." Distribuiria livros para aqueles que não poderia comprá-los, a ação nos leva quase que imediatamente ao "a gente não quer só comida". A música embalaria a leitura daqueles pobres desvalidos que têm fome! Parece que nem sempre precisamos de comida, livro, conhecimento é fundamental, embora saiba que para ler não basta saber ler! Leitura não se resume à simples decodificação de caracteres! Será que o ato de apenas entregar livros nos semáforos e adjacências pode alavancar um processo de leitura para além da simples decodificação de caracteres?
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Recusar-se  a dar outra coisa que não um livro pode fazer um bem danado para quem "pratica a ação", contudo não tenho certeza se a recíproca é verdadeira! Almoçava com minha filha, recentemente, quando no meio de uma "garfada", um garoto nos abordou e, sem meias palavras, pediu: "pague um almoço para mim!" Olhei para Manuela Cássia, que me devolveu um olhar que no momento não consegui decodificar o que queria me dizer! Naquele momento, ainda não tinha lido a crônica do doador de livros (quem sabe não tiraria um livro da pasta e entregaria ao garoto?), nem pensei na "teoria do beija-flor", ou que é fundamental não dar o peixe, mas ensinar a pescar. Não pensei em nada disso, naquele instante fugaz. Não titubeei e paguei a comida para o moleque! Sei que não resolvi, em nenhum momento, o problema dos famintos, sei bem que resvalei, e muito, na "teoria do beija-flor", mas naquela hora, não perdi de vista o que escreveram, aqueles alemães nascidos no século XIX, na Ideologia Alemã: "de modo nenhum se pode libertar os homens enquanto estes não estiverem em condições de adquirir comida e bebida, habitação e vestuário na qualidade e quantidade perfeitas.", pois é, para fazer História, a gente não quer só comida, mas a gente precisa comer...

sexta-feira, 7 de março de 2008

Esporte, Escola, Gugas e Ronaldos: "fenômenos"...

O esporte é um fenômeno poderoso, dotado de uma capacidade extraordinária de usar a emoção como instrumento de convencimento! Se fôssemos dar um nome a esse convencimento bem que poderíamos chamá-lo de alienação, "tolos sois vós!", diria o professor/torcedor. A força de persuasão é tamanha que consegue pulverizar tantas outras manifestações culturais! Por outro lado, a Escola Pública como uma instituição cujo principal objetivo é possibilitar o acesso do indivíduo à cultura em toda a sua plenitude vai perdendo, pouco a pouco, sua capacidade, desgastando-se nos seus princípios já que não consegue responder aos anseios postos pelos novos tempos! Hoje é mais importante discutir se Guga vai continuar jogando a bolinha amarela de um lado para o outro da quadra do que, por exemplo, estimular os jovens a se apropriar de outros conhecimentos que poderiam "desaliená-los"! A leitura é uma coisa chata, escrever é uma grande perda de tempo! Quem precisa disso se temos, eles dizem, à nossa disposição, os famosos control C + control V! Lavosier, químico do século XIX, dizia que "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", dizemos nós: "hoje, nada se cria tudo se copia, irônico, não? O sonho dourado das crianças e adolescentes não é estudar, a escola pública está agonizando e isso é muito bom para a iniciativa privada, que assume um espaço que vai sendo abandonado por aqueles que já não acreditam na capacidade desta ensinar e educar os sujeitos! Neste sentido, os desejos são direcionados para outros caminhos, bem mais rentáveis do que estudar. A meta agora é ser jogador de futebol, ter a "sorte" de ir jogar na Europa, mais precisamente na Itália, quiçá, Espanha; caso isso não seja possível, não tem problema, pode ser nos confins do cazaquistão, desde que ganhem uma merrecazinha a mais do que aqui nestas plagas! De outro modo, ser tenista é muito mais difícil, não é fácil se tornar um novo Guga e ganhar o torneio de Roland Garros! Tanto Guga quanto Ronaldo choram em cadeia nacional porque seus corpos já não agüentam mais os esforços que lhes foram cobrados, execessivamente, ao longo das suas curtas carreiras (ainda não fizeram 35 anos!) por um Esporte que alguns ainda acreditam que é saúde e um grande instrumento de educação!
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Usando de uma figura do boxe, há professores que já jogaram a toalha, entendem que a Escola Pública não serve e não ensina nada! Os estudantes que estão lá, eles dizem, não querem nada! São passivos e não conseguem aprender o mínimo necessário, portanto são os verdadeiros culpados do desastre que a escola pública se tornou; talvez, isso eles não dizem, pelo menos abertamente, sejam menos inteligentes que os estudantes da escola privada! Pensando friamente, vemos que tudo isso não passa de falácia! Desculpa para boi dormir, como diria a minha avó! Ora, vejo todos os dias esses mesmos professores que lecionam nas licenciaturas da vida fazendo discurso sobre o papel que a escola pública deve representar na vida dos estudantes e que é fundamental respeitar o conhecimento que o estudante traz! Geralmente os professores que estão nas privadas, são os mesmos que estão nas públicas, neste sentido, podemos então levantar duas hipóteses possíveis. A primeira, diz que o professor não é importante no processo de ensino/aprendizagem justamente porque uns aprendem e outros não, tendo os mesmos professores!? A segunda, bem mais perversa, afirma que o estudante da escola pública é menos inteligente, logo seriamente incompetentes e por isso não aprendem!
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Fugindo de um suposto maniqueísmo que pode ser levantado pelos defensores do mito de que vivemos em um "estado democrático de direito", existe algo que é bem visível, só não ver quem não quer, não é preciso ser um gênio para perceber a sutileza. A derrocada da escola pública além de solidificar a posição da privatização da educação em larga escala, ainda permite que aqueles que utilizam a velha e corroída Escola Pública sequer tenha o mínimo e o ruim do que ela ainda oferece! Não se está querendo dizer com isso que somos partidários do "ruim por ruim", é melhor que ela seja assim! Não é esse o X da questão! Ao abandonar a escola pública ao sabor do mercado, aqueles que supostamente a defendem no discurso, mas não querem que seus filhos passem, sequer pela porta, confirmam a tese de que o dinheiro deve ser determinante para que se tenha acesso à educação de qualidade, com isso concordam que ela deve ser uma mercadoria de alto luxo e só os bem-nascidos devem usufruí-la! Isso não seria um contra-senso? Os professores que entregaram as armas não estão dando um tiro no pé? O que seria da iniciativa privada se a escola gratuita fosse eficiente? Se a escola pública fosse interessante para onde iriam as escolas privadas? Não lutar para que o ensino público seja de qualidade não é propor, de forma subreptícia, a segregação? Se continuarmos nesta direção, não estaremos, logo, logo, só permitindo o acesso aos bens construídos pela humanidade apenas aos bem-nascidos? A Escola, nestas circunstâncias, será feita para os que estão no alto da pirâmide, àqueles que estão abaixo dela estará reservado o "inferno", apenas aprenderão o necessário para que possam atuar como bestas de carga; todos sabemos que o Estado Capitalista é parcial, excludente e segregador, o absurdo dessa questão é que nós continuamos a defendê-lo, por mera ignorância, como se não fosse histórico...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Pessoas Iluminadas...

Há uma canção de Gonzaguinha que, na verdade, representa uma grande metáfora sobre pessoas que povoam nosso universo! Dissera ele que "somos as lições diárias de outras tantas pessoas!" Este é um verso belo e singular, além de nos tornar cientes de nossa humanidade, ele diz: sou? Não, somos! Outro poeta, esse baiano, fez uma indagação a respeito do sentido da vida: "existimos, a que será que se destina?" Sei que este não é o momento, mas não custa provocar, nem que seja a mim mesmo! Por que estamos neste planeta? Faço toda essa elucubração, aparentemente, fora de propósito, por causa de dois processos seletivos que participei. Momentos singulares, por isso, jamais serão esquecidos!
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O primeiro deles se deu quando, há dois anos, tentamos o doutorado na UFPB e sequer imaginávamos o quão doloroso seria e que as consequências posteriores deixariam cicatrizes profundas. Em síntese, ter participado do processo me deu, como "presente", um documento em que estava escrito que o projeto fora aprovado, mas que não fora selecionado! Um verdadeiro prêmio de consolação! Sem contar o tratamento recebido da banca que me argüira. Saibam que estava no Nordeste, mas me senti como se fosse um estrangeiro! Não estou dizendo com isso que devesse ser tratado de forma diferenciada, mas que pelo menos houvesse respeito e isso não percebi no processo, contudo aconteceu algo que me remete à metáfora de Gonzaguinha, lá do início. Quando vou saindo em direção ao portão do campus de João Pessoa, eis que vejo o amigo Lauro Xavier Pires Neto! Isso transformou o meu dia. Além de colocarmos a conversa em dia e almoçarmos, ainda tive o privilégio de assistir à defesa de sua dissertação! Todas essas emoções no mesmo dia! Ainda fui o único a registrar o acontecimento com uma máquina que era analógica, não sei bem por quê, mas queimou o filme, terá sido incompetência do fotógrafo?!
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As pessoas mais próximas a mim sabem que os últimos dois anos foram de recuperação! Nada de procurar assumir coisas que me levassem a um estresse maior do que eu pudesse suportar, embora saiba que não é possível mensurar qual a pressão limite que não devemos atingir, sob o risco de quebrarmos! O "presente de grego" que 2005 me deu foi, aliás já falei exaustivamente aqui, um acidente vascular cerebral que me fragilizou sobremaneira! Disse a mim mesmo que não faria mais seleções, não sei ao certo se por medo de perder ou por me sentir incompetente! Para aumentar a descrença em seleções acadêmicas, ouvi de um professor que sem acordos espúrios a coisa se complica e a aprovação dificilmente acontece! Não me lembro agora quando percebi que poderia participar de outra seleção, mas no início desse ano dei entrada na área pedindo liberação, muito mais para garantir a vaga do que com a certeza que teria coragem de enfrentar tudo aquilo de novo!
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Quando retornei de Santa Catarina, fui enfático ao elogiar o processo seletivo e a lisura no encaminhamento das questões. Disse a todas as pessoas com quem conversei que mesmo que não fosse selecionado, tinha me sentido acolhido, respeitado, como não fora na UFPB (embora ela esteja no Nordeste). Cheguei em Florianópolis sem conhecer ninguém, numa terra estranha e sem ter entrado em contato com qualquer pessoa do programa! Só fomos apresentados aos futuros orientadores no dia da arguição, na defesa dos projetos, já que tudo fora feito pelo número do CPF! Todos os meus amigos já sabem o resultado, mas queria dizer que processos como esses são muito iguais! Ficamos sob tensão doentia, às vezes, chega a ser desumano! Todas as fases, desde a prova até a arguição, foram me dilacerando aos poucos, sem contar o medo, é verdade, o medo de não conseguir! Para variar o resultado final demorou demasiado, aumentando mais ainda o estresse! Meus diletos amigos, saibam que ter conseguido só foi possível pela primeira força que vocês me deram, quando ainda me recuperando do AVC, disseram, sem falar, que eu estava vivo, que ainda não seria dessa vez que eu sucumbiria.
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Como somos "as lições diárias de outras tantas pessoas" e não conseguiria citar todas elas pela exiguidade de espaço, trarei duas figuras emblemáticas que representam muito bem o "início, o fim e o meio"! Rosenilton Santos, hoje um filho que a vida me deu, em outubro, primeiro momento da vereda, no dia da prova, com sua generosidade, ligou para mim, eu em Salvador, ele em Camaçari, e disse-me com a bondade que é característica do seu coração: "vai dar tudo certo, porque você merece, eu estou torcendo!" Ele não tem a dimensão de quanto aquelas palavras foram importantes para que naquele dia eu pudesse escrever e conseguir que o projeto fosse avaliado! O outro personagem dessa história com final feliz, chama-se Alysson de Gouvêa. Na rodoviária, lá em Curitiba, na hora em que pegaria o ônibus para Florianópolis, ele me abraçou, deu-me um beijo e disse-me: fique tranquilo, você vai ser aprovado! Saibam que havia tanta pureza nos seus olhos de menino que balancei e agradeci em silêncio, retendo as lágrimas na garganta! Hoje tenho plena consciência que nada poderia dar errado por estar rodeado de pessoas iguais a vocês: BRILHANTES E ETERNAS COMO OS DIAMANTES!...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Nova Escola Nova...

Vivemos uma fase de pura perplexidade e ao mesmo tempo não percebemos nenhuma alternativa de solução a curto prazo. Há um esgarçamento de tudo com uma velocidade sem medida! Alguém já perguntou: "o que está acontecendo?" Para onde a bússola está apontando? A hesitação é tão grande que algumas instituições perderam o sentido. Certa vez, afirmei em algum lugar que a Escola estava morta, mas naquele momento fazia uma provocação, queria que o debate acontecesse, hoje percebo muito claramente que a Escola perdeu sua razão de existir.
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Este espaço de apendizagem parece que perdeu totalmente o rumo, não há mais significado para muitos dos que lá estão: professores, estudantes, funcionários e outros! Na Educação Infantil encontramos professores despreparados, mal remunerados, sem perspectivas, seu trabalho não passa de algo vazio, temos uma total desvalorização do magistério. Esta situação não é exclusiva deste nível de ensino, se na educação da criança pequena a situação parece ruim, não foge à regra o ensino fundamental. Neste encontramos salas superlotadas, professores com turmas excessivas, ou seja, um quadro muito parecido com o anterior. O estudante não vê razão naquilo que estuda, já que a escola tem como preocupação primordial preparar para o vestibular, mas essa preparação nada mais é que um adestramento puro e simples, o sujeito não reflete aquilo que "aprende"! Se sobressai aquele que consegue decorar o maior número de fórmulas, o maior número de datas, a lógica é essa, quem estiver pensando que isso só acontece nas escolas particulares está redondamente enganado, há nas públicas uma disputa velada para saber qual delas aprova mais, o mais estranho é que em muitos momentos o estudante não sabe sequer articular sua própria língua, tem uma dificuldade imensa de escrever, a razão para isso é bem simples: não é estimulado a pensar!
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Nem é preciso ser professor para entender que salas superlotadas não possibilitam a apreensão do conhecimento, o que se tem é a informação aos tubos! As políticas educacionais que sinalizam os caminhos que a Escola deve tomar julga que as pessoas são todas iguais e que quanto maior o número de estudantes por sala, melhor será! Há casos em que salas são fechadas porque o número de estudantes ficou abaixo da média, essa média pode ser 45, 50 ou mais! E o articulador desse formato acha que todos os sujeitos estão aprendendo da mesma forma, todos são homogêneos, como as carteiras em que eles sentam! Além de todas essas barbaridades, há professores assoberbados pelo número de estudantes sob a sua batuta, sequer sabem, não há como, se a aprendizagem está acontecendo. Imagina se o professor tem seis disciplinas, apenas a título de exemplo, com 45 estudantes, se fizer uma avaliação nas seis terá um número indecente de provas e o que é pior, mesmo fazendo não tem nenhum parâmetro de que a aprendizagem efetivamente aconteceu!
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Nesta mesma linha de raciocínio, tem o que venho chamando de Escola Nova nova! É o "aprender a aprender" em toda a sua plenitude! Em alguns países não há a necessidade de o estudante frequentar as aulas, o estudo acontece por meio solitário em casa ou em qualquer outro lugar, menos na escola! É autodidatismo, não há a necessidade do professor que vai se tornando aos poucos peça de museu, o conhecimento é construído pelo indivíduo e o professor é um mero "mediador" da aprendizagem! Envia-se por e-mail os resultados dos estudos, uma demonstração da nova forma de estruturação escolar. Muitos estudantes adoram, entendem que com os novos meios como a internet e outros, as aulas em sala terão o mesmo fim do CD! Uma nova Escola está nascendo, o que não sei ao certo é se com ela estamos caminhando para a barbarização humana ou se temos um anúncio de um novo ciclo, onde o aprender vai acontecer do mesmo modo em que muitos humanos hoje se relacionam com as pessoas: conversando através das máquinas sem nenhum contato afetivo, pessoal. É, será que ainda somos homens ou definitivamente máquinas é o que somos?...