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segunda-feira, 21 de março de 2016

Não quero ter um milhão de "amigos"...

É quase certo que não seja o primeiro e nem o único a ficar incomodado com a forma, o fato é que a rede de zuckerberg "determinou" que quem "escolhe" os meus amigos já não sou eu, para isso, há sempre um "inocente intermediário" me lembrando o tempo inteiro que "tenho" algum "amigo" que não sei quem é, ou que "conheço" porque ele conhece alguém que eu conheço; sinceramente, não sei o que é pior, se essa "imposição" ou a famigerada lembrança de datas e datas de aniversários para que os "amigos" não fiquem desapontados com o possível esquecimento, ora, amigo que é amigo também esquece do nosso aniversário e o mundo não acaba por isso! O cara tem mil amigos, no preciso dia do seu aniversário, chovem mensagens apressadas e vazias, são "infinitos parabéns"! Mas voltando à oferta de "amigos", nas últimas semanas se repetiu de forma tão aguda que me deixou constrangido a cada nova solicitação; foi pensando nisso que resolvi desobrigar todos aqueles que têm sido "induzidos/obrigados" a se tornar meus "amigos", ao tempo em que peço repetidas desculpas por essa coação que sou responsável, não sendo! Fico imaginando o que a pessoa sente ao receber essa sugestão de amizade tendo "mil olhos" sobre ela esperando para saber qual vai ser a decisão: "então, vai aceitar ser meu amigo ou não?" No meu caso, esqueçam, por favor, a inscrição "talvez você conheça" e digam um sonoro NÃO ao meu "intermediário oculto"! Tenho uma coisa a lhes confessar: vocês não sabem quem sou, portanto, não me adicionem apenas porque lhes avisaram que sou "amigo" de fulano que também é de sicrano e que "juntos" temos  mais de um milhão de "amigos" em comum!"
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Acredito que amigos vamos construindo e, de quando em vez, eles se vão, como tudo na vida, tenho um monte de ex-amigos, e nem eu e nem eles ficamos infelizes com o fim, sabíamos que amizades também apodrecem! Há um "ingrediente" na amizade que é fundamental chamado afetividade, sem ele, pelo menos para mim, entramos na ciranda, muito comum no sistema, da quantidade representando a qualidade, de ser o primeiro em qualquer coisa, do ter mais e ser mais, da disputa tola e sem sentido por mais "curtidas" naquilo que destacamos como importante, porque são aquelas curtidas que determinam o quanto somos"queridos" ou "atraentes" ou "inteligentes", se estamos bem na foto, mesmo que às vezes usemos confusamente um "pensamento" de Bob Marley na certeza que é de Caetano Veloso ou vice-versa, tipo "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é." Essas postagens me obrigam, invariavelmente, a ter um ranking pessoal, onde vislumbro onde fui MAIS e onde fui MENOS! Um amigo, certa feita, se vangloriava da quantidade de curtidas que sua foto recebera, aquela era "a campeã de audiência", quando larguei essa: "mas meu querido, esse número de curtidas não representa nem 10% da sua quantidade de amigos sem face", desculpem-me, mas não resisti à tentação do trocadilho! Não é anômalo curtidas sobre a morte de um ente querido, contudo o "alguém" que postou seu luto, mensura o sentimento de solidariedade e carinho pelo número de curtidas que recebeu! Mundo estranho esse, não?
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Se você achar que tudo o que disse foi deselegante, descortês ou fora de propósito e que poderia ser um pouco mais "educado" com as pessoas que fazem parte do meu ciclo de amigos e/ou me adicionaram recentemente, por favor, releia o escrevi no primeiro parágrafo. Penso que assim como eu fiquei extremamente constrangido por algumas indicações, é provável que muitos dos que receberam tiveram o mesmo sentimento, porém, para não parecer que são grosseiros ou deselegantes, aceitaram o convite que a rede impôs e querem ser meus amigos, neste caso, exerçam sem-cerimônia o direito de me excluir, fiquem à vontade, aliás, alguns desafetos já o fizeram sem a minha permissão e viveram felizes para sempre! Conhecem aquela canção, daquele cantor que todo final de ano, apresenta um novo velho show? Pois é, ele afirma que deseja e quer ter um milhão de amigos, porém, diferentemente dele, não quero TER um milhão... 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Vingadora, Bell, Kannário, quem foi metralhado?...

"E aí! É nós, depois de nós é nós de novo..." De todas as bobagens que Carnaval da Bahia apresenta, talvez a mais hilária seja a "disputa" pela música vencedora. Já li as coisas mais estapafúrdias a esse respeito. O concorrente do Lepo Lepo afirmou, antes de ter sido anunciado vencedor, que ficara muito tenso com a espera do resultado, tinha receio que não fosse o escolhido! Como a festa se tornou extremamente pasteurizada, as tais músicas e o "concurso" seguem no mesmo diapasão. Aliás, em função do alto grau de artificialidade que a festa adquiriu, neste ano da graça, resolveram que deveriam voltar aos velhos tempos e a pipoca, que foi imortalizada na frase de Caetano, "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu", virou glamour, grande parte dos blocos eliminou a corda, pronto, liberou geral, a democracia voltou a reinar no carnaval baiano! É bom que se diga, no meio da "democrática pipoca", havia um turbilhão de isopores laranja(pipoca?), cujo conteúdo tinha que ser o da "patrocinadora", caso contrário, o ambulante/folião estava fora da "festa"! Inquirido sobre o "abandono" da corda, Bell  Marques soltou essa pérola: "A corda sempre existiu. Na minha opinião, em vez de separar, ela acaba unindo. Porque grande parte do povão acaba vendo de graça algo pago por uma parcela." Que perspicácia, não? Sem querer, imagino, faz uma aproximação com Hegel, afinal, não temos aí o escravo libertando o senhor?
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Havia um tempo em que o período momesco não tinha tanta visibilidade assim, era uma festa feita "para dentro". Na verdade, quando o produto carnaval era, em grande parte, "pipoca", muito diferente da estilizada mostrada este ano, a afiliada da Globo trazia "pedaços" da festa, enquanto a TV Itapoan (Record) transmitia o evento em tempo integral, porém isso não quer dizer que a segunda estava mais preocupada com o fortalecimento da cultura local, isso só acontecia muito mais por falta de opção, naquele momento, os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro eram o acontecimento! Mas voltemos ao que discutíamos inicialmente, isto é, o "concurso" da música vencedora do carnaval de 2016. Não sei qual a razão, mas, o Portal R7 (Rede Record) divergiu da escolha feita pela TV Bahia (Rede Globo), não, não vou rir. Os internautas que votaram, não se sabe quantos, elegeram a música Depois de nós, É nós de novo, de Igor Kannário, como o hit do carnaval 2016 com 35,16%, já a música Minha Deusa (cabelo de chapinha) de Bell Marques ficou em segundo, com 34,86%, este já tinha dito que haveria algo errado, não disse onde, caso sua música, lá dele, não fosse a vencedora! Será que Bell ficou em segundo por causa da acusação de preconceito da letra que precisou ser alterada? E Kannário, qual teria sido o motivo de ser o escolhido? Será que a Record quis fazer "média" com os súditos do príncipe do gueto? Contudo, a terceira colocada, quase não dá para acreditar, em função do alvoroço provocado, só se falava dela, antes e durante, foi Paredão Metralhadora da Banda Vingadora, com míseros 20,49%. Qual teria sido o motivo de tão baixa votação? Embora não tenha mencionado o número de votantes, o portal R7 tem a seu favor a heterogeneidade já que o formato escolhido permite a participação de qualquer pessoa com acesso a rede, mas o percentual alcançado pela Vingadora não tem algo errado? O que você acha, Bell?!
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Meu WhatsApp dispara aquele som característico, verifico que é um áudio em que, nada menos que Caetano Veloso, confira aqui http://migre.me/sYDG6, canta a música Paredão Metralhadora; meio surpreso, embora não devesse, ele já cantara Tapinha, indago do amigo que enviara para o grupo, que não confirma, não acredita que seja o filho de Santo Amaro; outro, apressadamente, exalta Caetano por estar antenado com a contemporaneidade! Desconfiado de que podia ser um fake, descubro que são dois! Marcel Fiuza Pires é o nosso fake 1; o fake 2 é Roberto Neves. Provavelmente ambos estão mentindo; qual seria o motivo de dois sujeitos "brigarem" pela autoria de uma "cópia"?! Talvez, por causa da fama efêmera e dos views que se transformam em dinheiro em seus canais no You Tube, já que com os votos do G1 e mais a consulta a 400 foliões nas ruas, a TV Bahia anunciou que a ganhadora do carnaval foi a METRALHADORA! 
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Por alguma razão que a própria razão desconhece, não houve nenhuma menção aos dois primeiros colocados da concorrente, neste caso, uma pergunta se faz necessária, embora isso não tenha nenhuma importância para o Universo, afinal, qual foi a música vencedora do carnaval de Salvador em 2016? Igor Kannário, Bell Marques ou Vingadora? sabemos que hoje o mundo gira a partir das moedas virtuais denominadas "curtidas", "likes" e "views"; a "qualidade" de algo se baseia neste "dinheiro" que circula livremente na rede (principal fonte dos votos da "pesquisa") e transforma fracasso em sucesso. Levando isso em consideração, o You Tube decretou: Vingadora 60.736.687 views; Bell Marques 1.045.242 views; Igor Kannário 579.649 views. Enquanto essa disputa era travada em cima dos trios, lá embaixo, no meio da pipoca, isopores recebiam cacetadas e algemas, alheios aos rios de dinheiro que eles ajudavam os de cima a ganhar...   

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O criador de porcos...


 
Sua casa, se comparada com o que temos hoje, não podia ser chamada de morada, resumia-se a um pequeno quadrilátero coberto com folhas de coqueiro! Na sua infinita melancolia, não sabemos se por comungar com a perspectiva de que ESTAMOS TODOS MORTOS, ajudava o pai do seu pai, um velho analfabeto, na criação de porcos. Mesmo o avô sendo iletrado, considerava-o dotado da mais infinita sabedoria. Ora, nos perguntávamos, em um mundo cercado de imagens e letras utilizadas intensamente (que se diga, as imagens e não as letras), isso não seria um paradoxo? Poderíamos, do alto da nossa arrogância e prepotência, questionar de onde tirara, aquele velho analfabeto, tal sabedoria? Sem a interlocução com a linguagem como fora possível apreender as lições do mundo? Ou (quem sabe?) não somos nem arrogantes nem prepotentes e aquilo que o neto chamava de sabedoria se resumisse a conselhos calcados na experiência cotidiana e no afeto? Porém, nesta conformação social em que a EXPLORAÇÃO e o LUCRO são os seus pilares, essa "sabedoria" não serve para absolutamente nada! Resumindo, aqui é assim: D- M-D’, ou seja, dinheiro, mercadoria, mais DINHEIRO, e, se isso não ocorrer, toda e qualquer empresa, sob o guarda chuva capitalista, quebra! No fundo, o neto retirava de coisas ditas ao acaso, muito mais do que elas representavam, em outras palavras, reverenciamos, às vezes, tanto a alguém que costumamos valorizar demasiadamente conselhos vãos! O curioso é que mesmo com o quadro apresentado, e o que termina por fazer com que TODOS, ainda que sejam todos contra todos, acreditem que seu sonho é possível, o criador de porcos se transformou em algo improvável, virara escritor e o único em língua portuguesa a ganhar o MAIOR dos prêmios. Foi laureado com o Nobel de Literatura! Observem a fina ironia da História: quem tinha no pai do seu pai a “ausência” das palavras, passa a dominá-las de forma contundente e obtém a láurea suprema! O criador de porcos tornara-se "maior que si mesmo", porém o que o torna mais brilhante é que, diferentemente do Plantador de Repolhos, não perdera o contato com suas raízes, Saramago, esse é/era o nome de José, lutara toda a sua vida por outra formação social, muito, mas muito diferente daquela que o BAJULARA e que o plantador de repolhos reverencia...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Modelos plus size e o mercado...

 
Não é nenhuma novidade afirmar que, da forma como a obesidade vem crescendo no mundo, o horizonte é muito sombrio, estima-se que estamos diante de um dos mais graves problema do século XXI. Os dados oriundos da Organização Mundial de Saúde não são nada lisonjeiros, vemos que entre 1980 e 2013, o número de indivíduos obesos subiu de 28,8% para 36,9% em relação aos homens e de 29.8% para 38% no que se refere às mulheres! Não podemos negar que são dados estatísticos aterradores: temos uma epidemia e isso torna gordos e gordas os "escolhidos" para ser defenestrados! Alguns profissionais, entre eles, os da Educação Física, mas não nos esqueçamos que os da medicina também brigam pela parte que lhes cabe neste imenso latifúndio, estimulam a prática da atividade física como um dos "remédios" capazes de contribuir efetivamente no processo de emagrecimento, afinal, ser gorda ou gordo não é recomendável para a saúde, por isso, está aberta a temporada de caça aos mamutes, que o são, em parte, por causa da ingestão desenfreada de alimentos com alto teor de gordura e açúcar (dizem os especialistas) que tornam seus corpos esquálidos.
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Falando nisso, corpo bonito, segundo as "caricaturas" impostas pelas diversas mídias, é aquele harmoniosamente distribuído, cada coisa em seu devido lugar, sem excessos, é preciso que se diga que os corpos das modelos magérrimas, por um lado, e os  das musas do tipo Beyoncé, por outro, são o sonho de consumo das mulheres! Na sociedade do consumo desenfreado em que vivemos, onde o sonho eterno por um corpo perfeito se tornou algo doentio, gordas não têm vez!? Vale tudo para perder os quilinhos que comprometem a silhueta desejada. Para resolver esse impasse, proliferam as mais variadas dietas tendo como chamariz tanto famosos como "anônimos", que garantem a fórmula rápida e fácil para qualquer um ter o corpo desejado, para isso, basta a simples adesão a esse circo de horrores, onde "cada indivíduo está isolado dos demais, é um entre milhões, numa espécie de solidão em massa", já dissera o velho Marx, em meados do século XIX. Como o estereótipo vige e se impõe, à primeira vista, não é dada nenhuma chance ao gordo, esse ser que perdeu totalmente a percepção das suas dimensões corporais, já está condenado, sua pena é emagrecer a qualquer custo!
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Profissionais desavisados sequer analisam que muitos dos considerados obesos o são por questões endógenas e que ser magro não é necessariamente sinal de saúde! Há inúmeros magros que são verdadeiramente "gordos", assim como existe uma legião de gordos que são "magros", mas o estereótipo  faz com que pela simples aparência coloquemos o carimbo nas pessoas obesas, sem analisar as verdadeiras causas, somos uma sociedade preconceituosa, mas a hipocrisia nos garante imunidade! Isso não quer dizer que devemos fechar os olhos e fingir que a epidemia de obesidade não exista, há uma profusão de gordos e gordas que precisa ser orientada com muito cuidado pelos órgãos de saúde pública, mas sem o preconceito que é muito comum na Educação Física e, por que não dizer, na medicina também?!
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Se tudo isso é verdade, como se explica o boom das modelos Plus Size? Esse oximoro não é algo tão extraordinário neste modo de produção que "escolhemos" para orientar nossa vida, cujo ponto nodal é o lucro, ou seja, toda e qualquer coisa pode e deve ser transformada em mercadoria, é do "sistema" ser paradoxal. O mercado "descobriu" um nicho em que pode faturar milhões de dólares, mas não pode perder de vista o grave problema da obesidade que vem se alastrando por todos os quadrantes. O que fazer? Bem, meus caros, aí não há nenhuma relação com a inquietação que moveu o velho Lênin. O que queremos saber é: devemos acabar com o "mal" que assola a humanidade ou estimular a "engorda", já que há um mercado de proporções gigantescas em plena expansão? Percebe-se muito claramente que essa é uma pergunta de retórica. A decisão já foi tomada há algum tempo, está aí a moda plus size, com seus milhões de seguidores, que não nos deixa mentir. O fato é que temos uma quantidade incomensurável de gordas sequiosas por consumir os mais diversos produtos, é preciso explorar esse veio, apropriar-se dessa fatia do mercado que vinha sendo negligenciada; como já sabemos, o importante no modo de produção capitalista não são as pessoas, e sim o quanto é possível ganhar com o "produto"! "Não se envergonhe de ser gorda, os espaços que antes lhes eram negados, como a praia, por exemplo, agora são seus por direito e o mercado está pensando em você 25 horas por dia", não seria um belo slogan?! Isso contagia aquela mulher que foi discriminada ao longo de sua vida por ser gorda e a absolve da condenação, ser gorda já não é "crime"! O mercado sabe que é necessário muito mais material para a confecção de uma lingerie "plus size", logo, há mais rentabilidade na gordura do que na magreza, ou seja, é mais vantajoso estimular a obesidade ao invés de combatê-la.
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Uma modelo "plus", que acabara de ganhar um concurso, contava sua história de vida na TV, repleta de desilusões e sofrimentos, emocionando os presentes e muito provavelmente os milhares de gordos e gordas que tinham diante de si o espelho de suas existências, ali estava o passaporte que os libertava! A vitória no concurso de beleza "plus size" a deixara esfuziante, em estado de graça plena, afirmara que nem mais consultava a balança, coisa de que fora escrava quando adolescente, agora era livre! O que temos aí? Nada mais, nada menos que o mercado ditando moda e estabelecendo costumes, o oximoro é que mesmo sendo um grave problema de saúde pública, teremos mais e mais "plus" dizendo: "não permita que que cerceiem seu direito de ser como é, ser gorda é ser feliz"; saibam que falta muito pouco, se é que já não temos em gestação, os famigerados concursos masculinos "plus size" e aí vocês verão eu e meu amigo gordinho de sunguinha na TV...     

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Cenários de Terror...


Quando éramos criança, na maioria das vezes em que faltava energia, a luz salvadora era a que vinha das velas, isso nos levava a ficar observando o movimento das imagens refletidas nas paredes; brincar com as sombras formadas nos alegrava sobremaneira, porém, como tudo que é bom não dura pra sempre, quando adormecíamos o terror tomava o lugar da alegria! Sonhando, a brincadeira de criar figuras a partir das sombras se tornava um pesadelo devastador, muitas eram as tentativas malsucedidas de acordar. Ver as imagens criadas nos perseguindo noite a dentro e não termos consciência de que aquilo era apenas um "sonho" era assustador. Muitas foram as noites em que o jogo divertido à luz de velas, tornara-se nosso maior suplício, o "brinquedo" nos atemorizava, virava máscaras gigantescas, tão assustadoramente reais, que acordávamos encharcados dos líquidos mais diversos!
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À medida que crescíamos, fomos sendo abandonados pelos pesadelos provocados pelas sombras à luz de velas. O terror foi ficando mais concreto, mais palpável. Calçar os sapatos era doloroso, porque, inevitavelmente, teríamos que unir os cadarços em forma de laço, o medo de não acertar fazê-lo nos aterrorizava! Minha irmã pacientemente nos mostrava o como fazer, parecia tão simples, que boa professora que ela era, o problema era o aluno! As palavras se rompiam no ar como bolhas de sabão, o gesto motor não conseguia transformar aqueles dois pedaços de "cordão" em um laço. Parecia que jamais conseguiríamos, infelizmente, o velcro ainda não fora inventado!
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Pensamos que vencidos aqueles medos, todos os outros que viessem seriam facilmente eliminados,  achávamos que tínhamos construído uma couraça indestrutível (não foi Nietzsche quem disse que aquilo que não nos mata nos fortalece?), porém crescer nos fez ver que o medo não fora eliminado, apenas mudara de face, sabíamos que não bastava acordar para que as "sombras" se dissipassem como nos pesadelos de criança. O medo ganhara outras cores! Certa feita, o ano deveria ser 1967, se não estamos enganados, nos deparamos com cartazes espalhados por diversos espaços solicitando à população que delatasse imediatamente as pessoas ali mencionadas, a preocupação era com nossa segurança, aqueles indivíduos estavam envolvidos em atos terroristas, eram bandidos, precisavam ser presos, quiçá, torturados, para que o Brasil fosse salvo! Tinha medo de dar de cara com algum deles e não saber o que fazer. O lado perverso dessa história é que os "terroristas" que os cartazes anunciavam eram aqueles que se rebelaram com a ditadura civil-militar, implantada em 1º de abril de 1964; entre os "bandidos e terroristas", muitos eram professores, estudantes...essa ditadura, que nos quartéis era chamada de revolução, durou mais de vinte anos! Os militares, com a cumplicidade de parcela da sociedade civil, torturaram e mataram uma quantidade imensa de pessoas, muitos sequer sabiam o que estava acontecendo, o que nos mostra que o terror não ataca apenas os seus alvos!
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Nem tão longe e nem tão perto, chegamos a 2015 e à sexta-feira 13 de Paris, com suas bombas e mortos a granel! O fato é que o furor causado pelos ataques de 7 de janeiro de 2015, aos humoristas do jornal satírico francês Charlie Hebdo, voltou com intensidade à mídia e esta, "sem querendo", estimulou a busca por justiça a qualquer custo, mais uma vez! A palavra terrorismo vem sendo repetida à exaustão, na mesma medida em que a sigla E.I. se tornou o alvo a ser destruído pela humanidade! Os membros do "Estado Islâmico" assumiram que os atentados foram executados por eles. Esses são os terroristas, se forem eliminados, voltamos ao nosso antigo estado de bem estar, em que não ocorriam nem ataques a inocentes e nem assassinatos em massa! Perdoem-nos a ironia! Mas é muita hipocrisia no ar. É importante frisar que existe um mercado internacional de armas que sobrevive dessas ações e das diversas guerras que ocorrem no mundo, ou alguém aí acha que as armas, assim como as bombas usadas pelo E. I. são produzidas por ele? Não estou dizendo que os membros daquela organização são bons camaradas, muito pelo contrário, mas afirmando que as ações de bombardeios à Síria e ao Iraque não são tão diferentes dos atos terroristas pois pessoas são mortas mesmo não estando envolvidas com as ações dos militantes do Estado Islâmico, entre elas crianças, que não têm nada a ver com a briga a favor ou contra Alah!
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Dizem que o terrorismo se caracteriza porque suas ações tem os civis como um dos seus alvos. Observem que George Bush afirmou que precisava "invadir" o Iraque porque havia armas de extinção em massa, ou seja, a humanidade corria sério perigo! Os EUA para nos salvar bombardearam aquele país Árabe, morreram centenas de milhares e o Iraque ficou esfacelado, o mais cruel é que as tais armas não foram encontradas, embora se existissem, nada autorizaria tal massacre, um erro nunca justifica o outro! Naquele momento, não havia o que conhecemos hoje como Estado Islâmico! Mas o terrorismo não ataca apenas seus alvos, não é mesmo? Embora muitos possam achar uma aleivosia chamar de terroristas aqueles que despejam suas bombas com o objetivo de extirpar o mal e salvar a humanidade, esse ato não difere em nada daquele perpetrado na sexta-feira 13 de Paris! Já fizeram algo semelhante com o Japão, os civis das cidades de Hiroshima e Nagasaki foram agraciados com duas bombas atômicas sobre suas cabeças, mas o objetivo era acabar com a guerra, dirão os defensores de tais atos.
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O lado perverso dessa tragédia é que os verdadeiros responsáveis por essas atrocidades assistem de camarote o circo pegar fogo. Os verdadeiros responsáveis ganham turras de dinheiro vendendo armas aos militantes das mais diversas origens, para que estes possam cometer os atos mais atrozes. Que tal, ao invés de matar civis inocentes, já que o objetivo é extirpar os terroristas, se os líderes de todos os países decretassem o fim da fabricação de armas e a extinção de todos os arsenais? Destruição de todas as armas do mundo e suas fábricas legais e clandestinas! Sabemos que isso jamais acontecerá porque envolve cifras astronômicas, a guerra é um grande negócio seja ela de que tipo for! E aqui, sob o guarda-chuva do modo de produção capitalista, o importante é o lucro não as pessoas ou uma paz entre os povos, por isso, as crianças e idosos daqueles países em que os terroristas têm seu quartel general que que se cuidem, suas vidas serão o preço que terão que pagar para nos salvar do mal, amém...    

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Uma noite, uma linda mulher*...

Saí do barzinho, por um brevíssimo momento, com o intuito de saborear calmamente meu cigarro, quando, de súbito, percebi que não era o único dono daquela noite. No espaço reservado aos proscritos e viciados, uma linda mulher parecia esperar para me fazer companhia. Por uma questão de fidelidade, é preciso que se diga que, tendo apenas a luz do luar a nos afagar, era possível vislumbrar seus lindos olhos amendoados e transgressores como um beijo de língua! Será que o destino estava querendo me pregar uma peça? Esse fora o pensamento que me veio à cabeça em razão da situação oferecida! Entendi que era melhor não racionalizar, por que não me deixar envolver e viver intensamente a situação que me descortinava ao invés de me tornar refém da lógica, buscando explicação para o inexplicável? À primeira vista, o fato ímpar de sermos fumantes nos fazia cúmplices, quase amantes, afinal,  nestes  tempos de exclusão, o consumidor de cigarros é execrado de quase todos os espaços de convívio, tornando-se quase um pária! Pensava em tudo isso ao observar a imagem que se impunha às minhas retinas fatigadas pela presbiopia! O que posso dizer é que o fascínio por mulheres de olhos repuxados me dizia que encontrara uma mulher especial e, em razão disso, as estrelas festejavam o acontecimento banhando-nos   intensamente com suas fulgurações! Aquela era uma noite em que a sorte parecia me sorrir, por ironia da história, tinha exatamente o que aquela mulher estonteante desejava: fósforos! Eu sei que você deve estar se perguntando: "fósforos, mas como?" Compreendo sua estupefação! Justamente porque num tempo em que estamos cercados pela tecnologia em todos os poros, um isqueiro seria muito mais apropriado e preciso, porém, espero que compreenda, só o fósforo traria a elegância e sofisticação, como num film noir, que aquele momento mágico exigia! Fogo, foi o que lhe perguntei, ela aquiesceu. A chama fez com que nossos olhos se cruzassem criando uma atmosfera de intimidade e sedução, não havia como negar, fora arrebatado pela paixão! Ato contínuo, seus lábios vermelhos foram iluminados pela queima do cigarro desencadeando em mim um turbilhão de desejos inconfessáveis! Não sei explicar o que acontecera, mas de um momento para o outro, eu que sempre fora o mais tímido dos tímidos, vi-me falando de tudo e mais um pouco, inclusive das minhas peripécias sexuais como se isso fosse a coisa mais natural do mundo! Queria impressioná-la, é certo, e me mostrava um amante louco e desvairado! Cheguei ao cúmulo do absurdo ao dizer que estava entre aqueles que localizavam facilmente o ponto G de uma mulher e que poderia lhe dar esse prazer! Ela, quase às gargalhadas, me perguntou o que me levara a pensar que não o atingia continuamente? Tentando não me mostrar desconcertado com o riso e a resposta, apelei para aquilo que confirma tudo, incluindo aí muitas aberrações, a tal da ciência! Disse-lhe que estava provado cientificamente que a forma como o fumante segura o cigarro demonstra o quanto é feliz sexualmente e do jeito que o segurava denotava o quanto estava insatisfeita! Você é gaiato ou o quê? Fora sua resposta voraz. Sou mais ou menos escritor, e você, perguntei. Prostituta! Engoli em seco. O que isso significa? Que as pessoas pagam para transar comigo, eis meu telefone e meu website, mas, por favor, não tente nos finais de semana, ando muito ocupada! Estupefato e sem saber o que dizer, li cada uma das linhas do cartão que ela me entregara.  Notando o meu total desconforto, abraçou-me e deu-me um longo e saboroso beijo, desaparecendo da mesma forma que aparecera, não sem antes, com uma sutil piscadela, dizer: me ligue...
*Inspirado no filme Nova York, Eu te amo.

sábado, 10 de outubro de 2015

A culpa das crises do "sistema" é de quem?...

Muitos não sabem, justamente, porque quem poderia lhes ensinar, não tem nenhuma vontade de fazê-lo, para esses é muito mais interessante que aqueles levem "vida de gado", o fato é que entre uma crise e outra, sob o modo de produção em que vivemos, há um ciclo econômico com quatro fases bem demarcadas: a crise, a depressão, a retomada e o auge. Quando a fase em evidência é a crise, "caminhando" para a depressão (ou recessão, que é considerada uma depressão menos destrutiva), somos bombardeados diariamente com explicações de toda a ordem, os arautos tentam nos fazer crer que se fosse seguida determinada fórmula, muito claramente não estaríamos em situação tão grave. O interessante, nestes momentos, é que alguns dos que têm a solução perfeita para a saída da crise já foram até ministros e, quando estiveram frente ao problema, não fizeram nada daquilo que agora estão apregoando, dirão esses sábios enganadores: "mas a situação agora é diferente!" Os oportunistas de plantão aproveitam que o desemprego, a alta dos preços, a inflação estão batendo às portas para sugerir medidas paliativas, que lhes favoreçam, direcionando a opinião pública na caça ao culpado ou culpados! Estamos nessa situação, explicam, por erro do governo na condução da economia! Não dizem, ou fingem não saber, que esse é um fenômeno inerente ao modo de produção capitalista. Assinalam que se fossem tomadas medidas antecipatórias a crise não se materializaria, ou, em última instância, seria muito mais branda, "uma marola"! Em momento como esse, há uma atenção desvairada às estatísticas, onde são comparados tempos e espaços diferentes, na tentativa de justificar certas soluções mirabolantes, porém, é preciso que se diga, "a crise é constitutiva do capitalismo: "não existiu, não existe e não existirá capitalismo sem crise", confirmam José Paulo Netto e Marcelo Braz.
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Já não voto há muito tempo, prefiro pagar multa ao TRE, assim sendo, jamais em tempo algum daria ouvidos às sandices de quaisquer dos políticos que posam de salvadores da pátria, entre eles, Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso e seguidores, na realidade, estamos envolto em uma crise porque escolhemos errado, se eles estivessem à frente do governo, podem ter certeza, é o que dizem os seus discursos, estaríamos navegando em mar de almirante, isso também pode ser dito sobre os "neo" salvadores, incluam aí a senhora Marina Silva e sua "rede"! Sim, todos eles e ela prometem soluções dentro de algo sem solução. Cabe para esses caçadores de culpados a paráfrase do axioma do personagem House, daquela antiga série de TV. Todos mentem quando dizem que, se eleitos fossem, o país estaria assim e não assado, como o faz reiteradamente o ainda "tucano" derrotado por vocês! Falo em "ainda tucano" em função da sua cartada desesperada para ser o candidato do seu partido o PSDB nas eleições presidenciais de 2018, para isso, vem tentando convencer os incautos que todos os problemas do mundo, inclusive, permitam-me a ironia, a insolvência da Grécia, o desemprego na Espanha e em Portugal, a fuga dos imigrantes em direção à Itália, Inglaterra e Alemanha..., tudo é de responsabilidade de Dilma! Caso o tiro saia pela culatra, ou seja, o escolhido do partido seja Geraldo Alckmin ou qualquer outro, é bem provável que esse "salvador da pátria" deixe de ser "tucano" e busque um partido que acredite em sua "popularidade" e força nas urnas, quiçá, o DEM!
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Quando digo que mentem todos, não é sem razão. Observem que não explicam em momento algum os mecanismos que regem esse modo de produção que sobrevive da exploração do trabalho e do lucro. Eles sabem, Marina, Aécio ou qualquer outro que, caso fossem "o gerente do Estado", não seria muito diferente do quadro que temos hoje, suponho que Aécio Neves, se eleito fosse, isso é muito do seu estilo, "jogar para torcida", diria que a crise fora ocasionada pela administração nefasta de Dilma, usaria como exemplo, o "mar de tranquilidade" que Lula navegou depois do governo de FHC! Afirmo que jamais diria a verdade, como todos os políticos fazem. Não explicam as verdadeiras razões, não detalham as questões econômicas para que todos compreendam, por exemplo, o que é mesmo um  ciclo econômico? Como se engendram os mecanismos que sustentam o sistema? Por que as crises são recorrentes? Caso Aécio e seus seguidores conseguissem o impeachment quem assumiria? Ele? E se isso ocorresse, falando em democracia burguesa, poderíamos chamar de golpe? E em sendo golpe, poderíamos ter de volta os militares ao poder? O que querem aqueles que chamo de oportunistas? Verdadeiramente, desejam que a atual administração seja retirada lá do Palácio do Planalto com um plano para assumir o governo ou já estão em campanha para as próximas eleições e quanto mais fumaça conseguirem levantar melhor será para as suas pretensões presidenciais? Desde sua primeira crise em 1825, que esteve restrita à Inglaterra, passando pela de 1929, que foi catastrófica para todos, e a de 2008 que por muito pouco não quebrou o sistema financeiro internacional, até a que estamos vivendo agora, sem contar as "marolinhas", nenhum economista que se respeite ousou afirmar que modo de produção capitalista e crise não são duas faces da mesma moeda, se assim o fizesse estaria mentindo descaradamente, neste caso, não seria mais um economista sério e sim mais um político em campanha...

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O camelô e o cirurgião II...

Fiquei esperando mais contribuições referentes às questões formuladas no parágrafo final da parte I, dessa crônica, porém os que se manifestaram não perderam de vista que o nosso vendedor de rua era um sujeito que gostava de "presentear" velhos "conhecidos"; fora chamado de trapaceiro, espertalhão e outros adjetivos desabonadores, houve até insinuação de que fosse gatuno e/ou ladrão, coisa que, é preciso que se diga, ele não é! Sim, não se esqueça que, em troca dos meus vinte reais, ele me deu duas latas de pomada de presente(não, não ria, por favor!). Caso você seja mais exigente, vendeu-me duas porções de placebo, vai que acredito na força das palavras? Ou você nunca ouviu alguém dizer: "essa palavra tem poder"? Quantas e quantas vezes já não escutou: "não repita o nome da pelada(desgraça), ela traz mau agouro!" Usando da mesma premissa, quem poderia negar que as ditas pelo camelô não teriam o poder de realizar os milagres prometidos? Quem não gostaria de fazer amor a noite inteira e parte do dia seguinte, sem parar, e o que é melhor, sem nenhum efeito colateral?
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É improvável que haja amizade desinteressada entre prestadores de serviços, quem acredita nesta possibilidade pode ficar muito decepcionado, relações em que o dinheiro está mediando mexem com o caráter dos indivíduos, ou, talvez, quem menos seja ético seja aquele que fala de ética. Inadvertidamente, o velho professor, mesmo sabendo que o lucro é que move a relação entre as mercadorias, preferiu se enganar, continuando a acreditar que ainda temos alguma salvação. Na realidade, o periodontista com seu argumentum ad nauseam o convencera que os dois eram mais que apenas paciente e cliente, era sim possível que fossem amigos, afinal, não se entrega a saúde a quem só pensa objetivamente, a quem não se envolve com o que acontece com o cliente para além do consultório! Uma das muitas provas de que não era mentira a estima entre os dois, residia no fato de que o atendimento do cirurgião era só as quintas-feiras, mas para o amigo, era só ligar que aquele daria um jeito de atendê-lo em horário a combinar, afinal, amigos são para essas coisas também.
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Vivemos tempos tão difíceis que queremos acreditar que o impossível é possível, por obra e graça do Espírito Santo, porque "às vezes parecia que era só acreditar." O cirurgião dentista também queria o que todo e qualquer profissional liberal deseja, muito antes de começar os primeiros estudos na graduação, a parte que lhe cabe neste latifúndio! contudo seu intuito era fazer o velho professor acreditar que eram amigos e em função disso, as questões econômicas estavam em segundo plano. O tratamento demandava uma viagem de 360 km e mais alguns reais para esse deslocamento. O periodontista se dizia lisonjeado pela escolha dos seus serviços e fazia o outro acreditar que isso só reforçava a amizade entre ambos.
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Chegado o dia da consulta, esquecera qual o andar e o valor. Ligou. A atendente, que não se chamava Judith, detalhou minuciosamente como chegar e quanto deveria pagar, estranhou a quantia, a princípio, porque pagara quase duas vezes na sessão anterior o valor anunciado por ela! Enfim, no horário marcado, depois de uma viagem de mais de 6 horas montado no ônibus, chegou ao consultório e foi recebido com um sorriso largo e um caloroso aperto de mão, pelo amigo cirurgião! Na verdade, já dissera para si mesmo que aquela era sua última consulta a partir do momento em que a secretária dissera quanto os outros clientes que não eram amigo pagavam! Ficara se perguntando se o amigo periodontista cobraria o preço que todos pagavam ou seria cínico a ponto de reafirmar o valor da sessão superfaturada, sem demonstrar qualquer constrangimento!
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Terminado o tratamento, entabularam uma conversa amistosa, foi quando o cirurgião afirmou que tinha ficado muito sentido por não ter sido avisado do nascimento do filho do amigo. Em outra época, teria ficado vexado com o esquecimento, mas como o valor da consulta não lhe saía da cabeça, tentou disfarçar, embora essa não fosse uma tarefa fácil, queria pagar e desaparecer o mais rápido possível. Sem perda de tempo, perguntou qual o valor, na verdade, talvez seja "moda", mas todos os profissionais de saúde visitados recentemente, só quiseram receber em dinheiro vivo, cartão é coisa do passado, plano de saúde nem pensar!  Quando o periodontista falou quanto deveria lhe pagar (quase três vezes o valor que o amigo cobrava dos que não faziam parte do ser círculo de amizade), a secretária estava às suas costas e os seus olhos se cruzaram com os meus, já combalidos e envergonhados, constrangimento pouco é bobagem! Não sabia se continuava fitando os olhos da moça ou se olhava para o vazio, o que não conseguia era enxergar o sujeito que estava a minha frente. Seria ele um cínico usurpador? Desonesto? Espertalhão? Gatuno? Ladrão? Qual dos adjetivos se encaixa melhor ao perfil do dentista amigo? Dos dois personagens dessa crônica, em quem você confiaria? No camelô que me "presenteou" com um "viagra" em forma de pomada ou no periodontista que de forma acintosa triplicou o valor da consulta?...  

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O camelô e o cirurgião I...

Percebe-se que camelô já não é um termo tão comum como nos meus tempos de criança pequena, nas ruas de paralelepípedos do bairro da Liberdade, em Salvador. Hoje, vendedor ambulante soa mais "natural", embora no cotidiano perca o substantivo e o adjetivo passa a ser seu nome de guerra! Vivemos tempos em que muitos querem ganhar no "grito" e nada como a figura do trabalhador informal para tornar isso algo concreto! O número de espertos que quer se dar bem cresce em proporção geométrica, estão aí as operações da Polícia Federal que não me deixam mentir, a ideia é ganhar um troco em cima dos trouxas, dos desprevenidos, daqueles que ainda acham que temos salvação!
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Véspera de feriado prolongado, o sujeito não queria comprar nenhuma bugiganga, o único desejo era voltar para casa e, para que isso acontecesse, era necessário atravessar "aquela" passarela carregada de ambulantes por todos os lados. O que não esperava era que um deles o abordasse usando justamente o substantivo/adjetivo que ele utilizava normalmente quando se referia a alguém, seria coincidência ou aquele camelô realmente o conhecia? Professor? Mesmo tendo dirigido o olhar para o chamamento, continuou sua trajetória. O ambulante ao perceber que mesmo utilizando aquele artifício não fora "reconhecido", apelou para um: "eu sou irmão de fulano!" Claro que continuou sem lembrar, mas também não poderia afirmar categoricamente que o sujeito mentia. A pergunta seguinte era uma armadilha, que o velho professor não soube evitar. "Está morando onde agora?" Pronto, o cara deveria conhecê-lo, porque a resposta, seja qual fosse, abria brecha para uma suposta afetividade! Sem que lhe perguntasse afirmou que vendia óculos mostrando uma infinidade deles sobre uma banca! Quando percebeu que não houve qualquer interesse pelo produto anunciado, tirou não se sabe de onde uma latinha de pomada igual às ilustradas na foto acima, embora não tivesse nenhuma noção, começava ali a via crucis do nosso professor!
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Mais que rapidamente, nosso ambulante se transformou em um "doutor" de causar inveja a qualquer um daqueles que fazem parte do Projeto "Mais Médicos" do governo federal! Falava com muita segurança e propriedade sobre o caráter terapêutico do medicamento, inclusive, detalhando quais eram as doenças que a pomada exterminava: brotoeja, eritema, eczema, urticária, verruga, herpes, entre outras! A expressão do seu interlocutor deve ter lhe revelado o grau de desinteresse na compra e/ou utilização do tal medicamento. Mas o cara, igual a todo brasileiro, não desistiu e retirou o último coelho da cartola, seu último cartucho. Dissera que gostava muito do professor e por isso daria de presente a pomada sem nenhum custo! Que contrassenso era aquele? Não existe almoço grátis e promoção em quem tem o lucro como alvo não passa de tapeação, o famoso engana trouxa, diria minha avó! O constrangimento já tinha se instalado há tempos por isso o  velho professor mais que depressa queria sair dali, mas o camelô não permitiu qualquer saída antecipada, imediatamente retirou outra latinha, mais uma vez não deu para perceber de onde e, mais que rapidamente, abandonou o jaleco de dermatologista, incorporando o de urologista no momento seguinte! Agora a pomada servia para ampliar o prazer sexual, seu uso nas horas de lazer possibilitava que se fizesse amor a noite inteira sem parar até a manhã seguinte, e desse "viagra" era fornecedor exclusivo!
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Logo em seguida, colocou as duas latas num envelope e afirmou que era mais um brinde, não precisava pagar absolutamente nada! Não, aquilo não estava acontecendo, era surreal, nosso personagem recebera duas consultas médicas, sem hora marcada, sem filas, sem atraso, sem precisar acordar 4:00 da madrugada para consegui a senha 97, num país em que saúde é sinônimo de descaso. A conversa já beirava o nonsense, e, mais do que nunca, o incauto "paciente" queria deixar aquele consultório a céu aberto e desaparecer! Pensou que bastava receber o envelope das mãos do "médico" e tudo estaria resolvido, acabaria, enfim, o pesadelo! Ledo engano, ainda faltava algo para terminar com aquele circo de horrores. Quando as "amostras grátis" estavam se preparando para mudar de mãos, o paciente ouviu as palavras que programas do tipo "criança esperança", que fazem filantropia com o dinheiro dos outros, costumam atirar na cara da audiência: "dê quanto puder só para me ajudar, embora uma dessas na farmácia custe R$26,00!" Espera aí, não era presente? E a representação exclusiva? O "quanto puder" representava quanto? Já receoso, nosso amigo abriu a carteira e tirou $10,00, porém o médico camelô alertou: "na farmácia Santana só uma custa...!" Na carteira, cujos olhos do ambulante doutor já tinham devassado, só restavam mais $18,00; meio que sem graça entregou mais dez, mas percebeu que o médico não ficara muito satisfeito. Não se sabe a razão de não as ter tomado de volta! Se você que está lendo essas linhas observar as duas latinhas lá em cima na foto introdutória, vai verificar que são idênticas em tudo, infelizmente, você não pode perceber o aroma, mas posso lhe adiantar que são inodoras!  Foi um assalto? O velho professor foi descaradamente roubado? Deveria chamar um policial e dizer que foi coagido e exigir ressarcimento e prisão do "médico"? O que você recomendaria?... 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O plantador de repolhos...


Acreditava que as pessoas nascem com um papel a representar, por isso, aceitava a vida assim como ela era, não se irava com a propriedade paupérrima que herdara, não era um sujeito revoltado, resignação era o seu nome, razão pela qual não soava estranho sua música predileta ser aquela de Tim Maia, cujo título era azul da cor do mar. Tinha por hábito cantarolar essa canção todas as vezes que a tristeza se fazia companheira; para ele “na vida a gente tem que entender que um nasce para sofrer enquanto o outro ri”, eram versos mágicos. Por ser um sujeito que cria, achava que ser assim fora uma escolha de forças maiores que as suas, por isso, vivia sua rotina sem sofrer ou praguejar. Filho de pais (quase) analfabetos, nascido no nordeste brasileiro, diríamos que era branco, embora sabendo quais foram os colonizadores e que a escravidão é parte da nossa pele, não poderia afirmar com convicção! Por ironia do destino, (ou seria da História?) se alfabetizara ainda em tenra idade, numa escola de pau a pique, da cidadezinha onde morava, mas, mesmo conseguindo ler as palavras do mundo, achava que seu lugar era ali, no mesmo lugar onde seus pais nasceram e, por certo, morreriam, e, como bom filho, repetiria o ciclo sem grandes remorsos. O destino lhe impusera uma determinação, sabia que era "filho de peixe". Contudo, inopinadamente, fizera vestibular por "esporte" e fora aprovado entre os primeiros, diríamos, surpreendentemente; a vitória do nosso plantador de repolhos se torna mais contundente porque não precisou entrar na universidade via Sisu, cotas sociais ou quaisquer outras dessas "muletas" que o Estado implantou para fazer a tal da "reparação". Entrar no ensino superior tirara dele o adjetivo de agricultor, tornara-se acadêmico, e justamente quando tudo conspirava contra ele. O curso torna-se desnecessário dizer, seja qual for, representou um salto enorme para um filho de camponeses analfabetos! Provara por A+B que com muito esforço, dedicação e responsabilidade, qualquer um pode ser o que quiser sob o capitalismo. O plantador de repolhos terminou a graduação no tempo previsto, fez mestrado sem precisar de dilatamento de prazo, foi um estudante brilhante no doutorado e agora está fazendo o pós-doc em Londres. Certa manhã, sentado confortavelmente na poltrona da sala do seu grande apartamento, cuja vista lhe permite ver a Trafalgar Square, pensando sobre sua vida, milhões de dúvidas o perseguem, porém seus olhos se iluminam com uma certeza que o faz quase gritar: "agora posso afirmar que sou um ex-plantador de repolhos", para logo em seguida entrar em silêncio profundo, quebrado apenas por passos longínquos de algum transeunte desavisado. Vai à janela, observa o formigueiro lá embaixo e se faz a incomoda pergunta: "qual é mesmo a moral da minha história”...

sábado, 8 de agosto de 2015

Pai...

Não sei se a razão de falar de pai tem alguma relação com a proximidade do dia que nos disseram que era o dia dele, mas com certeza a lembrança da música homônima de Fábio Jr terminou me induzindo a pensar a respeito. Penso que muito do que ele diz, e é muito provável que isso já tenha se tornado lugar comum, se reflete demasiadamente nas relações entre pai e filho(s). Neste momento, várias imagens da convivência meio turbulenta que tive com o meu tomam conta da minha memória, porém tem uma que quero compartilhar justamente porque se fora hoje, não seria considerada como algo a ser dito ou exemplificado por não ser tão politicamente correta assim! Hoje talvez meu pai fosse preso.
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A idade vou omitir em razão de uma pessoa muito querida, que com certeza lerá esses caracteres mal traçados, por não acreditar que minha memória é capaz de voltar tão longe assim no tempo e com muitos detalhes, achar que é mentira! Estava eu na porta da minha casa a empinar periquito (para quem não sabe, a imagem à direita, lá em cima), ele, meu pai, ao sair de casa logo me avistou, era o fim de uma tarde de domingo, falou, tudo bem, mas já é hora de entrar, repliquei, depois eu vou, daqui a pouco. Ele sem alterar a fisionomia (engraçado como vejo tudo com tanta clareza), certo, mas amanhã vou lhe dar doze bolos por isso; bolo, para quem não sabe, não era nenhuma guloseima, e sim pancadas aplicadas na palma da mão ou com palmatória ou escova de lustrar sapatos; ah, como doíam!)
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No dia seguinte, como ele saía cedo, retardei ao máximo levantar da cama, contudo ele não arredou o pé enquanto não apareci na sala, quando isso aconteceu, os doze bolos me foram "ofertados"! Sei que poderia apresentar algo mais alegre, mais exemplar para lembrar da figura do meu pai, mas resolvi trazer essa para mostrar que ainda que a experiência tenha sido muito dolorosa, fui entender bem mais tarde qual era a lição, não houve "perversidade" no ato, mas um "exemplo", não, não fiquei feliz, naquele momento, devo tê-lo odiado pelo castigo impingido, embora o "velho" quisesse me ensinar, e o mais interessante é que nunca mais uma ação como essa se repetiu, mas aprendi a lição, embora, é preciso deixar claro, que não estou fazendo apologia e nem dizendo que a violência educa.
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Na música que serve de referência para essa conversa, há uma espécie de acerto de contas, o filho tentando dizer ao pai sua importância e que entendera a mensagem. No fundo, no fundo, filhos demoram a entender que os pais, mesmo que as vezes de forma tão cruel, só querem que eles vivam não os sofrimentos vividos por eles, mas as alegrias experimentadas, por que inventar de novo a roda? O chato é que quando conseguimos entender o que eles, os pais, querem nos dizer, eles já não estão mais aqui para ouvir nossas mais sinceras desculpas: "me perdoa essa insegurança é que não sou mais aquela criança", para conversar sobre nosso medos e angústias, porque eles sempre foram muito mais nós que eles mesmos, que seus passos nunca foram para suprimir as alegrias, mas os sofrimentos. Pensando nisso, ontem tinha uma filha, hoje tenho três filhos, e não sei se estou conseguindo dizer a eles sem magoá-los o que merecem ouvir, porém o meu desejo é que não precisemos de dia dos pais para expressarmos amor e carinho ou trocarmos presentes e que a lição eu aprendi, pois é, filhos, não, não quero ser herói, nem bandido, quero apenas ser o pai de vocês...